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Em Alagoas, a extrema-direita chega ao poder

05/10/2026

Alagoas aproxima-se de um momento político que poderá representar muito mais do que uma simples alternância de grupos no comando do Estado. O que estará em discussão será uma concepção de sociedade, especialmente em uma unidade da Federação historicamente marcada pela concentração de renda, baixa mobilidade social e profundas desigualdades.

A eventual chegada da extrema-direita ao centro do poder alagoano precisa ser examinada para além dos slogans eleitorais. Redução do papel do Estado, privatizações, prioridade às soluções de mercado, endurecimento das políticas de segurança e tensionamentos com setores críticos da imprensa aparecem em diferentes correntes da direita radical. Em uma sociedade desigual, os efeitos dessas escolhas não são socialmente neutros.

Alagoas não parte de uma posição confortável. Indicadores de renda, desigualdade, alfabetização e mercado de trabalho revelam vulnerabilidades que atravessaram décadas. Embora avanços recentes devam ser reconhecidos, sobretudo na educação, permanece uma dívida histórica que não pode ser resolvida pela simples retirada do Estado.

Para quem dispõe de patrimônio, renda elevada, escola particular, plano de saúde e segurança privada, a diminuição dos serviços públicos pode parecer apenas uma discussão econômica. Para quem depende da escola pública, do SUS, da assistência social e das políticas de emprego, porém, o tamanho e a qualidade do Estado determinam concretamente as oportunidades de vida.

A educação talvez seja o exemplo mais evidente. Alagoas ainda convive com uma pesada herança de analfabetismo e escolarização insuficiente, embora tenha registrado melhora importante nos indicadores educacionais recentes. Esse progresso não constitui argumento para diminuir o investimento público. Demonstra exatamente o contrário: políticas públicas continuadas são capazes de modificar realidades que pareciam permanentes.

Em uma sociedade profundamente desigual, a escola pública não é simplesmente um local de transmissão de conhecimentos. É um dos instrumentos mais poderosos de redistribuição de oportunidades. Cada escola de qualidade representa uma possibilidade de interromper a reprodução hereditária da pobreza.

Cada professor valorizado significa conhecimento chegando a famílias que não poderiam comprá-lo no mercado. Cada jovem que conclui adequadamente sua formação amplia não apenas suas próprias possibilidades, mas a capacidade produtiva de todo o Estado. Educação não é um luxo que se oferece quando sobra dinheiro. É investimento em produtividade, liberdade e cidadania.

O risco aparece quando uma concepção radicalmente fiscalista começa a enxergar a educação predominantemente como despesa. A economia obtida hoje poderá produzir amanhã uma sociedade menos qualificada, mais desigual e com menores possibilidades de crescimento.

O mesmo raciocínio vale para a segurança pública. O Estado tem o dever de combater o crime, proteger seus cidadãos e assegurar a autoridade da lei. Polícia equipada, inteligência, investigação criminal e sistema penitenciário eficiente são indispensáveis.

Mas segurança pública não começa quando um jovem encontra uma viatura policial. Começa muitos anos antes, dentro da escola, na família, no esporte, na cultura, na qualificação profissional e na possibilidade concreta do primeiro emprego.

Uma política que privilegie repressão enquanto reduz oportunidades educacionais atacará consequências sem enfrentar suficientemente as causas. O resultado poderá ser um círculo perverso: baixa escolaridade, precariedade econômica, exclusão, violência, repressão e encarceramento.

O Estado terminará gastando posteriormente em polícia e presídios aquilo que se recusou a investir preventivamente em educação e inclusão econômica. Nenhuma sociedade construiu segurança duradoura apenas multiplicando viaturas.

Maceió merece atenção particular nesse debate. Governar uma capital profundamente desigual exige muito mais do que obras de grande visibilidade, campanhas publicitárias sofisticadas e permanente construção da imagem governamental.

Publicidade institucional é legítima quando informa a população sobre vacinação, matrículas, trânsito, serviços e políticas públicas. A distorção começa quando a comunicação deixa de ter caráter predominantemente informativo e passa a funcionar como instrumento permanente de construção política.

Uma cidade não se transforma porque sua propaganda afirma que ela se transformou. A verdadeira medida de uma administração encontra-se na escola da periferia, no posto de saúde, no saneamento, na mobilidade, na geração de empregos e na possibilidade de uma criança pobre alcançar condições materiais superiores às de seus pais.

