Vida e Saúde
Após polêmico vídeo, especialistas analisam a influência de piadas sexuais em crianças
Brincadeira de Zé Felipe com o filho de 1 ano gera debate sobre sexualização precoce.
Apesar de muitos não acompanharem a vida do ex-casal Zé Felipe e Virginia Fonseca, um vídeo gravado recentemente chamou a atenção da internet. Nele, o cantor faz uma piada de conotação sexual com seu filho caçula, José Leonardo, que tem apenas 1 ano. A gravação, realizada no aniversário do pai de Zé Felipe, o cantor Leonardo, na última segunda-feira (27), mostra o garoto, sentado no colo do pai, respondendo, em tom de brincadeira, a perguntas sobre 'o que vai dar para as meninas', apontando para a região pélvica e dizendo: 'Pau'.
A cena, que foi compartilhada por Zé Felipe nas redes sociais como uma simples brincadeira, gerou revolta em muitos internautas, que questionaram os ensinamentos que o cantor está passando para seu filho. A principal crítica gira em torno da sexualização precoce de José Leonardo.
A psicóloga e especialista em parentalidade e proteção na era digital, Nay Macêdo, explica que, embora José Leonardo não compreenda o sentido sexual da expressão, a fala representa uma mensagem cultural transmitida pela família.
— A aprovação coletiva ensina que essa é uma forma engraçada e valorizada de se posicionar diante das mulheres. Quando esse tipo de interação se repete, pode contribuir para a construção de roteiros sobre o que significa ser menino, como falar das meninas e como conquistar reconhecimento entre outros homens — diz Macêdo.
Outra especialista, a psicóloga Aline Sardinha, fundadora do Núcleo de Disfunções Sexuais do IPUB/UFRJ, ressalta que, embora não seja possível afirmar que esse tipo de ensinamento vai prejudicar a criança, estudos científicos mostram a associação entre esse 'reforço' dos estereótipos de gênero e o aumento de comportamentos negativos em relação às mulheres.
Macêdo concorda com Sardinha e enfatiza:
— É cedo demais para afirmar como esse episódio específico afetará as relações futuras de José Leonardo. O desenvolvimento infantil não funciona por uma relação simples de causa e efeito.
Crianças expostas a modelos estereotipados — o que não é, necessariamente, o caso do filho de Zé Felipe — sobre o que é ser homem e mulher podem acabar por reproduzir comportamentos negativos em relação às mulheres, inclusive violências sexuais e de gênero, conforme registrado na literatura científica — afirma Sardinha.
Macêdo também comenta sobre o chamado “sharenting”, termo que se refere à exposição da vida dos filhos nas redes sociais pelos adultos responsáveis:
— Uma gravação isolada não permite concluir que a criança já esteja modificando seu comportamento por causa da câmera. Mas, quando ser filmada, provocar reações e mobilizar audiência passa a integrar repetidamente a vida familiar, existe o risco de que ela aprenda a se ver pela resposta do público — explica.
Segundo ela, a central questão que deve ser ponderada pelos adultos responsáveis pela criança é: quando essa criança crescer, ela gostaria de encontrar esse vídeo circulando?
— A infância não deveria pagar o preço de uma brincadeira que os adultos decidiram transformar em conteúdo.
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