Vida e Saúde
Tempo de Sobra | 5 passos para recuperar as horas perdidas no celular
Assinada por Mariana Coutinho, nova newsletter do GLOBO mostra em cinco capítulos como substituir distrações pelo que realmente importa
Este texto é parte da newsletter, uma série em capítulos que mostra como recuperar a atenção no dia a dia e focar no que realmente importa. Para receber no seu e-mail, clique aqui.
Ele acorda com você e dorme do seu ladinho. Vai com você ao banheiro, desce junto no elevador, te acompanha no carro, no trabalho e no barzinho. É sua agenda, seu banco, seu bloquinho de anotações. Monitora sua atividade física, o que você come e o que vê e escuta. Você lembra a última vez que saiu de casa sem seu smartphone?
Ter a vida toda na palma da mão é muito prático, mas também é extenuante. Estar constantemente ligado ao celular significa nunca ficar offline e nunca ter tempos de pausa. Cada espera da vida real vira um momentinho para ver alguma coisa ou “adiantar” alguma coisa. Parece que não temos mais momentos de vazio para nos perder em pensamentos, observar pequenas cenas do cotidiano ou simplesmente conversar sem ter noção da hora.
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Assim, o smartphone acaba roubando muito do nosso tempo. Para se ter uma ideia, 48% dos brasileiros relatam passar mais de 5 horas por dia em telas, segundo pesquisa da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico. Constrói-se uma relação estranha e paradoxal com esse pequeno aparelho. Ao mesmo tempo em que passamos tanto tempo nele, “resolvendo” tantas coisas, parece que nosso tempo fora dele — o tempo para viver, de fato, e não apenas resolver — ficou comprometido. Mesmo com tantas ferramentas para deixar a vida cada vez mais fácil, basta aguçar os ouvidos em qualquer roda de amigos para ver que ninguém parece mais ter tempo para nada. E um dos culpados é mesmo ele, o celular.
No entanto, não dá para exilar o smartphone. Ele já é parte integrante da nossa vida moderna. O que resta é tentar – na medida do possível – melhorar nossa relação com ele e não permitir que nos tornemos reféns de suas maravilhosas amarras.
Que tal, nesta semana, colocar algumas ações em prática para não passar mais um ano viciado no celular e sem controle algum sobre o seu tempo?
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⏰ 1. Tire seu despertador da gaveta
A primeira ação é parar de dormir e acordar grudado no celular. Os especialistas em sono fazem coro de que ficar ligado no smartphone antes de dormir não é um bom hábito. E pegar o celular antes de fazer qualquer outra coisa de manhã também não é lá uma prática muito saudável. Então por que continuamos fazendo isso? Porque estamos um pouquinho viciados.
Colocar uma regra de só pegar o celular 30 minutos ou mesmo uma hora depois que você acorda já pode fazer bastante diferença. Tomar café da manhã sem a cabeça cheia de mensagens e um banho sem um podcast no seu ouvido segura a ansiedade. Para acordar sem o celular, você pode ressuscitar o bom e velho despertador analógico. Dê corda no seu e coloque o celular para carregar em outro cômodo, bem longe dos seus olhos e ouvidos.
À noite, se dê ao menos uma hora sem celular antes de dormir. Use esse tempo para outras atividades, como leitura ou um hobby manual.
Neurodica:
🚾 2. Pare de usar o celular no banheiro
Você sabia que usar smartphone no banheiro pode aumentar sua chance de ter hemorroidas? Nem é piada. Um estudo realizado em Boston (EUA) e publicado na revista Plos One concluiu que se você tem o hábito de usar smartphone no banheiro, sua chance de desenvolver hemorroidas é 46% maior do que a de quem não faz isso. Não é por conta do aparelho em si, mas pelo tempo a mais que você acaba gastando sentado no vaso sanitário.
Além disso, é mais um tempo sem se dar uma pausa. E, convenhamos, o que você tem de tão importante para fazer no celular que não possa esperar uma ida em paz ao banheiro? Coloque esta regra para sua semana: nada de celular no banheiro. Nem no vaso, nem no banho e nem enquanto você escova os dentes ou faz skincare.
O corpo fala:
📒 3. Revivendo o analógico
Pode parecer um retrocesso, mas a verdade é que, em um mundo tão tecnológico, voltar a cultivar alguns hábitos analógicos pode ser um sopro de ar fresco. Longe de mim sugerir que você frequente um banco presencialmente, mas que tal uma agenda de papel? Anotar seus compromissos e ideias em um caderno faz com que você olhe menos para o celular. E escrever à mão dá mais foco e intenção.
Outra dica que parece boba, mas faz diferença, é ter um relógio de pulso. Com ele, você evita pegar o celular para ver as horas. Não sei você, mas para mim esse é um momentinho em que uma notificação pipoca e pode levar a um vórtex de minutos ou horas.
Regimes de crença na internet:
🎯 4. Momentos de foco
Está fazendo uma atividade que exige concentração? Coloque o celular longe e estabeleça um momento de foco. Configure um timer de 40 minutos e você estará proibido de pegar o telefone antes que ele toque. A ideia é se concentrar na tarefa e ficar esse tempo sem checar novas mensagens. Lembre-se, se algo realmente urgente acontecer, alguém entrará em contato por ligação. Não vão ser alguns minutos ou horas sem olhar o celular que vão causar o apocalipse.
⏳ 5. Limite seu tempo de redes sociais
Há vários serviços para isso, mas o próprio celular costuma ter configurações para limitar o tempo em determinados aplicativos. Pense bem se você precisa de mais de 30 minutos diários no Instagram para se inteirar do que está rolando com seus amigos e rir com quatro ou cinco memes? Não precisa, né? Limite esse tempo nas configurações e quando ele for atingido, o aplicativo vai travar e você só vai conseguir acessar de novo no dia seguinte.
Seu celular está coberto de germes:
Para se aprofundar
NOMO: Momentos de Verdade Esse aplicativo gratuito pode te ajudar a reduzir seu tempo no smartphone e nas redes sociais. Criado pelo brasileiro Leonardo Bursztyn, professor de Economia da Universidade de Chicago, o app propõe desafios em grupo e uma espécie de moeda de troca do seu tempo offline. Quanto mais você está fora do telefone, mais coleciona “moments”. E pode trocar esses “moments” por recompensas como ingressos para eventos, alguns produtos e assinaturas de parceiros. Também dá para fazer rankings com os amigos para ver quem está ficando menos online e usar ferramentas de bloqueio no smartphone para momentos de presença, como em encontros com amigos, festas e jantares.
'Foco roubado: os ladrões de atenção da vida moderna', de Johann Hari Durante três anos, o jornalista Johann Hari entrevistou os maiores especialistas do mundo em foco e atenção. Ele desfaz a ideia de que a falta de foco é uma falha pessoal e ilustra como, na verdade, o nosso foco está sendo roubado por forças externas. Segundo o autor, vivemos uma crise de atenção. Ao longo dos capítulos, ele expõe o que considera os 12 principais ladrões de foco, desde empresas de tecnologia até a poluição. O livro traz reflexões e sugere mudanças individuais, mas também alerta para os riscos sociais.
Mariana Coutinho é jornalista, doutora em Estudos de Linguagem e autora daNewsletter que também é uma.
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