Quando a imagem passa a ocupar o lugar da realidade, a propaganda deixa de explicar o governo e começa a fabricar uma versão conveniente dele. O marketing pode melhorar a percepção de uma administração, mas não alfabetiza uma criança, não reduz por si mesmo a desigualdade e não cria desenvolvimento sustentável.

Existe ainda uma consequência particularmente grave na aplicação radical da lógica de mercado a uma sociedade desigual. Quem possui renda compra alternativas. Quem não possui permanece dependente dos serviços públicos.

Nesse contexto, o poder econômico pode influenciar até as possibilidades concretas de viver e morrer. Quem possui dinheiro terá hospitais privados, escolas particulares, segurança e previdência complementar. Quem não possui dependerá integralmente daquilo que permanecer disponível na estrutura pública.

O problema não está na existência do mercado. Uma economia moderna precisa da iniciativa privada, do empreendedorismo, do investimento e da segurança jurídica. O erro está em imaginar que o mercado possa substituir integralmente a função social do Estado.

Mercados distribuem bens principalmente segundo capacidade econômica. Democracias precisam assegurar direitos segundo a condição de cidadania. Confundir essas duas lógicas significa aceitar que oportunidades fundamentais sejam determinadas pela renda.

Há ainda outra fronteira que nenhuma maioria política deveria ultrapassar: a liberdade de imprensa. Governantes democráticos precisam conviver com jornalistas incômodos, investigações constrangedoras, articulistas críticos e opiniões desagradáveis.

A imprensa não existe para proteger governos. Existe também para fiscalizá-los. Quando somente o jornalismo favorável ao poder é considerado legítimo, deixa de existir verdadeira liberdade de imprensa.

A mordaça contemporânea tampouco precisa assumir a forma clássica da censura. Ela pode ser muito mais sofisticada. Pressões econômicas, distribuição discriminatória da publicidade oficial, intimidações, perseguições administrativas e utilização abusiva de instrumentos judiciais podem criar autocensura sem que exista formalmente um censor dentro da redação.

Quando jornalistas começam a calcular não apenas se determinada informação é verdadeira, mas quais consequências pessoais poderão sofrer por publicá-la, surge um problema democrático. Uma imprensa intimidada fiscaliza menos. E poder fiscalizado de menos tende inevitavelmente a expandir-se.

Nesse cenário, a influência da Maçonaria no ambiente do Poder Judiciário alagoano precisa deixar de ser tratada como assunto proibido. Existem evidências públicas de uma proximidade institucional que merece escrutínio rigoroso. Não estamos falando apenas de rumores transmitidos de forma privada, mas de fatos registrados pelas próprias instituições.

O próprio Tribunal de Justiça de Alagoas já divulgou oficialmente solenidades nas quais integrantes de sua estrutura receberam honrarias provenientes do universo maçônico. A relevância está menos na medalha considerada isoladamente do que na naturalidade institucional dessa aproximação: autoridades investidas do poder de julgar são publicamente homenageadas por organizações privadas estruturadas sobre vínculos de fraternidade e reconhecimento entre seus membros.

A cerimônia não ocorreu escondida. Foi registrada institucionalmente, envolveu integrantes de posições relevantes do sistema de Justiça e foi apresentada publicamente como reconhecimento pela contribuição prestada ao próprio Judiciário. A relação, portanto, não pertence apenas ao terreno das especulações: existe uma aproximação pública documentada entre estruturas maçônicas e autoridades do universo judicial alagoano.

Esse fato ganha significado ainda maior quando observado à luz do entendimento do próprio Conselho Nacional de Justiça. O CNJ já estabeleceu que o exercício da magistratura é incompatível com o desempenho da função de grão-mestre da Maçonaria, invocando precisamente a preservação da independência e da imparcialidade do magistrado.

Esse precedente desmonta a ideia de que qualquer discussão sobre relações entre Maçonaria e magistratura seria irrelevante ou preconceituosa. Se o órgão constitucional de controle administrativo do Judiciário reconheceu que determinada posição de comando maçônico é incompatível com a magistratura por razões ligadas à independência e à imparcialidade, então a relação institucional entre esses dois universos é assunto legitimamente submetido ao escrutínio democrático.

A questão torna-se ainda mais delicada pela própria natureza dessas redes. A Maçonaria organiza-se em torno de fraternidade, confiança, reconhecimento mútuo, hierarquias internas e vínculos duradouros entre seus integrantes. Nada disso é ilícito na esfera privada. A preocupação nasce quando relações dessa natureza alcançam pessoas investidas do poder estatal de decidir sobre liberdade, patrimônio, empresas, carreiras e direitos fundamentais.

