Vida e Saúde

'O SUS é único, outros países podem aprender com o Brasil', diz Tedros Adhanom, da OMS, em entrevista exclusiva

Em entrevista ao GLOBO, diretor-geral da OMS fala sobre acordo de pandemias, reformas e crise do Ebola.

Agência O Globo - 31/07/2026
'O SUS é único, outros países podem aprender com o Brasil', diz Tedros Adhanom, da OMS, em entrevista exclusiva
SUS - Foto: Divulgação

O primeiro diretor-geral africano da história da Organização Mundial da Saúde (OMS), Tedros Adhanom Ghebreyesus, de 61 anos, ainda tem entregas a fazer antes de finalizar seu mandato no ano que vem. Em entrevista exclusiva ao GLOBO, no Rio, ele afirmou que suas prioridades são o avanço na reforma financeira da entidade e a conclusão do anexo do Acordo de Pandemias — o chamado PABS, cuja função é organizar o compartilhamento rápido de informações sobre agentes com potencial pandêmico, além da distribuição justa de medicamentos e vacinas.

No cargo desde 2017, Adhanom enfrentou crises de grande calibre, como a Covid-19, maior emergência de saúde do século, além da saída dos Estados Unidos da instituição no início deste ano. “Eles vão voltar”, avalia. O líder também tem usado sua voz para reforçar a necessidade de ajuda humanitária para aqueles que estão sob os efeitos de conflitos armados. Ele menciona que o atual surto de Ebola, na República Democrática do Congo (RDC), é difícil de controlar por estar em uma área conflagrada. “Eu odeio guerras porque sei o que elas significam e o que fazem sentir”, afirmou, compartilhando que também cresceu em meio à guerra e lida com efeitos de transtorno de estresse pós-traumático. Ao final da entrevista, sorriu ao mostrar um documento retirado de seu paletó: “É meu cartão do SUS!”, referindo-se ao presente que ganhou durante sua visita ao Brasil, encerrada na quinta-feira.

Qual é o papel que o Brasil pode desempenhar na saúde global? O Brasil pode ter muitos papéis, mas vou destacar três. Primeiro, a rede de cuidados de saúde do SUS é única. Outros países podem aprender com o Brasil. A segunda parte é que, como você sabe, durante a Covid-19, tivemos um problema de equidade, especialmente de vacinas. A Fiocruz trabalha com produção local, e são milhões de doses. O Brasil pode ajudar a corrigir essa falha na distribuição equitativa. Por fim, há o trabalho com o presidente Lula no Acordo de Pandemias, que visa prevenir futuras crises. Ele foi concluído, mas não será ratificado sem o anexo PABS. O Brasil está liderando a negociação e pode contribuir para sua finalização. Para mim, a contribuição do Brasil na saúde global é, pessoalmente, um tema que me toca. Quando fui Ministro da Saúde, tive um benefício na relação com a Fiocruz em 2006. Esses são três pontos dentre muitos que o Brasil pode oferecer.

O presidente Lula pediu que o senhor falasse sobre o SUS ao presidente Donald Trump. Líderes globais estão prontos para discutir serviços de saúde com acesso geral e gratuitos? Por conta da minha própria experiência em 2006, eu tenho contado a história do SUS. Não apenas por conta do programa de análise (em parceria com a Fiocruz), mas também quando fui Ministro de Saúde e construí o serviço de saúde primária (na Etiópia), um dos países que escolhi para observar as melhores práticas foi o Brasil.

Então, o conselho dele não foi necessário? Eu já estava fazendo isso e continuarei fazendo, porque o SUS é muito importante. É baseado na saúde como um direito humano e fundamental. Saúde não é para poucos nem para a maioria; saúde é para todos.

O senhor esteve no Brasil para a Conferência Internacional de Aids. Os registros de novos casos de HIV, embora em queda, estão longe da meta do fim da epidemia global para 2030. Acredita que ainda temos chance de finalizar a emergência até lá? O número de casos caiu mais de 40% desde 2010. O progresso é significativo, e temos hoje o lenacapavir, um medicamento de prevenção que permite a proteção por meses e deve alterar o cenário. No entanto, nossa preocupação reside no corte de financiamentos.

Como o fim de programas dos Estados Unidos…? Não apenas dos EUA, mas de muitos países. Normalmente, se fala do corte de recursos dos EUA, mas outros países também o fizeram. Isso pode reverter os avanços. Estamos muito preocupados. O progresso foi significativo, mas será afetado. Portanto, dado os cortes de financiamento, a tensão geopolítica e a fraqueza na liderança global, não acredito que vamos atingir o objetivo de 2030. É uma má notícia. Nesse contexto atual, será desafiador. Precisamos começar a pensar em outra estratégia que vá além de 2030.

Qual população pode ser mais afetada por cortes de financiamento? Os países que podem ser mais impactados são aqueles em conflito, uma vez que a necessidade humanitária é muito alta. No Sudão, 33 milhões de pessoas precisam de ajuda. Na Ucrânia, são 10 milhões, e em Gaza, toda a população, ou seja, 2,1 milhões. Essas pessoas precisam de apoio todos os dias. Qualquer corte de fundos as afeta diretamente. Mesmo os países em desenvolvimento serão afetados. Muitos países, no entanto, afirmam que devem usar essa crise como uma oportunidade para encontrar soluções locais.

