Vida Esportiva

Amarildo, bicampeão da Copa do Mundo, é esquecido pelo futebol enquanto enfrenta Alzheimer

Ex-jogador está internado em hospital no Rio de Janeiro desde 2023. Família reclama de falta de apoio e reconhecimento.

Agência O Globo - 26/07/2026
Amarildo, bicampeão da Copa do Mundo, é esquecido pelo futebol enquanto enfrenta Alzheimer
Amarildo

A Argentina de Lionel Messi até tentou, mas com a derrota para a Espanha na final, não conseguiu repetir o feito do Brasil de 1962, o último bicampeão consecutivo da história das Copas do Mundo, que teve Amarildo como um de seus grandes personagens. Agora, no entanto, mais de seis décadas depois, o atacante que brilhou ao substituir Pelé no Mundial enfrenta o Alzheimer e, aos 86 anos, está internado em um hospital desde 2023, enquanto cai no esquecimento no futebol brasileiro.

Em 2011, Amarildo foi diagnosticado com carcinoma na laringe — tumor maligno que afeta partes da garganta. Segundo seu filho, Rildo Corrêa, a situação era tão grave que não era possível fazer cirurgia, e o tratamento foi realizado com quimioterapia e radioterapia. Após muitas sessões de uma nova radioterapia, específica para o seu caso, o ex-jogador superou o câncer, mas teve a região cerebral afetada pelo tratamento.

A família, então, suspeitou de problemas relacionados ao raciocínio, e em 2018 veio o diagnóstico de Alzheimer. Amarildo ainda sofreu três AVCs isquêmicos em 2023 e não deixou mais o hospital — ele está internado em estado grave no Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro.

— O quadro clínico do meu pai é complicado. Ele perdeu a visão e é alimentado por sonda gástrica. A situação dele é muito, muito difícil. A gente sabe que o Alzheimer é uma condição degenerativa, mas fazemos de tudo para que ele possa viver dignamente — contou o filho do ex-jogador, que trabalha como Perito Assistente Técnico Criminal, em entrevista ao GLOBO.

Rildo e sua mãe Fiamma Silveira, esposa de Amarildo, fazem companhia ao ex-atleta no hospital, enquanto os custos são arcados pelo plano de saúde disponibilizado pela CBF. A família, porém, vê um campeão do mundo ser esquecido pelo futebol brasileiro, enquanto ele passa anos em uma cama de hospital.

— Acho que o problema maior no futebol é a ingratidão. E vejo que meu pai foi colocado num total esquecimento. O que ele fez nunca foi valorizado da forma que merecia — frisou Rildo.

Atualmente, Amarildo pouco recebe apoio, visitas ou homenagens de ex-jogadores e clubes do Brasil. As exceções são Paulo Cézar Caju e Carlos Roberto, ambos ex-Botafogo, Bebeto, Vanderlei Luxemburgo e Dunga. Esses, segundo Rildo, estão sempre em contato com a família e à disposição para ajudar.

— Não é só o Amarildo que não tem reconhecimento, poucos jogadores têm aqui no país. Não sei se é porque o Brasil foi cinco vezes campeão do mundo. Na Inglaterra, por exemplo, ganharam uma e os caras são “deuses”. Não sei se a gente tem dificuldade de homenagear e reconhecer os campeões, e seguramente o Amarildo não é reconhecido — destacou Dunga, campeão mundial em 1994 e técnico da seleção na Copa de 2010.

A história de Amarildo

Amarildo chegou ao Mundial de 1962 como reserva de Pelé e recebeu a dura missão de substituí-lo no segundo jogo, quando o Rei deixou o torneio por lesão. O Possesso, como era chamado, deu conta do recado e, ao lado de Garrincha no ataque, marcou três gols na campanha do bicampeonato: dois na virada por 2 a 1 sobre a Espanha, na fase de grupos, e um na final contra a Tchecoslováquia, na vitória por 3 a 1 que garantiu o título da seleção brasileira.

— Meu pai sempre falava que, quando o Pelé se machucou, parecia que a seleção vivia aquele momento como se fosse um luto. E meu pai ficava meio estranho porque percebeu que todo mundo se achou meio perdido, mas ele estava bem confiante e foi o escolhido para substituir o Pelé. E assim meu pai fez dois gols e calou a boca de muita gente que falava que a Copa tinha terminado para o Brasil sem o Pelé — revelou o filho.

Já por clubes, o atacante brilhou e tornou-se ídolo especialmente com a camisa do Botafogo, com 136 gols em 201 jogos. Depois da grande atuação na Copa, construiu uma história vitoriosa na Itália, onde criou forte identificação, passando por Milan, Fiorentina e Roma. No Brasil, ele também jogou por Goytacaz e Flamengo, no início da carreira, e depois se aposentou no Vasco. Uma história, no entanto, que parece ter ficado no passado no Brasil.

— Depois fica muito fácil falar de uma pessoa quando ela não está mais aqui. Aí vêm aqueles dois ou três dias de homenagens. Mas isso não serve. Posso dizer que meu pai é uma figura muito, muito mais valorizada na Itália, pela história que fez nos clubes, do que aqui no Brasil — lamentou Rildo.

— Quando meu pai era treinador lá na Itália, a gente se encontrava várias vezes com o Maradona. Tenho lembranças muito boas do carinho dele com meu pai. Uma vez, isso eu nunca vou esquecer, em um evento em Milão, em 1990, Maradona estava sentado perto do meu pai, botou a mão no ombro dele e, com o microfone, falou: "O Brasil tem que agradecer muito porque ganhou a Copa de 62 por causa dessa pessoa aqui".