Vida Esportiva

Garrincha, Pelé e Zico: conheça os principais filmes do diretor Luiz Carlos Barreto sobre futebol

Lendário nome do cinema brasileiro morreu nesta quarta-feira, aos 98 anos

Agência O Globo - 22/07/2026
Garrincha, Pelé e Zico: conheça os principais filmes do diretor Luiz Carlos Barreto sobre futebol
Pelé - Foto: Jorge Bispo/CBF/Direitos Reservados

O futebol não foi apenas um tema recorrente na obra de Luiz Carlos Barreto, o Barretão . Ele antecedeu o cinema em sua vida: Barreto foi jogador, fotógrafo esportivo, testemunha de Copas do Mundo, torcedor e participante da política do Flamengo. Depois, transformou toda essa experiência em Garrincha, Pelé, Zico e a paixão clubística dos torcedores brasileiros.

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O lendário nome do cinema brasileiro faleceu na madrugada desta quarta-feira, aos 98 anos. Ele vinha com a saúde debilitada desde março de 2024, quando sofreu uma queda visitando seu estado natal, o Ceará, para uma homenagem, e estava internado desde a última terça-feira.

A obra fundamental da relação entre Barretão e o futebol é "Garrincha, Alegria do Povo" , lançada em 1963 e dirigida por Joaquim Pedro de Andrade. Barreto foi produtor, colaborou no roteiro e participou da equipe de filmagem.

Uma das sequências mais importantes foi registrada no Botafogo 3 x 0 Flamengo, em 15 de dezembro de 1962, diante de mais de 146 mil pessoas no Maracanã. Garrincha marcou os três gols. Para captar o espetáculo, foram distribuídas cinco câmeras pelo estádio: atrás dos gols, nas laterais e em uma posição elevada. Barreto operou uma delas com Glauber Rocha como assistente.

O filme ajudou a modificar a linguagem visual usada para mostrar as partidas. Em vez de registrar apenas o campo de forma distante, Joaquim Pedro e sua equipe utilizaram lentes de longo alcance para destacar rostos, gestos e reações individuais da torcida. Segundo Barreto, a técnica depois de ser incorporada pelo Canal 100, famosa por suas imagens cinematográficas do futebol brasileiro.

Mais do que uma biografia esportiva, "Garrincha, Alegria do Povo" apresenta o jogador como expressão do Brasil popular: o talento espontâneo, a origem humilde, a alegria, a multidão e também as contradições sociais que cercavam o ídolo.

Pelé, Zico e o retorno a Garrincha

Em "Isto É Pelé" , de 1974, Barretão dividiu a direção com Eduardo Escorel. O documentário reconstruiu a carreira do camisa 10 por meio de imagens do Canal 100 e dos arquivos da TV Globo, passando pelos títulos das Copas do Mundo de 1958, 1962 e 1970, pelos anos no Santos e por mais de uma centena de gols. Durante décadas, apareceu como um dos registros audiovisuais mais completos da trajetória de Pelé.

Em 1978, produziu "Mané Garrincha" , curta-metragem dirigido por seu filho Fábio Barreto. Diferentemente do filme de 1963, marcado pelo auge do jogador, esta obra mostrava Garrincha depois da fama, enfrentando o declínio profissional e pessoal.

Barreto também produziu "Uma Aventura do Zico" , lançado em 1999 e dirigido por Antonio Carlos da Fontoura. Voltado para o público infantil, o filme apresentou Zico interpretando o mesmo em uma trama envolvendo o sequestro e a clonagem do ex-jogador.

A rivalidade vira comédia romântica

Outro projeto importante para Barretão foi "O Casamento de Romeu e Julieta" , dirigido por Bruno Barreto e lançado em 2005. O filme adapta uma história de Mario Prata sobre o romance entre uma palmeirense fanática e um corintiano que, para conquistar a família da namorada, finge torcer pelo rival Palmeiras.

Luiz Carlos Barreto considerava esse seu filme de futebol preferido porque a paixão esportiva não aparecia separada da vida cotidiana. A rivalidade interferiu no namoro, na família, nas amizades e na identidade dos personagens.

Para reconstruir as partidas, a produção utilizou jogadores das categorias de base do Palmeiras. As jogadas foram ensaiadas durante aproximadamente uma semana, com a participação do ex-atacante Cláudio Adão e de Paula Barreto, filha de Barretão. A experiência reforça uma verdade do produtor: partidas reais são extremamente difíceis de reproduzir, porque o jogo possui movimentos, improvisos e emoções que não obedecem facilmente a um roteiro.

Torcedor e participante da vida política do Flamengo

Barretão se definia como rubro-negro e costumava dizer que, no Rio, seguia a máxima "uma vez Flamengo, sempre Flamengo" — embora também tivesse simpatia pelo São Paulo quando estava na capital paulista.

Na década de 1970, ele participou da formação da Frente Ampla pelo Flamengo, grupo que reuniu jornalistas, publicitários, empresários e figuras da cultura em torno de uma proposta de modernização administrativa do clube. O movimento apoiou a primeira eleição de Márcio Braga e chegou ao poder em 1977, antes do período mais vitorioso da história rubro-negra, marcado pela geração de Zico e pelos títulos brasileiros, da Libertadores e do Mundial.

O futebol também entrou em sua família. Sua filha Paula Barreto foi casada com Cláudio Adão, atacante de passagem marcante pelo Flamengo. O filho do casal, Felipe Adão, teve carreira profissional e atuosa por clubes como Botafogo e Flamengo.

O que o futebol representava para Barretão

Na visão de Barreto, um bom filme sobre futebol compreendia necessariamente duas coisas: a dramaturgia interna da partida e a paixão do torcedor. Por isso, seus trabalhos não se limitaram a registrar gols ou reconstituir biografias.

Garrincha representava o Brasil popular e imprevisível. Pelé permitiu narrar o surgimento de um ídolo mundial. Zico ligou o futebol à memória afetiva infantil e ao Flamengo. O Casamento de Romeu e Julieta mostrou como um clube pode organizar relações familiares, amorosas e sociais.