O senhor esteve recentemente na República Democrática do Congo, onde há uma crise de Ebola. O que viu lá e o que acha que vai acontecer na região? A situação é profundamente preocupante. O vírus teve vantagem no começo por circular sem ser detectado, e essa vantagem se mantém pela complexidade do ambiente em que a epidemia acontece, com conflitos e pessoas desalojadas. Há também fome na região. Quando você menciona Ebola para eles, a resposta é: “Ok, mas nós temos fome. E o conflito? Vão nos ajudar a ter a paz?”. O sistema de saúde é muito fraco e é difícil detectar os casos. Para controlar o surto, são necessários aspectos técnicos, mas precisamos de acesso às comunidades; um cessar-fogo seria útil. Sem isso, torna-se complicado identificar quem teve contato com os infectados. Se não agirmos rapidamente à frente do vírus, ele pode se espalhar para países vizinhos, como o Sudão do Sul. Contudo, quero destacar que, para o resto do mundo, o risco é baixo. Não há motivo para pânico se você conhece a história do Ebola. Desde 1976, apenas 30 casos foram identificados fora de suas áreas de crise.

É mais difícil obter doações para trabalhar em áreas com risco humanitário? Sim, quando há uma emergência, o fluxo de financiamento melhora, pois as pessoas ficam em pânico. Em situações crônicas, o financiamento tende a ser mais lento. A OMS deve ajudar as pessoas a lidar com todos os problemas de saúde, sejam quais forem. Se não, é como uma pessoa disse: “não é um apoio porque se importam, mas porque estão com medo de que o problema (de saúde) atravesse fronteiras e afete o resto do mundo”.

O senhor teve de lidar com os efeitos de uma guerra na sua infância. Como é rever crianças em situação semelhante? Essa é a parte mais difícil. Quando criança, vivi a guerra. Posso entender como crianças em situação de guerra se sentem, seja em Gaza, Sudão, Iémen ou na Ucrânia… você deve conhecer o transtorno de estresse pós-traumático (TEPT). Quando vejo o sofrimento dessas pessoas em áreas de conflito, minhas memórias desses momentos tornam-se muito vívidas. É por isso que eu digo: a paz é o melhor remédio. Sempre afirmo que os mais corajosos escolhem a paz. Para qualquer conflito, existe sempre uma solução política. Eu odeio guerras porque sei o que elas significam e o que fazem sentir.

O legado da Covid-19 para a agência é positivo ou negativo? Não vejo as coisas em termos de legado. Encaro como: vamos fazer tudo o que for possível ao enfrentar problemas a resolver. Tentamos e fizemos nosso melhor. Informamos o mundo com base em evidências. Claro, existem desafios e fraquezas. E aprendemos com eles. Identificamos dez áreas para melhorar a preparação global para o futuro. Uma delas é a fraca capacidade de produção dos países em relação a medicamentos e vacinas. É por isso que precisamos do Acordo de Pandemias. Durante uma pandemia, você faz o seu melhor com base no que a ciência evolui e depois aprende lições com isso. O mundo estará mais bem preparado com o acordo de pandemia como PABS, do qual o Brasil lidera as negociações. Quero agradecer ao Brasil por sua liderança.

O senhor está em seu último ano no cargo. Quais são suas últimas tarefas? O senhor promoveu diversas reformas no funcionamento da entidade… Nesse último ano, focarei na sustentabilidade financeira da OMS. Somente se você é financeiramente independente, você é realmente independente, até mesmo como pessoa. A OMS tem sido dependente de doadores individuais há muitos anos. Por isso, propusemos diversificar nossa base de doadores. Uma das medidas foi solicitar aos estados-membros que aumentassem a taxa que pagam. O orçamento total financiado por eles passou de 14% para 50%. Duas parcelas já foram pagas pelos países, em 2023 e 2025. Eles concordaram em pagar cinco; faltam três. Essa é uma reforma que vai de 2017 a 2031. Esse será meu foco, junto com a conclusão do PABS no Acordo de Pandemias.

Acha que a saída dos EUA é reversível? Sim, eles vão voltar. Eu estava em Tenerife quando ajudamos na situação do surto de hantavírus em um navio. Fizemos evacuações médicas, e a maioria dos passageiros ali era do Reino Unido e dos EUA… Mesmo que eles (os EUA) queiram ir, não conseguirão. A humanidade está mais próxima do que nunca. A única opção que temos nesse cenário é trabalhar juntos contra um inimigo comum, como um vírus. Não tem como sair dessa plataforma que foi criada há 80 anos. Mesmo que não nos forneçam recursos, continuaremos a apoiá-los. Nossa missão é a humanidade. Espero que reconsiderem e voltem. Eles não têm boas razões para sair. Todas as justificativas que eles apresentaram na ordem executiva (do Governo Trump, para deixar a entidade) não são convincentes. Eles alegam que não fizemos reformas, mas as mudanças que implementamos nos ajudaram, inclusive a lidar com a saída deles.