Vida Esportiva

Com talentos geracionais, Espanha mira segunda estrela na Copa do Mundo feminina do Brasil

Seleção manteve as referências e já conta com a próxima geração para disputar mais um título

Agência O Globo - 27/07/2026

Uma das máximas mais famosas do esporte diz que mais difícil do que chegar ao topo é manter-se lá. No futebol, em que nem sempre o melhor é coroado, isso se comprova a cada temporada e em cada competição. Por isso, para construir um ciclo vitorioso, um projeto estruturado e investimentos estratégicos são imprescindíveis. E foi assim que a Espanha atingiu um feito inédito no futebol mundial: com seleções compostas majoritariamente por atletas 'da casa', se tornou o primeiro país a conquistar as Copas do Mundo masculina e feminina ao mesmo tempo.

De estreantes em 2015 a campeãs em 2023, a campanha do título mundial começou anos antes, com o fortalecimento nas categorias de base. Esse processo transformou o futebol espanhol em protagonista e foi fundamental para que o time chegasse mais preparado para disputar o título de 2023, como destacou a goleira Cata Coll na ocasião.

— Temos muitas jogadoras que passaram pelas seleções nas categorias inferiores, jogaram muitas finais. Isso faz com que a gente tenha experiência em torneios grandes. Ajudou muito.

Em 2018, ela foi campeã da Copa Sub-17, sendo eleita a melhor goleira da competição, enquanto Claudia Pina foi a artilheira. No sub-20, no mesmo ano, bateram na trave numa campanha que teve Patri Guijarro como artilheira e melhor jogadora. Em 2022, veio a dobradinha: no título da sub-17, Vicky López mostrou suas credenciais e recebeu prêmio de melhor atleta, enquanto, na categoria acima, Salma Paralluelo decidiu a final marcando dois gols.

De Alexia Putellas à Vicky López: Espanha tem identidade e renovação

Antes disso, jogadoras como Aitana Bonmatí, dona das três últimas Bolas de Ouro, e Alexia Putellas, duas vezes vencedora do prêmio, já haviam se consagrado campeãs europeias na base. Foi com esses nomes que se credenciaram ao título na Austrália, e é com eles que chegam ainda mais fortes para buscar a segunda estrela no Brasil, em 2027.

O desenvolvimento da seleção feminina espanhola se confunde com o do Barcelona. Pioneiro na profissionalização da modalidade, em 2015, deu mais condições de preparação ao time, alavancando seu crescimento na medida em que o Barça se tornava um dos principais times do mundo. Em 2020, a liga seguiu o mesmo caminho e, dois anos depois, se desdobrou em outras divisões, acelerando a revelação de novos nomes como Lucía Corrales, de 20 anos, uma das primeiras residentes de La Masia, que em 2021 defendia o Barcelona B e hoje está na seleção de Sonia Bermúdez.

Esse projeto pautado em identidade fez com que a renovação viesse de forma natural também na seleção, como explicou Monica Esperidião, executiva da FSports e com uma década de experiência no futebol feminino espanhol. Assim, as jovens Paralluelo (22 anos), Corrales, López (19), e Serrajordi (18) se juntaram às experientes Patri (28), Mapi León (30), e Mariona (30), além de Alexia (32) e Aitana (28), numa mistura promissora de talentos geracionais.

— A renovação da Espanha funciona porque eles mantêm uma identidade tática muito rígida. O investimento focado nos clubes e na estrutura de formação, como La Masia, faz com que a transição de gerações seja natural. Jogadoras jovens como a Vicky Lopez e a Lucia Corrales sobem para o time principal com o mesmo chip tático da Alexia e da Aitana. A engrenagem roda da mesma forma. — disse.

Na beira do campo vale o mesmo. Depois do longo período de Jorge Vilda como técnico, Montsé Tomé, que era auxiliar, assumiu até 2025. Foi quando Bermúdez, que treinava a base, foi promovida ao time principal. Ex-jogadora do Barcelona, acompanhou o amadurecimento do campeonato e das atletas, conhecendo profundamente o cenário nacional e a forma de jogar da Espanha.

No entanto, o destaque das jogadoras espanholas as colocou na mira do futebol inglês, a liga mais forte do mundo. Das relacionadas para o último jogo das Eliminatórias, contra a Suécia, metade já atua fora, e cinco das titulares estão na Inglaterra, trazendo novos elementos ao time.

Espanha x Brasil: caminhos diferentes para as candidatas ao título

O salto de desenvolvimento do futebol feminino brasileiro e os últimos resultados em confrontos com grandes seleções empolgaram o torcedor, que tem razão em acreditar em um título histórico em casa. No entanto, as comparações precisam de cautela, uma vez que os projetos estão em estágios diferentes de desenvolvimento.

Sonia Bermudez assumiu o comando do time espanhol apenas em 2025 — enquanto Arthur Elias (44) assumiu em 2023 —, mas o projeto do qual faz parte é mais longevo e estruturado do que o brasileiro, que ganhou impulsão após 2019, quando a obrigatoriedade da Conmebol e CBF entrou em vigor. Até então, o futebol nacional teve resultados expressivos, como o vice-campeonato mundial de 1999 e 2007, e as pratas Olímpicas de 2004 e 2008, mas carecia de um processo sólido de formação para que a modalidade decolasse.

— Antes, o Brasil dependia quase que exclusivamente do talento espontâneo, que surgia de forma acidental. Hoje, a realidade mudou. A obrigatoriedade da base nos clubes e o fortalecimento do calendário criaram um sistema de fato. Ver meninas como a Dudinha e a Tainá surgindo mostra que o Brasil finalmente começou a estruturar a sua formação. — comentou Monica.

Em comum, pode-se citar o impacto de Barcelona e Corinthians que, em condições distintas, puxaram os rivais para cima e abriram o caminho para que outros clubes investissem mais no futebol feminino. Treinador do clube paulista no período mais vitorioso de sua história, Arthur Elias não só testemunhou esse desenvolvimento, como foi parte importante ao lado de Cris Gambaré, hoje coordenadora de seleções femininas da CBF.

Nesse ciclo, o treinador já promoveu a estreia de jovens talentos das seleções de base, como Evelyn (18) e Kaylane (17), mas ainda conta com suas veteranas: Marta atua em alto nível nos EUA, ao lado de Angelina, Rafa e Luana; Bia Zaneratto retornou ao Palmeiras e forma dupla poderosa com Tainá. No Atlético de Madrid, Gio e Luany assumiram o protagonismo, assim como Kerolin fez no Manchester City e fará no Barcelona enquanto contratação mais cara da história.

— O Brasil ganha rodagem internacional num ritmo acelerado. Um trunfo estratégico para nós é essa presença forte de brasileiras na Liga F: ter atletas como a Luany, a Gio e a Lauren no Atlético de Madrid, a Antônia no Real Madrid, a Mônica Hickman no Madrid CFF e agora a Kerolin no Barcelona nos dá um 'radar por dentro'. Elas vivem o futebol espanhol no dia a dia, decifram esse estilo e trazem essa vivência para a Seleção. — analisou Monica.