O cidadão que comparece perante um juiz tem o direito de conhecer circunstâncias capazes de suscitar dúvidas objetivas sobre conflitos de interesses. Esse direito não desaparece simplesmente porque determinada relação associativa pertence à vida privada do magistrado.

A independência judicial não pode significar opacidade. Ao contrário: quanto maior o poder conferido pela toga, maior deve ser a transparência sobre vínculos potencialmente relevantes para o exercício da função.

É nesse ponto que a influência maçônica deixa de ser uma curiosidade histórica e passa a constituir questão republicana. O poder contemporâneo não funciona somente através de ordens escritas. Ele circula por prestígio, acesso, confiança, reciprocidade, reconhecimento, indicações e relações pessoais.

Redes influentes raramente precisam produzir documentos ordenando comportamentos. Sua força reside justamente na capacidade de aproximar pessoas que ocupam posições estratégicas, construir confiança e estabelecer canais de relacionamento que permanecem inacessíveis ao cidadão comum.

Por isso, seria ingênuo reduzir o conceito de influência à existência de uma ordem expressa determinando o resultado de um processo. Influência institucional é fenômeno muito mais complexo. Ela pode existir na facilidade de acesso, na formação de relações de confiança, na circulação privilegiada entre autoridades e no capital social acumulado por organizações capazes de transitar entre diferentes centros de poder.

Quando uma instituição privada homenageia integrantes da estrutura judicial e mantém interlocução pública com autoridades do sistema de Justiça, existe uma relação institucional que precisa ser examinada. O problema não está necessariamente na cerimônia, mas no que ela revela sobre a proximidade entre mundos que, para preservar a confiança pública, deveriam manter fronteiras transparentes.

O Judiciário possui uma característica que torna essa discussão especialmente importante: diferentemente dos integrantes do Executivo e do Legislativo, magistrados não dependem periodicamente do voto popular. Possuem garantias constitucionais justamente para protegê-los das pressões externas. Essas garantias são fundamentais, mas exigem uma contrapartida igualmente forte de transparência e responsabilidade.

Não pode existir independência apenas perante aquilo que é visível e tolerância diante das influências invisíveis. O juiz precisa ser independente do governador, do deputado, do empresário, da igreja, da corporação profissional e também das organizações privadas com as quais mantenha vínculos relevantes.

O debate sobre a Maçonaria torna-se ainda mais necessário porque a própria organização possui estrutura institucional desenvolvida em Alagoas. Há direção estadual, lojas organizadas e estruturas próprias de administração e disciplina. Trata-se de uma rede organizada, permanente e capaz de estabelecer relações sociais entre seus integrantes.

Essa capacidade de articulação não deve ser demonizada, mas tampouco romantizada. Em uma democracia madura, toda rede organizada que mantenha proximidade com centros de poder deve aceitar o escrutínio público correspondente à dimensão dessa proximidade.

O silêncio é exatamente o pior caminho. Transformar perguntas sobre relações entre magistratura e Maçonaria em assunto proibido apenas aumenta a desconfiança.

A Justiça não pode responder a esse questionamento exigindo fé institucional. Democracia não funciona pela fé nas autoridades. Funciona pela possibilidade de fiscalizá-las.

O magistrado possui poderes extraordinários sobre a vida das pessoas. Pode determinar prisões, bloquear patrimônios, afastar agentes públicos, interferir em empresas, decidir disputas políticas e definir o destino de famílias. Não é razoável que tamanho poder seja acompanhado por padrões menores de transparência do que aqueles exigidos dos demais agentes públicos.

A toga não pode transformar relações privadas potencialmente relevantes em assunto imune ao interesse público. A independência judicial precisa ser demonstrada cotidianamente pela conduta, pela transparência e pela ausência de conflitos.

Essa discussão não diminui o Judiciário. Ao contrário, oferece-lhe oportunidade de fortalecer sua legitimidade. Instituições confiáveis não precisam esconder suas relações. Expõem-nas, estabelecem regras claras e demonstram por que elas não interferem nas decisões.

O problema maior surge quando redes privadas de fraternidade e influência convivem com instituições públicas fechadas à fiscalização. Nesse ambiente, o cidadão passa a ter razões para perguntar se todos realmente chegam à Justiça pelas mesmas portas.

