Vida e Saúde

Novo estudo revela idade em que o jejum intermitente pode deixar de ser eficaz

Este tipo de dieta tornou-se uma das estratégias de saúde mais populares da última década

Agência O Globo - 24/08/2026
Novo estudo revela idade em que o jejum intermitente pode deixar de ser eficaz
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: OpenAI (GPT Image)

Estudo realizado com mais de 3 mil pessoas com mais de 60 anos mostrou que ficar longos períodos sem comer está associado a um acúmulo mais rápido de doenças crônicas. Os chamados jejuns intermitentes tornaram-se uma das estratégias de saúde mais populares da última década; no entanto, pesquisadores de Estocolmo, na Suécia, publicaram uma pesquisa no Journal of Internal Medicine, revelando que os adultos mais velhos que habitualmente ficavam mais tempo sem comer, entre 14 e 24 horas, acumularam doenças crônicas mais rapidamente do que aqueles que se alimentavam com mais frequência ao longo do dia.

Após anos de tosse:

O padrão foi observado em adultos com 78 anos ou mais, mas não em adultos mais jovens, sugerindo que os riscos de longos períodos de jejum podem aumentar com a idade. Segundo os pesquisadores, mais da metade dos adultos com mais de 60 anos já convive com múltiplas doenças crônicas simultaneamente. O surgimento de mais doenças em um curto período significa mais medicamentos, mais consultas médicas, maior perda de independência e um risco maior de morte prematura.

Se o fato de comer em menores períodos for ajudar a ter menos problemas, os resultados dessa nova pesquisa têm um peso real e significativo.

Estudo

Os dados da pesquisa foram obtidos do Estudo Nacional Sueco sobre Envelhecimento e Cuidados em Kungsholmen (SNAC-K), um estudo de longo prazo em andamento com adultos selecionados aleatoriamente com 60 anos ou mais em Estocolmo. Os dados basais foram coletados entre 2001 e 2004, com uma taxa de resposta de 73%.

Após a exclusão de participantes sem informações sobre o horário das refeições, o grupo final incluiu 2.981 pessoas. Os participantes foram acompanhados por uma média de cerca de 7 anos, embora os dados sobre doenças tenham se estendido por até 15 anos, distribuídos em seis ondas de acompanhamento. Adultos com menos de 78 anos foram avaliados a cada seis anos, enquanto aqueles com 78 anos ou mais foram avaliados a cada três anos para acompanhar as mudanças mais rápidas na saúde.

Para calcular o intervalo típico de refeição, os participantes relataram seus hábitos alimentares, indicando quando costumavam tomar café da manhã, almoçar, jantar e fazer lanches entre as refeições. A partir daí, eles foram divididos em quatro categorias aproximadamente iguais: aqueles que jejuaram de 6 a 11,5 horas (grupo de referência), de 11,5 a 12,75 horas, de 12,75 a 14 horas e de 14 a 24 horas.

Resultados

A carga de doenças crônicas foi monitorada utilizando um sistema que contabilizou condições em 60 categorias, extraídas de avaliações médicas, prontuários, resultados de exames laboratoriais e um registro nacional de pacientes. As condições foram agrupadas em três grandes sistemas do corpo com maior impacto em adultos mais velhos: doenças cardiovasculares, doenças cerebrais e de saúde mental, e doenças ósseas e articulares.

Os pesquisadores perceberam que os participantes que ficaram de 14 a 24 horas sem comer acumularam doenças crônicas a uma taxa significativamente mais rápida durante o período de acompanhamento. Cada hora adicional de jejum foi associada a uma maior taxa anual de acúmulo de doenças.

Doenças cardíacas e vasculares, bem como doenças cerebrais e de saúde mental, apresentaram acúmulo mais rápido em jejuns mais longos, enquanto doenças ósseas e articulares não mostraram um padrão consistente em nenhuma das direções.

Ao dividir os participantes por idade, os resultados ficaram ainda mais claros: entre os participantes com 78 anos ou mais, aqueles no grupo de jejum mais longo acumularam doenças crônicas totais significativamente mais rápido do que aqueles em jejum mais curto, e a associação também se manteve para condições de saúde mental e cerebral.

Entre os adultos com menos de 78 anos, nenhuma associação estatisticamente significativa foi encontrada.

Segundo os pesquisadores, isso pode ocorrer porque, à medida que envelhecemos, o estômago e o sistema digestivo naturalmente se tornam menos eficientes. O corpo produz menos ácido estomacal e menos enzimas digestivas, dificultando a absorção de nutrientes essenciais como vitamina B12, cálcio e ferro, mesmo quando há uma ingestão adequada de alimentos.

Quando a alimentação é concentrada em um período mais curto, essas oportunidades de absorção, já limitadas, ficam ainda mais restritas, podendo causar lacunas nutricionais sutis, porém cumulativas, que contribuem para o desenvolvimento de doenças ao longo do tempo.

Outro motivo, segundo os pesquisadores, é que o envelhecimento também altera a forma como os músculos respondem às proteínas dos alimentos — o tecido muscular mais velho é menos sensível aos sinais que as proteínas normalmente enviam para desencadear reparo e crescimento, por exemplo.

Intervalos maiores entre as refeições reduzem a frequência com que esses sinais são enviados, o que, segundo o estudo, está associado à menor massa muscular em adultos mais velhos, o que, consequentemente, é associado a doenças cardíacas e declínio cognitivo.

Como terceiro ponto, os pesquisadores lembram que, nessa idade, é prescrito dezenas de medicamentos que exigem a ingestão de alimentos para absorção adequada ou para evitar efeitos colaterais, e o jejum prolongado pode interferir nesse processo.

Limitações do estudo

O estudo não pode provar que longos períodos de jejum causem diretamente um acúmulo mais rápido de doenças. Trata-se de um estudo observacional; ou seja, os pesquisadores acompanharam o comportamento natural das pessoas. Além disso, o estudo foi conduzido em uma população específica: idosos predominantemente urbanos, com alto nível de escolaridade e residentes na comunidade, na Suécia. Não se sabe se esses resultados se aplicam em populações mais diversas ou que residem em diferentes países e sistemas de saúde.

Entretanto, os pesquisadores afirmam que o estudo é amplo, longo e rigoroso de maneiras difíceis de ignorar. Com 15 anos de acompanhamento, quase 3 mil participantes e resultados que se mantiveram estáveis em mais de 20 análises de sensibilidade, a associação se mostrou consistente.

“Embora o jejum seja frequentemente promovido como benéfico para a saúde metabólica, nossas descobertas sugerem que tais benefícios podem estar restritos a indivíduos mais jovens”, escreveram os autores do estudo em sua conclusão.