Crianças, eu vi!
No momento em que tudo parecia perdido, busquei socorro em pensamentos bons, em episódios alegres. Delírio ou realidade, pouco importava. Pela necessidade de espantar o baixo astral, só pensei coisas bonitas.
Bem, o que pode ser mais comovedor do que o olhar de um filho para o pai? A ternura traduzida na necessidade de guardar a imagem daquele que o ajudará a crescer, e o protegerá dali pra frente, é tão bela quanto a confiança que o menino tem na fortaleza daquele homem impregnado de amor: imagem imortalizada no tempo infantil.
E quanto ao pai levando o filho para uma volta na calçada, o menino sentado no carrinho, olhando em frente, olhando para até onde os olhos alcançam? Quanto carinho teria ali? Talvez, pensando lá com seus botões, o menino sonhasse que futuro estava chegando. E, sem ter por quê, nem pra quê, ele olha para trás, buscando visualizar o pai, certificar-se de que ele o conduz para a vida que imagina estar logo ali na esquina. Assim, ao longo do passeio eternizado, volta e meia faz contato com os olhos do pai que cantarola baixinho alguma música bem linda. Eis que a vida presente os aprontará para o amanhã que os terá eternamente juntos.
Decerto tal devaneio decorre do fato de eu ter aqui comigo o álbum independente de Celso Viáfora e Pedro Viáfora, Me Deixa Ser o Seu Parceiro, registro de um show homônimo, gravado ao vivo no Centro Cultural São Paulo. No palco, pai e filho sideram a plateia – Nilza e eu estávamos lá.
Cada sorriso, após momentos alegres do show, é uma declaração de amor. Cada composição criada em parceria aproximou a trajetória de Pedro do seu pai. Tudo acrescido pelos quinze anos de carreira solo e no coletivo 5 a Seco. O álbum tem parcerias feitas pelos dois e de cada um individualmente, assim como algumas com diversos parceiros.
Celso é um grande arranjador, o que se comprova em seus 45 anos de carreira e nos doze álbuns já lançados. Em Me Deixa Ser o Seu Parceiro, ele volta a compor e a criar a maioria dos arranjos. Alguns são de Neymar Dias, para um quinteto de cordas formado por Daniel “Cuca” Moreira, primeiro violino, Wassi Carneiro, segundo violino, Émerson De Biaggi, viola, Vana Bock, violoncelo, além de Igor Pimenta no baixo acústico e Gabriel Alterio na percussão.
Registro: conheço Celso há mais de trinta anos, assim como conheço Pedro desde pequeno. Sempre senti entre eles um laço de profundo amor fraternal. Pois bem, hoje, Celso é um compositor e escritor consagrado, e Pedro, um músico louvado pela contemporaneidade que só um jovem talentoso pode ter.
Sendo assim, a qualidade das atuações ao vivo de Celso e Pedro, e de todo o grupo, dá ao trabalho um sonoro e delicioso respiro de virtude estético cultural. Um trabalho com tal sinceridade musical e poética que o qualifica para ser apontado como um dos melhores álbuns ao vivo de 2026.
Aquiles Rique Reis
Nossos protetores nunca desistem de nós.
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