Vida e Saúde

Cuidado e acolhimento são essenciais à saúde da mulher

Especialista orienta sobre cuidados de saúde, atendimento humanizado e a importância da rede de apoio em situações de violência sexual

25/09/2026
Cuidado e acolhimento são essenciais à saúde da mulher

Nenhuma mulher deveria passar por uma situação de violência sexual. Quando isso acontece, é fundamental que ela encontre uma rede de cuidado, atenção e acolhimento, com atendimento humanizado, respeito às suas decisões e acompanhamento médico, psicológico e social especializado.

A professora Wanderliza Coutinho, da pós-graduação em Ginecologia da Afya Educação Médica Maceió, explica que a primeira conduta dos profissionais de saúde deve ser garantir privacidade, segurança e acolhimento. Para ela, a forma como a mulher é recebida pode fazer diferença em todo o processo de recuperação. “O acolhimento é, antes de tudo, acreditar na mulher e oferecer um ambiente seguro para que ela possa ser atendida com dignidade. É preciso explicar cada etapa do atendimento antes de qualquer procedimento, pedir consentimento e respeitar o tempo e os limites de cada paciente”, afirma.

A busca por atendimento médico nas primeiras horas é especialmente importante para reduzir riscos à saúde. Entre os cuidados estão a prevenção da gravidez, a prevenção de infecções sexualmente transmissíveis, incluindo HIV, sífilis e hepatites, além da avaliação e tratamento de possíveis ferimentos.
A Profilaxia Pós-Exposição (PEP) para HIV deve ser iniciada em até 72 horas após a exposição, sendo quanto mais cedo, melhor. Já a contracepção de emergência pode ser utilizada em até cinco dias, embora também seja mais eficaz quando adotada o quanto antes.

“O tempo é um fator importante na prevenção de consequências para a saúde. Por isso, a recomendação é que a mulher procure um serviço de emergência o mais rapidamente possível após a violência”, alerta a especialista.

Outro cuidado é a preservação de possíveis vestígios que possam contribuir para uma eventual investigação. A coleta deve seguir protocolos específicos e precisa ser realizada com consentimento e transparência. “A coleta de vestígios deve ser explicada de maneira clara e respeitosa, deixando a mulher ciente de cada procedimento. Ela precisa compreender que tem autonomia para decidir sobre as etapas do atendimento e que seus limites devem ser respeitados durante todo o processo”, explica Wanderliza.

Para a especialista, evitar a revitimização também é fundamental. Comentários que questionem o comportamento da vítima, como perguntas sobre suas roupas, o local onde estava ou por que não reagiu, devem ser evitados. “O atendimento precisa ter uma postura neutra, acolhedora e livre de julgamentos. Questionamentos que possam responsabilizar a vítima pela violência contribuem para a revitimização e podem dificultar a busca por ajuda”, destaca.

O acompanhamento também precisa ir além da consulta ginecológica. Profissionais de psicologia, enfermagem, assistência social e outras áreas podem atuar de forma conjunta para atender às diferentes necessidades da mulher, desde os cuidados físicos até o suporte emocional e social. “A violência sexual não atinge apenas o corpo. Ela também pode afetar a saúde mental, os relacionamentos e a vida social da mulher. Por isso, uma atuação multidisciplinar é fundamental para que ela receba um cuidado integral, e não apenas o tratamento das consequências físicas”, afirma Wanderliza.

Os impactos podem persistir mesmo após o atendimento inicial. “Mesmo quando os exames físicos não apresentam alterações, é importante observar a saúde emocional. Sintomas psicológicos podem surgir ou permanecer ao longo do tempo. O acompanhamento especializado é fundamental para a recuperação. Cuidar da saúde mental também faz parte do processo de cura”, orienta.

A rede de apoio também tem papel importante. Familiares e amigos devem ouvir sem julgamentos, respeitar o tempo da mulher e evitar pressioná-la a denunciar ou falar sobre o ocorrido. Também é importante evitar frases que atribuam responsabilidade à vítima ou questionem suas decisões. “A decisão sobre como conduzir a situação deve ser respeitada. A família e os amigos precisam oferecer apoio, escuta e segurança, sem pressionar a mulher a tomar decisões para as quais ainda não esteja preparada”, afirma a especialista.

A mulher em situação de violência sexual tem direito ao atendimento pelo SUS, incluindo cuidados médicos, prevenção de gravidez e infecções sexualmente transmissíveis, além de suporte psicológico e social.

Para quem ainda não procurou ajuda, a mensagem da especialista é direta: “A culpa nunca, jamais, será da vítima. A única pessoa responsável pela violência é o agressor. O medo e a vergonha não devem impedir a mulher de procurar atendimento e receber o cuidado necessário.” A orientação é procurar um serviço de saúde e informar que houve violência sexual. A preservação de possíveis vestígios é importante, mas o cuidado com a saúde deve vir sempre em primeiro lugar.

“A violência sexual não define quem é essa mulher. Ela merece ser acolhida, respeitada e acompanhada durante todo o processo de recuperação. Procurar ajuda é um passo importante para cuidar da própria saúde e reconstruir a segurança e a autonomia”, conclui Wanderliza Coutinho.