Vida Esportiva

Entenda a 'guerra' entre Fla e Palmeiras: por que os clubes vivem em rota de colisão desde 2025

Troca de notas sobre arbitragem é apenas o capítulo mais recente de uma disputa que já envolveu embates entre Bap e Leila Pereira, a Libra, gramado sintético, a SAF do Vasco e os rumos do futebol brasileiro.

Agência O Globo - 02/08/2026
Entenda a 'guerra' entre Fla e Palmeiras: por que os clubes vivem em rota de colisão desde 2025
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma nota oficial divulgada pelo Flamengo neste sábado, em que o clube afirmou existir uma "percepção" de favorecimento da arbitragem ao Palmeiras e cobrou maior responsabilização dos julgados, não representa um episódio isolado. O comunicado é o mais novo capítulo de uma disputa institucional que se intensificou desde 2025 e transformou a rivalidade entre os dois clubes em um debate permanente também nos bastidores. Nos últimos dois anos, além da disputa pelos principais títulos do país, Flamengo e Palmeiras passaram a trocar críticas públicas por meio de notas oficiais, entrevistas e manifestações sobre arbitragem, direitos comerciais, gramados sintéticos, governança do futebol e até questões empresariais envolvendo outros clubes.

Flamengo segue com a maior torcida do Brasil;

Hobby polva:

O estopim mais recente surgiu após a vitória do Palmeiras por 4 a 0 sobre o Vitória, na última quarta-feira, pelo Campeonato Brasileiro. A partida ficou marcada por decisões de arbitragem, especialmente a expulsão de dois jogadores do clube baiano ainda no primeiro tempo. A atuação do julgado Alex Gomes Stefano e do VAR, comandada por Marco Aurélio Augusto Fazekas Ferreira, provocou forte ocorrência do Vitória e repercutiu nacionalmente.

Na sexta-feira, o Palmeiras publicou uma nota oficial em defesa da arbitragem. Sem citar diretamente seus rivais, o clube afirmou que falsas narrativas foram criadas para atacar os julgados em partidas da equipe e declarou que sua capacidade de competir em alto nível "incomoda" . Também solicitou que fossem respeitadas as decisões de arbitragem e críticas ou que fossem submetidas a exames de investigações futuras escalas e julgamentos.

A resposta rubro-negra veio menos de 24 horas depois. Em um comunicado de mais de três mil caracteres, o Flamengo afirmou que há entre torcedores, profissionais do futebol e parte da opinião pública a percepção de que o Palmeiras vem sendo “reiteradamente beneficiado” pelas decisões da arbitragem. O clube apresentou estatísticas produzidas pelo Espião Estatístico, do ge, para argumentar que o adversário acumula, desde a implantação do VAR em 2020, o maior saldo positivo de decisões revisadas entre os principais clubes brasileiros.

O Flamengo também citou números do Campeonato Brasileiro de 2026 para fortalecer sua argumentação. Segundo o clube, o Palmeiras figura entre as equipes que mais precisam cometer faltas para receber cartões amarelos, enquanto seus adversários aparecem entre os que mais são anunciados quando enfrentam o líder da competição. O comunicado ainda defende que os julgados sejam responsabilizados por erros capazes de influenciar diretamente a classificação do campeonato, a disputa por títulos, vagas em competições internacionais e até o rebaixamento.

Uma rivalidade que saiu do campo

Apesar do novo atrito girar em torno da arbitragem, a rivalidade institucional entre os dois clubes começou a ganhar contornos mais duros em 2025. Naquele ano, Flamengo e Palmeiras passaram a divergir praticamente em todos os principais debates do futebol nacional, como a criação da liga, a negociação dos direitos de transmissão do Campeonato Brasileiro, a distribuição de receitas, a relação com a CBF e o uso de gramados sintéticos. A cada novo desacordo, as divergências deixavam os bastidores para serem expostos publicamente.

Um dos episódios mais marcantes ocorreu em setembro de 2025, quando o Flamengo conseguiu uma liminar na Justiça suspendendo temporariamente o repasse de cerca de R$ 77 milhões da Libra aos clubes integrantes do bloco. A decisão provocou forte acontecimento do Palmeiras, que publicou uma das notas oficiais mais duras da rivalidade. No texto, o clube paulista classificou a postura do Flamengo como "predatória" , "torpe" e "arrogante" , além de acusar o rival de tentar "asfixiar financeiramente" os demais associados para obter vantagens nas negociações comerciais.

O comunicado do Palmeiras afirmava ainda que a diretoria rubro-negra agia de maneira incompatível com o espírito coletivo que motivou a criação da Libra e lembrava que o Flamengo havia se recusado, meses antes, a aderir a um manifesto da liga em defesa do combate ao racismo no futebol sul-americano. Dias depois, a própria Libra divulgou uma nota rebatendo os argumentos apresentados pelo clube carioca e defendendo a condução do processo de negociação dos direitos comerciais.

