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A crise da atenção no ensino superior e seus efeitos na formação acadêmica

Por Cesar Silva, presidente da Fundação de Apoio à Tecnologia (Fundação FAT) 20/02/2026
A crise da atenção no ensino superior e seus efeitos na formação acadêmica
A crise da atenção no ensino superior e seus efeitos na formação acadêmica

Há um desconforto crescente nas salas de aula do ensino superior brasileiro que já não pode ser tratado como episódio isolado ou questão comportamental menor. Em muitas universidades, a experiência acadêmica tem sido marcada por alunos fisicamente presentes, mas mentalmente ausentes, e por docentes que lutam para sustentar um mínimo de atenção contínua em ambientes concebidos, historicamente, para o debate, a reflexão e a produção de conhecimento.

Esse fenômeno revela algo mais profundo do que o simples uso excessivo de celulares. Ele aponta para uma transformação silenciosa da própria lógica universitária. Quando o ensino superior passa a depender de regras típicas do ensino básico para garantir atenção, silêncio ou participação, o problema não está apenas na tecnologia, está na diluição das fronteiras entre etapas formativas que possuem objetivos, responsabilidades e expectativas distintas.

A universidade pressupõe autonomia intelectual, capacidade de autorregulação e disposição para o confronto de ideias. Ao importar mecanismos de controle próprios de etapas anteriores, corre-se o risco de esvaziar justamente aquilo que define o ambiente universitário: a maturidade acadêmica. Não se trata de defender uma autoridade baseada na imposição, mas de reconhecer que a ausência de limites claros compromete a qualidade do processo formativo.

Há, nesse contexto, um fator estrutural incontornável: a economia da atenção. O espaço universitário passou a competir com sistemas digitais altamente sofisticados, desenvolvidos para capturar atenção de forma contínua e compulsiva. Algoritmos operam em escala industrial para fragmentar o foco, encurtar ciclos de interesse e priorizar estímulos imediatos. A consequência é um ambiente cognitivo incompatível com atividades que exigem concentração prolongada, leitura crítica e elaboração conceitual.

O impacto dessa dinâmica ultrapassa os muros da universidade e alcança diretamente o mundo do trabalho. Pensamento crítico, capacidade analítica, argumentação consistente e foco profundo são competências cada vez mais valorizadas em contextos profissionais complexos e não se desenvolvem em ambientes de atenção intermitente. Se o ensino superior não consegue sustentar sequer cinquenta minutos de envolvimento intelectual contínuo, é legítimo questionar o tipo de profissional que está sendo formado.

Além disso, a universidade sempre foi um espaço privilegiado de socialização acadêmica e profissional. É nela que se constroem redes, se testam ideias, se aprende a discordar e a argumentar com base em evidências. Quando essa experiência é substituída pelo isolamento individual mediado por telas, perde-se uma dimensão essencial da formação: a construção coletiva do conhecimento e da identidade profissional.

É importante deixar claro que o debate não é tecnológico, mas pedagógico e institucional. A tecnologia é parte indissociável da vida contemporânea e tem papel relevante na pesquisa, no ensino e na inovação. O problema surge quando ela deixa de ser instrumento e passa a ocupar o centro da experiência formativa, reconfigurando o estudante de sujeito ativo do aprendizado para consumidor passivo de estímulos.

Nesse cenário, uma pergunta incômoda precisa ser feita com honestidade intelectual: estamos formando profissionais ou apenas usuários altamente conectados com frequência acadêmica? Se a universidade abdica de exigir foco, participação e engajamento crítico, ela não se torna mais moderna ou inclusiva, mas fica cada vez mais frágil.

Preservar o valor do ensino superior exige enfrentar esse debate sem simplificações. Exige clareza sobre o papel da universidade, compromisso com a formação de longo prazo e coragem institucional para estabelecer limites compatíveis com a maturidade que se espera de quem escolheu estar ali. Caso contrário, o risco não é apenas educacional, mas social: diplomas esvaziados, profissionais despreparados e uma universidade que abdica de sua função transformadora para se tornar apenas uma extensão prolongada do ensino médio, sem o cuidado, o método e o propósito que essa etapa demanda.