Vida e Saúde

Tempo de Sobra #4 | Voltando a ler com o fim do brain rot e a magia dos blocos de tempo

Percebi que, para ler, eu precisaria não só ter disposição para isso, mas abrir tempo na minha rotina

Agência O Globo - 15/09/2026
Tempo de Sobra #4 | Voltando a ler com o fim do brain rot e a magia dos blocos de tempo
Mariana Coutinho - Foto: Reprodução

Este texto é parte da newsletter Tempo de Sobra, de Mariana Coutinho. Em cinco capítulos, a série mostra como recuperar a atenção no dia a dia e focar no que realmente importa.

Se a ideia é passar mais tempo longe do celular e escapar do brain rot provocado pelo excesso de conteúdos superficiais e acelerados, a leitura pode ser uma grande companheira daqui para a frente. Não sei você, mas, todo janeiro, eu colocava “ler mais” entre as minhas metas. E, todo dezembro, constatava que nada havia mudado nesse quesito. Até que, no ano retrasado, parei para pensar de verdade no que estava me impedindo de simplesmente pegar um livro e ler.

E o que estava acontecendo é que eu não estava separando nenhum tempo para ler. Eu esperava que este fosse um hábito espontâneo, que brotasse da curiosidade por um título ao passar pela estante ou de alguns minutinhos livres no fim da tarde. Mas não havia minutinhos livres no meu dia, tampouco eu parava para contemplar nenhuma estante, fosse a da minha casa, fosse a da livraria. Percebi que, para ler, eu precisaria não só ter disposição para isso, mas abrir tempo na minha rotina.

Como não existiam minutinhos livres no meu fim de tarde, eu só conseguiria abrir tempo para isso por substituição. Isso quer dizer que eu tinha que parar de fazer alguma coisa que estava me tomando tempo para colocar a leitura no lugar. Você provavelmente já está gastando menos tempo no celular e menos tempo com algumas coisas que não estavam fazendo sentido, certo?

Se, ainda assim, não está sobrando tempo para ler, vale pensar se não dá para substituir por mais alguma coisa. No meu caso, eu tinha o hábito de ver televisão por volta de uma hora antes de dormir todos os dias. Dormia vendo séries, basicamente. Quando resolvi que queria levar a leitura como uma prioridade, foi disso que abri mão. Troquei uma hora de TV por até uma hora de leitura antes de dormir (geralmente eu durmo com menos do que isso).

Isso quer dizer que minha meta de leitura era apenas cumprir esse combinado. O tempo antes de dormir está separado para um livro. Eu só cumpro o combinado de me dedicar a isso nesse horário. E isso fez toda a diferença para que esse hábito realmente fosse para frente. E no final de semana eu me dou o direito de ver TV nesse horário para não abrir mão totalmente das minhas séries.

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Blocos de tempo

Isso vale para qualquer hobby que você tente implementar.

Tente separar sempre um mesmo horário e ter uma certa constância. Não precisa ser todo dia — pode ser, por exemplo, todo sábado ou toda terça e quinta. Do mesmo jeito que você se inscreve em uma aula, pode separar blocos de tempo para praticar o seu hobby, seja um esporte, seja a leitura.

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Ler o que você quer

Embora haja performances de leitura para todos os gostos nas redes sociais, no escurinho da sua casa, você pode e deve ler o que tem vontade. Você não precisa começar o seu novo hábito de leitura com um calhamaço clássico ou pegar o livro que todo mundo está lendo no TikTok.

Pode começar com um romance curto ou com um livro de crônicas ou contos. Talvez com um livro de não-ficção ou até uma sequência de posts de blog ou newsletters. Quando você se dá conta, já acabou com um livro. E aí engatar outro vai parecer mais fácil. Logo, você estará com fôlego para ler coisas “mais cabeça” (ou não também).

A autora Mariana Coutinho apresenta a newsletter Tempo de Sobra.

Contra o brain rot

A leitura pode ser um grande antídoto para toda essa aceleração que estamos vivendo, porque ela tem um tempo próprio de fruição. Uma pesquisa da Universidade de Sussex aponta que em 6 minutos de leitura, o nível de estresse cai até 68%. Segundo o estudo, a leitura seria mais eficaz para relaxar do que ouvir música, caminhar ou tomar chá.

Você pode demorar cinco dias ou cinco meses para ler o mesmo livro. Quem dita o ritmo é você. Além disso, ler um livro não implica tantos estímulos e exige, sobretudo, imaginação.

— Do ponto de vista neurológico, a leitura faz recrutamento e estímulo de rede neural, o que é muito interessante porque ela não age em apenas um local do cérebro — explica o médico Diogo Haddad, head do Centro Especializado em Neurologia do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, em entrevista para esta newsletter. — Para ler, você tem que enxergar, tem que usar a linguagem, entender o que está escrito, estar atento e conseguir guardar aquela informação na memória. Então, para conseguir ler eu uso várias áreas do cérebro e isso é muito importante porque melhora a cognição, a função executiva, porque vai agir em memória, em atenção e concentração e na interpretação crítica.

O médico, inclusive, indica leitura para a prevenção do Alzheimer e outros tipos de demências.

Vida Boa: embarque nessa jornada rumo a uma alimentação mais saudável.

Para se aprofundar

PODCAST: Utilitarismo literário e o fim da descoberta. Gravado durante a Festa Literária Internacional de Niterói (FLIN), o convidado é o professor de literatura da Universidade Federal Fluminense (UFF), Élvio Cotrim. Ele reflete sobre o papel da descoberta na literatura, as práticas literárias hoje e a relação com as redes sociais.

Leia mais no Tempo de Qualidade.

Por que literatura de IA é ruim? Pequeno ensaio linguístico.

Contra o 'final explicado' e a favor das lacunas.

Mariana Coutinho é jornalista, doutora em Estudos de Linguagem e autora da newsletter.