Alguns possuem apenas um processo e um advogado. Outros podem possuir relações sociais, institucionais e associativas que alcançam os ambientes nos quais o poder circula. Essa assimetria, ainda que não determine necessariamente o resultado de um processo, já merece preocupação democrática.

Alagoas conhece historicamente os efeitos da concentração de poder. Durante gerações, sobrenomes, relações familiares, influência econômica e proximidade política foram capazes de abrir portas inacessíveis à maioria da população. Uma República moderna deveria romper essa tradição, não substituí-la por novas formas de relacionamento reservado.

É por isso que discutir a influência da Maçonaria sobre os ambientes de poder não é discutir religião nem perseguir indivíduos. É discutir transparência, igualdade de acesso e independência institucional.

O mesmo rigor precisa valer para organizações empresariais, religiosas, políticas, profissionais ou de qualquer outra natureza. Nenhuma rede privada deveria desfrutar de canais privilegiados de relacionamento com quem exerce poder público sem estar sujeita à luz da fiscalização democrática.

A Justiça precisa ser independente do governo, dos partidos, dos grupos econômicos, das corporações e das organizações privadas. Sua legitimidade nasce justamente da certeza de que nenhuma fidelidade externa poderá colocar-se acima da Constituição.

O humanismo também está ameaçado quando instituições se afastam dessa ideia elementar de igualdade. Cada pessoa possui dignidade própria, independentemente de renda, sobrenome, origem social ou capacidade de consumir.

Uma política orientada exclusivamente pela eficiência econômica corre o risco de transformar cidadãos em números. A escola vira custo. O professor vira despesa. A universidade transforma-se em problema orçamentário. O pobre converte-se em estatística. O preso deixa de ser pessoa. O jornalista crítico passa a ser tratado como adversário.

É assim que uma sociedade começa silenciosamente a perder sua dimensão humanista. E Alagoas, precisamente porque carrega uma história profunda de desigualdade e concentração de poder, necessita do caminho inverso.

Nesse cenário, a Assembleia Legislativa poderá assumir papel fundamental. Se o Executivo avançar sobre direitos sociais, reduzir políticas públicas essenciais, concentrar excessivamente o poder ou diminuir os espaços de fiscalização, caberá ao Parlamento exercer aquilo que a Constituição espera de um Poder independente: fiscalizar, debater, limitar e, quando necessário, contrariar o governo.

Democracia não significa concentração ilimitada de poder nas mãos de quem venceu uma eleição. Significa poder distribuído, fiscalizado e limitado por instituições independentes.

A Assembleia poderá desempenhar papel histórico se compreender essa responsabilidade. Mas somente conseguirá fazê-lo se preservar sua autonomia diante do Executivo e resistir ao aparelhamento, ao fisiologismo e às redes informais de influência.

Deputados não foram eleitos para funcionar como funcionários políticos do governo. Foram eleitos para representar a sociedade e fiscalizar aquele que temporariamente ocupa o Executivo.

Alagoas encontra-se, portanto, diante de uma questão maior do que a disputa convencional entre direita e esquerda. O verdadeiro debate será sobre qual Estado pretende construir e quais limites serão impostos ao poder.

Um Estado que abandona os vulneráveis à própria sorte não se torna necessariamente moderno. Pode simplesmente tornar-se indiferente. Um governo que investe intensamente na própria imagem não elimina a desigualdade porque conseguiu produzir uma narrativa eficiente sobre ela.

E uma sociedade que troca educação por repressão pode descobrir tarde demais que nenhuma quantidade de viaturas consegue substituir uma escola que deixou de cumprir sua missão.

Da mesma forma, instituições judiciais não se tornam independentes simplesmente porque proclamam sua independência. Quanto maior o poder de uma instituição, maior precisa ser sua transparência, sua responsabilidade e sua disposição para prestar contas.

A imprensa deverá permanecer livre. A Justiça, independente e transparente. A Assembleia, autônoma. A educação, prioridade. E nenhuma organização privada, maçônica, econômica, religiosa ou corporativa poderá ocupar espaços de influência que deveriam pertencer exclusivamente à República.

Porque desenvolvimento sem humanidade é apenas crescimento de números. E uma democracia na qual o poder visível é fiscalizado enquanto redes privadas de influência permanecem protegidas da luz pública será sempre uma democracia incompleta.

Alagoas, depois de séculos de desigualdade e concentração de poder, não necessita de menos humanidade, menos transparência ou menos controle democrático.

Necessita justamente de mais.