Entre pênaltis, buracos e direitos: o Brasil que luta, sangra e resiste
I — Quando perder também é vencer: o Flamengo e a dignidade diante dos bilhões
Há derrotas que doem. E há derrotas que ensinam. A do Flamengo, na decisão do Mundial diante do Paris Saint-Germain, pertence à segunda categoria — aquela que não diminui, engrandece.
O Flamengo entrou em campo não apenas com onze jogadores, mas com cerca de 50 milhões de torcedores espalhados pelo Brasil e pelo mundo, carregando no peito um escudo que não conhece a palavra rendição. Do outro lado, um time financiado pelo dinheiro infinito do Catar, repleto de estrelas globais, cifras astronômicas e um elenco que custa o equivalente ao orçamento de pequenas cidades brasileiras.
E ainda assim, o Flamengo não se curvou.
Levou o jogo até onde deu. Suportou pressão, respondeu com raça, jogou com inteligência e coração. Foi além do tempo regulamentar, enfrentou a prorrogação e levou a decisão para o território mais cruel do futebol: as penalidades máximas. Ali, onde não se mede apenas técnica, mas nervo, alma e história, o Flamengo acabou superado por 2 a 1.
Mas quem assistiu ao jogo sabe: o Flamengo não perdeu sua grandeza nos pênaltis.
Pelo contrário. Saiu maior. Saiu respeitado. Saiu reafirmando seu lema eterno — vencer, vencer, vencer — mesmo quando o placar não registra a vitória. Porque há partidas que se vencem no espírito, na entrega e na dignidade.
O Flamengo mostrou ao mundo que o futebol ainda pode ser humano em meio à indústria bilionária. Que camisa pesa. Que tradição incomoda. E que, mesmo diante do dinheiro infinito, há coisas que não se compram: identidade, paixão e história.
O torcedor rubro-negro perdeu um título, mas ganhou orgulho. E isso, convenhamos, não tem preço.

II — Entre a esperança e o caos: o Hospital do Médio Sertão e a cidade esburacada
Enquanto o Flamengo disputava o mundo, Palmeira dos Índios disputava a própria sobrevivência cotidiana. Uma cidade que vive dias paradoxais: esperança de um lado, destruição do outro.
A expectativa pela inauguração do Hospital do Médio Sertão, prometida para esta sexta-feira, dia 19, é real, legítima e necessária. Trata-se de uma obra que transcende limites municipais. Não é apenas um hospital para Palmeira, mas para toda uma região historicamente esquecida, onde a saúde sempre foi sinônimo de fila, transferência às pressas e sofrimento silencioso.
O novo hospital representa alívio. Representa dignidade. Representa a chance de salvar vidas mais perto de casa.
E nisso, Palmeira dos Índios merece aplausos.
Mas enquanto se inaugura um hospital, a cidade sangra pelas ruas. Literalmente esburacada, ferida, mutilada pela ação desastrosa da Águas do Sertão, concessionária que assumiu o abastecimento após vencer licitação e comprar a Casal com autorização política do passado — um passado que atende pelo nome de Júlio César, o ex-prefeito que ainda parece acreditar que governa do Olimpo.
O problema é que o imperador imagina Palmeira no céu, quando o povo vive no inferno.
Ruas abertas, buracos abandonados, poeira, lama, prejuízo para comerciantes, risco para pedestres e motoristas. A cidade virou um grande canteiro de obras sem planejamento, sem respeito e sem conclusão. A concessionária cava, some e deixa o caos como cartão de visita.
O hospital chega como alívio para a dor do corpo.
Mas quem vai cuidar das feridas da cidade?
Palmeira dos Índios vive esse contraste brutal: um equipamento de saúde moderno surgindo em meio a uma cidade doente de descaso administrativo e irresponsabilidade empresarial.
A esperança não pode ser usada como maquiagem para esconder o desastre urbano. O povo agradece o hospital — mas exige respeito às ruas, às casas e à própria vida cotidiana.

III — O STF, o marco temporal e o fim de uma aberração jurídica
O terceiro tema não é apenas local. É nacional. E histórico.
O Supremo Tribunal Federal formou maioria definitiva contra o chamado marco temporal, sepultando uma das maiores aberrações jurídicas já concebidas contra os povos indígenas no Brasil. O STF fez o que se esperava de uma Corte Constitucional: defendeu a Constituição.
O marco temporal tentava impor uma mentira histórica: a de que só teriam direito às terras indígenas os povos que estivessem nelas em 5 de outubro de 1988. Ignorava expulsões, massacres, violências e deslocamentos forçados ocorridos antes dessa data. Era uma tese conveniente para interesses econômicos — e cruel com a história real do país.
O Supremo disse não.
E disse com autoridade.
E aqui é preciso deixar algo muito claro: o STF é a última palavra. Nenhuma PEC, nenhuma maioria ocasional do Congresso Nacional, nenhum humor político de plantão pode se sobrepor à Constituição. A questão indígena é cláusula pétrea. Não pode ser mutilada por emenda, barganha ou pressão.
O controle de constitucionalidade pertence ao Supremo. E ponto final.
O Congresso pode até insistir, pode tentar tensionar, pode fazer barulho. Mas a Constituição não se dobra à vontade momentânea da maioria. Esse é justamente o papel do STF: proteger direitos fundamentais quando eles se tornam incômodos.
A vitória indígena é, na verdade, uma vitória da Constituição. E também da civilização jurídica mínima que ainda sustenta este país.
Em tempos de ataques às instituições, o Supremo cumpriu seu dever. E quando isso acontece, não se trata de ativismo — trata-se de responsabilidade histórica.
Epílogo
Do Maracanã ao Médio Sertão.
Dos pênaltis do Flamengo às ruas esburacadas de Palmeira.
Da luta em campo à luta constitucional dos povos indígenas.
O Brasil segue sendo esse país intenso, contraditório, apaixonado e ferido — mas ainda capaz de resistir, lutar e, vez ou outra, fazer o que é certo.
E talvez seja isso que nos mantenha de pé.

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