Vida e Saúde
Estudo revela como a gravidez muda o cérebro para viver a maternidade e criar vínculo com o bebê
Via cerebral é afetada por hormônios que são determinantes para o prazer no cuidado com o recém-nascido
Um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de Otago, na Nova Zelândia, mostrou como a gravidez mexe com o cérebro da mulher para viver ou "aguentar" a maternidade. As mudanças são cruciais para que a mãe sinta os cuidados com um recém-nascido como gratificantes, e não como simplesmente necessários. Para Rosie Brown, Jenny Clarkson e Michael Perkinon, professores do Departamento de Fisiologia na universidade, essas mudanças ocorrem em diferentes mamíferos.
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Na pesquisa que acabam de publicar, com estudo em camundongos, os professores identificaram parte do circuito cerebral que impulsiona o impulso da mãe de interagir com seu recém-nascido. Esta via é ativada pelos chamados hormônios da gravidez, como o lactogênio e o placentário, além da prolactina, hormônio produtor de leite. Esta parte do cérebro conecta estes hormônios à rede de recompensa dele.
— Focamos em uma região cerebral chamada área pré-óptica medial, conhecida há décadas como um controlador-chave dos comportamentos parentais. Muitos de seus neurônios carregam receptores para lactógeno e prolactina placentários. Em estudos anteriores, mostramos que camundongos sem esses receptores nessa região não conseguiam cuidar de seus filhotes após o nascimento. O que ainda não estava claro era exatamente como esses neurônios ajudavam a impulsionar o comportamento parental — explicam eles, em artigo publicado na plataforma The Conversation e no jornal britânico The Independent.
No estudo, camundongos fêmeas que entravam em contato com filhotes mostraram uma resposta muito mais forte quando haviam dado à luz. A partir disso, os pesquisadores rastrearam para onde esses neurônios enviam seus sinais, mostrando que um subconjunto desses neurônios se conecta diretamente ao sistema de recompensa do cérebro, desencadeando a liberação de dopamina, o neuroquímico que ajuda a tornar as experiências gratificantes.
A partir de então, essa via do cérebro foi ativada artificialmente, fazendo que as fêmeas que nunca tiveram filhotes passassem a ter uma conexão de cuidado com eles. Por outro lado, quando a mesma via foi bloqueada nos camundongos que deram à luz, elas se comportavam sem criar vínculos com os filhotes.
— Embora nosso trabalho tenha sido realizado em camundongos, as mesmas vias de recompensa são encontradas em mães humanas, sendo a prolactina o principal hormônio produtor de leite em todos os mamíferos. O cérebro humano sofre mudanças enormes e duradouras durante a gravidez, mas pouquíssima pesquisa em neurociência tem focado nas mulheres, e ainda menos para analisar como a gravidez causa mudanças no cérebro — avalia o artigo.
A pesquisa busca mostrar que mães que possuem dificuldades de vínculo com seus bebês podem refletir vias cerebrais que não se adaptaram como o esperado durante a gravidez, o que demanda mais compreensão, apoio e tratamento em determinado período, para os autores.
Os professores destacam ainda que, segundo a Organização Mundial da Saúde, cerca de 13% das mulheres que acabaram de dar à luz apresentam algum transtorno mental, principalmente depressão, número que costuma ser mais alto nos países em desenvolvimento.
— Nossa pesquisa busca entender como o cérebro se adapta durante a gravidez e conectar o início da maternidade a apoio e humor saudável, com o objetivo de desenvolver melhores formas de prevenir e tratar a má saúde mental no período periparto — completam os autores.
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