Alagoas

Entre Lula, Ciro e Flávio, JHC caminha para frustrar a base bolsonarista que o fez inflar

Ao deixar o PL, ingressar num PSDB fragilizado e se aproximar de um cenário nacional distante do bolsonarismo, ex-prefeito de Maceió amplia as dúvidas sobre sua coerência política e arrisca desagradar o eleitor de diteita que o impulsionou em Alagoas

Redação 16/04/2026
Entre Lula, Ciro e Flávio, JHC caminha para frustrar a base bolsonarista que o fez inflar
Ciro Gomes foi convidado para ser candidato a presidente pelo PSDB; JHC terá que segui-lo, frustrando bolsonaristas e decepcionando petistas

A travessia de JHC para o PSDB, vendida por seus aliados como gesto de independência e reorganização de força, começa a revelar um movimento bem menos virtuoso do que pareceu na propaganda. Na prática, o ex-prefeito de Maceió trocou a segurança de um campo político mais identificado com a direita por um partido enfraquecido, de musculatura reduzida, de presença rarefeita no interior e de identidade nacional vacilante.

Não foi uma mudança qualquer. Foi uma mudança com custo, com sequelas e com um rastro de desconfiança.

JHC deixou o PL não porque estivesse desconfortável com o campo ideológico do partido, mas porque seu projeto pessoal e familiar bateu de frente com o arranjo que já vinha sendo desenhado para 2026. O espaço que ele queria ampliar não cabia na costura já em andamento. E, sem conseguir impor sua vontade dentro da engrenagem, preferiu sair, romper e procurar abrigo em outra sigla.

O problema é que o abrigo encontrado tem telhado curto.


O PSDB alagoano não era, até a chegada de JHC, um partido em ascensão. Era uma legenda em estado de quase desaparecimento, sobrevivendo mais pela memória de um passado relevante do que por força real no presente. A sigla estava reduzida, esvaziada e praticamente sem densidade popular. JHC não herdou uma máquina forte. Herdou uma estrutura frágil, quase sem capilaridade, que agora tenta parecer robusta na base da movimentação artificial, das fotos, dos anúncios e da multiplicação de gestos calculados para as redes sociais.

Mas política não é só enquadramento de câmera.


Até aqui, o que se viu foi um esforço para fazer volume com adesões que pouco ou nada alteram o eixo da disputa. Personagens conhecidos apenas em nichos, velhas figuras gastas pelo tempo, lideranças sem a força que se quer aparentar e movimentações vendidas como terremoto, mas que, no máximo, produzem ruído.

JHC tenta reconstruir o PSDB como quem sopra ar num corpo em inanição. O partido, que antes mal respirava, agora aparece maquiado para parecer competitivo. Só que maquiagem eleitoral não substitui lastro político.


E há um dado ainda mais delicado nessa equação: o rompimento com o PL não encerrou a crise. Pelo contrário. Abriu outra.
A reação do antigo partido, ao buscar na Justiça a retomada dos mandatos dos vereadores que seguiram JHC, mostrou que a saída não foi uma simples reorganização doméstica. Foi uma ruptura conflagrada. Há ressentimento, disputa de território, luta por narrativa e guerra aberta por espaço de poder. Isso significa que JHC não apenas deixou um partido: ele saiu deixando um campo hostil para trás.

Como se não bastasse, ganhou outro problema pela frente.


Ao se filiar ao PSDB, JHC passou a depender não só da sua articulação local, mas também do rumo nacional de uma legenda que tenta evitar a irrelevância. E é aí que mora uma armadilha de grandes proporções. Se o PSDB apostar mesmo em Ciro Gomes para a Presidência da República, o ex-prefeito de Maceió estará diante de uma contradição difícil de explicar ao seu eleitorado mais fiel.

Durante muito tempo, JHC orbitou com conforto num ambiente em que o eleitor bolsonarista via nele um nome viável, útil e potencialmente alinhado. Mesmo sem assumir integralmente todas as bandeiras desse campo, ele se beneficiou dessa percepção. Foi lido por muita gente como alguém do lado de cá, e não do lado de lá.

Mas a política cobra coerência quando chega a hora do voto nacional.


Se o partido de JHC tiver Ciro Gomes como referência presidencial, ele terá de conviver com um palanque que não conversa com a alma do eleitor bolsonarista. E mais: terá de administrar a frustração de uma base que pode se sentir usada, deslocada e, sobretudo, traída. Porque uma coisa é flertar com a direita em Alagoas. Outra, muito diferente, é pedir voto dentro de um partido que pode empurrá-lo para um arranjo nacional completamente indigesto para quem queria vê-lo vinculado ao campo conservador.

Essa é a encruzilhada. JHC trocou o desconforto de não mandar sozinho no PL pelo risco de não conseguir explicar a própria identidade política no PSDB. Saiu de uma legenda onde havia conflito por espaço, mas entrou em outra onde pode faltar coerência, densidade e conexão com parte decisiva do seu eleitorado.

No plano local, posa ao lado de novos aliados, ensaia reaproximações, busca fotografias de impacto e tenta transmitir a imagem de quem continua no controle do jogo. No plano real, porém, carrega um passivo crescente: um partido fraco, adesões infladas, litígios com antigos aliados, uma base ideológica desconfiada e um horizonte nacional potencialmente tóxico para sua própria narrativa.

É esse o ponto central.


O problema de JHC já não é apenas partidário. É existencial, do ponto de vista eleitoral. Ele precisa convencer Alagoas de que continua sendo a mesma liderança que muitos imaginavam, mesmo depois de abandonar o partido da direita, entrar num PSDB moribundo e correr o risco de marchar sob a sombra de um presidenciável que divide, agride e repele justamente o público que mais lhe deu impulso político.

Em vez de se fortalecer, JHC pode estar apenas trocando de contradição.

No fim, a pergunta que começa a rondar 2026 é simples e devastadora: ao tentar caber em todos os palanques, JHC não corre o risco de já não caber inteiro em nenhum?