No paraíso oculto das letras apagadas
Paul Johnson, no livro “Inimigos da Sociedade”, afirmava que uma das grandes delícias da vida é poder compartilhar suas ideias e opiniões. Bem, estou a léguas de distância do gabarito do referido historiador, mas posso dizer que, de fato, ele tem toda razão. É muito bom partilhar o pouco que sabemos com pessoas que, muitas vezes, nos são desconhecidas, pessoas que, por sua vez, pouco ou nada sabem a nosso respeito.
E essa imensidão de desconhecimento que existe entre autores e leitores deve ser preenchida para que aquilo que está sendo compartilhado possa ser acolhido. Vazio esse que só pode ser preenchido por meio de um sincero e abnegado desejo de conhecer e compreender o que está sendo partilhado e de saber quem seria o autor desse gesto.
Para realizarmos essa empreitada, não tem "lesco-lesco": será exigida de nós uma boa dose de paciência, dedicação, desprendimento e amor pela verdade. Bem, é aí que a porca torce o rabo, porque no mundo contemporâneo somos condicionados a querer apenas e tão somente uma satisfação imediata, no ritmo de um clique, e, consequentemente, rasa como tudo aquilo que é feito no calor do momento.
Infelizmente, não são poucas as vezes em que deitamos nossos olhos de forma atarantada nas páginas de um livro, ou nas linhas sinuosas de uma crônica, como se estivéssemos quase perdendo o prazo para apresentar nossa interpretação a respeito daquilo que está sendo [mal] lido por nós para toda a Via Láctea e, agimos assim porque, como nos lembra Byung-Chul Han, somos condicionados pelo meio digital a processar as informações com a mesma velocidade e superficialidade com que as mídias sociais regurgitam montanhas de dados desconexos sobre nós.
Procedendo assim, em vez de compreender o que está sendo lido, acabamos somente projetando um punhado de preconceitos que, feitos escamas, turvam nosso entendimento e, não é à toa, nem por acaso, que terminamos por cultivar uma chusma de incompreensões, devido à inquietude a que fomos digitalmente condicionados.
Enfim, a compreensão somente pode ser construída onde a virtude da paciência pode fazer morada. Paciência para conhecer, compreender e entender o outro. E se ela não tem lugar em nossa vida, no frigir dos ovos, as palavras amor, empatia e similares terminam sendo apenas termos ocos que refletem o vazio que impera em nosso olhar e que habita nossa alma.
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