As divergências em torno da liga continuaram ao longo dos meses seguintes. Em 2026, o Palmeiras anunciou sua saída da Libra, alegando discordâncias em relação ao modelo de governança e ao boato das negociações dos direitos de transmissão. Embora a decisão tenha sido justificada oficialmente por diferenças de entendimento sobre o projeto, ela aprofundou ainda mais o distanciamento entre as diretorias do Palmeiras e do Flamengo, que passou a defender modelos distintos para a organização comercial do Campeonato Brasileiro.

A escalada dessa tensão coincidiu com a chegada de Luiz Eduardo Baptista, o Bap, à presidência do Flamengo. Desde que assumiu o cargo, no início de 2025, o dirigente mudou um discurso mais confrontador em relação ao Palmeiras e à própria Libra. Em entrevistas, passei a questionar a forma como as decisões foram tomadas dentro do bloco e sugeriu que houve influência excessiva do clube paulista nas negociações envolvendo o futebol brasileiro.

Em outubro do ano passado, Bap chegou a afirmar que Libra era palmeirense , em referência ao protagonismo do clube nas discussões sobre uma futura liga. Na mesma ocasião, ironizou sua relação com Leila Pereira ao afirmar que ela era “ótima quando você concorda com tudo que ela quer” . A fala teve ampla repercussão entre dirigentes e marcou uma mudança de tom nas relações entre os clubes.

Leila Pereira respondeu em diversas oportunidades. Em maio deste ano, afirmou que Bap tinha uma "alucinação pelo Palmeiras" e que o dirigente parecia falar mais do clube paulista do que do próprio Flamengo. Em outra ocasião, chegou a dizer que o presidente rubro-negro tinha um “hiperfoco” nela e no Palmeiras, indicando que boa parte das manifestações públicas do dirigente eram motivadas pela rivalidade entre os clubes.

Indiretas após a demissão de Filipe Luís

Em março deste ano, um dia após a demissão de Filipe Luís ao comando do Flamengo, Leila Pereira comentou o caso durante entrevista antes da final do Campeonato Paulista. Embora tenha evitado criticar diretamente o clube carioca, classificou como uma "falta de respeito absurda" a missão de profissionais "no calor dos acontecimentos" , fazendo referência ao fato de o Flamengo ter anunciado a saída do treinador ainda durante a madrugada. Também afirmou que muitos dirigentes tomaram decisões para "jogar para a torcida" ou "ficar bonito para alguns jornalistas" .

Questionada na mesma entrevista sobre uma publicação feita horas antes, em que escreveu que, no Palmeiras, os profissionais têm "tranquilidade para trabalharem" , Leila negou que a mensagem fosse uma indireta ao Flamengo. O dirigente afirmou que o objetivo era apenas destacar o ambiente de trabalho oferecido pelo clube e disse procurar proporcionar estabilidade aos atletas e à comissão técnica. Apesar da explicação, a postagem e as declarações foram amplamente associadas à missão de Filipe Luís pelo momento em que fizeram e alimentaram mais um capítulo da rivalidade entre as diretorias.

Outro tema que alimentou a rivalidade foi o uso de gramados sintéticos. Em dezembro de 2025, o Flamengo apresentou à CBF uma proposta para extinguir gradualmente esse tipo de superfície na Série A. O Palmeiras reagiu imediatamente. Leila classificou a iniciativa como "clubista" , acusou o rival de divulgar informações falsas sobre o tema e afirmou que, antes de criticar o gramado artificial, o Flamengo deveria se preocupar com a qualidade do gramado do Maracanã.

O dirigente também defendeu que não existem evidências científicas capazes de comprovar maiores incidências de lesões em campos sintéticos e sustenta que o Allianz Parque atende aos padrões exigidos pelas entidades que organizam o futebol.

A SAF do Vasco ampliou o conflito

A disputa ganhou um ingrediente inesperado quando surgiu a possibilidade de Marcos Lamacchia, contratado por Leila Pereira, participar das negociações para a compra da SAF do Vasco. O assunto rapidamente extrapolou o mercado e virou mais um capítulo da rivalidade entre as diretorias.

Bap afirmou que, caso a operação fosse concluída, o Flamengo estudaria medidas judiciais para entender que poderia haver conflito de interesses caso pessoas do mesmo núcleo familiar passassem a exercer influência sobre clubes que disputam as mesmas competições nacionais.

Leila reagiu imediatamente. Negou qualquer participação na negociação envolvendo o enteado, afirmou que o presidente do Flamengo “não vê a hora” de sua saída do Palmeiras e chegou a dizer que avaliava processá-lo pelas declarações.