Música para ouvir e parar de sofrer (aos meus pais)
Hoje vamos de Brazilian Suite No. 5 for Bass Trombone and Cello (Azul Music), novo álbum do compositor João Marcondes. Inovador, Marcondes vem com uma formação camerística singular: um baixo-trombone e o violoncelo, do Música Viva São Paulo, duo formado pela violoncelista Marialbi Trisolio e pelo trombonista Darrin C. Milling.
Os temas de Marcondes me dão a sensação de que hoje não estou lastimando o que me fez desesperançar, mas estou pensando em como agir diante dos tempos ainda mais tenebrosos que poderão vir.
Aos temas.
“Canção” vem como o vento impelindo meus olhos à frente, já que amanheceram olhando para trás, para o dia macabro que já vinha pintando há anos, sem que entendêssemos corretamente a sua carantonha. O som que hoje escuto diz o que não vejo, mas sinto: estou firme como uma rocha... de papel (rs). Parece que levei um soco na cara!
E vem “Choro”: o duo mostra a força profunda dos graves da música, que lança um facho de luz e revela o que (ainda) não consigo ver. Mas logo verei!
Agora, ouço “Xote”, cujo arranjo tem o espirito alegre do gênero. Aliás, mais uma vez, vê-se que o Nordeste é a cara do Brasil!
“Marcha-Rancho”: a sutileza do tema seduz pela repetição que intercala tempos rítmicos a outros que envolvem a característica do rancho.
“Coral” vem como as vozes hoje entristecidas – mas não para sempre! O trombone baixo e o celllo amalgamam-se em desenhos de melodiosa esperança.
A seguir, “Choroso” tem o cello dedilhado numa única corda, até que o trombone traga sua sonoridade, contrastando com a do violoncelo. O arranjo reforça o vigor poético do gênero que é nosso – será que Tio Sam vai querer colonizá-lo? Meu Deus!
“Lamento” fecha a tampa. O trombone soa como um alerta. Sua potência antecede o cello que toca a melodia de admirável riqueza. Sua opulência mostra que o arco que escorrega pelas cordas, como um cobertor a abrigar do frio, aquece os que têm a ventura de ouvir a música de João Marcondes e do Duo Música Viva São Paulo, recompondo-os, graças à esperança renovada.
Carentes de aconchego que amenize a tristeza decorrente do tempo sombrio que hoje espatifou portas e sonhos, jogando dúvidas lancinantes sobre o futuro ser ainda pior do que já é. Terrivelmente real, faremos o quê?
Ora, cientes dos antecedentes criminosos dos fascistas, aceitaremos que o ruim fique ainda pior? Ou vamos fazer como um dia disse José Mujica: “A única derrota que existe é cruzar os braços!”
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
Ficha técnica: Compositor: João Marcondes; intérpretes: violoncelo: Marialbi Trisolio e baixo-trombone: Darrin C. Milling (Duo Música Viva São Paulo); produção de estúdio: João Marcondes (Estúdio Arsis); engenharia de gravação, mixagem e masterização: Adonias Jr. (Estúdio Arsis); selo: Azul Music.
Ouça o álbum:
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