Vida Esportiva

Campeão mundial Steve Mandanda relata luta contra depressão após aposentadoria

Ex-goleiro francês revela em livro o impacto emocional do fim da carreira e o desafio de recomeçar

Agência O Globo - 13/05/2026
Campeão mundial Steve Mandanda relata luta contra depressão após aposentadoria
Steve Mandanda - Foto: Reprodução / Instagram

Campeão do mundo pela França em 2018 e ídolo do Olympique de Marselha, o ex-goleiro Steve Mandanda revelou enfrentar sérios desafios de saúde mental após sua aposentadoria no futebol, ocorrida no ano passado.

Em seu livro "Les jours d'après" (Os dias seguintes, em tradução livre), Mandanda compartilha como perdeu o sentido da vida nos dias sem rotina esportiva. A obra, que será lançada quarta-feira, teve trechos antecipados pelo jornal francês L'Équipe .

— Nas últimas semanas, quase nada teve sabor. É julho, estou sozinho, está quente, a janela está entreaberta, Rennes em pleno verão. Estou oscilando como um pêndulo. Meus dias são intermináveis ​​e vazios. Vazios de energia. Vazios de significado. Não estou bem. Não estou fazendo nada, absolutamente nada. O que estou fazendo da minha vida? Estou desempregado, deitado no meu sofá sem nem saber o que estou esperando, sem saber o que quero. Não quero nada.

A perda da rotina de jogador foi um duro golpe para Mandanda, que sente falta dos jogos, treinos e da convivência com os companheiros de equipe.

— Afinal, qual é a minha área de atuação? O sofá? Uma casa? Andar de um lado para o outro? Do que sou capaz, depois de vinte e cinco anos no mais alto nível? Não tenho agenda, não tenho ritmo, não tenho compromissos, nada. É catastrófico. Não gosto de nada na minha vida agora. Acho que estou infeliz. Ou pelo menos perdido. Estou sem rumores. Não tenho mais meus dois objetivos, nem o jogo à minha frente. Não tenho mais o vestiário, a segurança de capitão, os olhares, as palavras, as piadas, os companheiros de equipe, nossos cafés, as conversas em grupo, os treinos — descreve o francês.

— Engordei três ou quatro quilos e isso já não é aceitável. Quando não estou fazendo nada, tendo a comer, uma bebida refrigerante. É um verdadeiro ciclo vicioso: saio menos porque não quero que as pessoas me vejam assim. Eu isolado. Quando acordo, no espelho, vejo as olheiras. E por aí vai… Passei de vinte e cinco anos de uma vida diária meticulosamente planejada para… nada. Sem horários, sem ritmo. A sensação de vazio é abismal em alguns dias… As semanas são muito parecidas.

Apesar das dificuldades iniciais, Mandanda afirma que, com o tempo, conseguiu lidar melhor com a nova fase.

— Um ano depois, posso dizer que estou melhor. Sinceramente, acho que processei tudo. Segui em frente, sim. Não sinto mais emoções negativas, não tenho mais aqueles pensamentos estranhos que costumavam me passar pela cabeça… Pat (Patrice Evra) me disse que passou pelas mesmas coisas que eu quando encerrou a carreira, sentindo as mesmas coisas, uma espécie de cópia fiel da minha própria vida. Aquele vazio inicial, aquela sensação de inutilidade, aquela coisa que fica girando em círculos, onde você diz a si mesmo que não está fazendo nada de interessante.

Mandanda se aposentou do futebol defendendo o Rennes, da França, em setembro de 2025, aos 40 anos. Ele foi reservado da seleção francesa na conquista da Copa do Mundo de 2018 e, ao todo, disputou 35 partidas pelo horário nacional.