Vida e Saúde

Famílias longevas ajudam a revelar variante genética rara ligada ao envelhecimento saudável

Estudo apresentado em congresso europeu identificou alterações no DNA que podem explicar por que algumas pessoas vivem mais anos sem doenças crônicas

Agência O Globo - 22/06/2026
Famílias longevas ajudam a revelar variante genética rara ligada ao envelhecimento saudável
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

As pessoas envelhecem de formas diferentes. Enquanto algumas chegam a idades avançadas sem desenvolver doenças graves, outras enfrentam problemas sérios de saúde muito mais cedo. Com o envelhecimento da população mundial, compreender as razões por trás dessas diferenças tornou-se uma questão cada vez mais relevante para a ciência.

Embora a expectativa de vida tenha crescido de maneira expressiva nos últimos 200 anos, o número de anos vividos com boa saúde não avançou no mesmo ritmo. Pesquisadores já sabem que a longevidade excepcional costuma se repetir em determinadas famílias e está associada ao aparecimento mais tardio de doenças crônicas. Ainda assim, os fatores genéticos que ajudam a proteger esses grupos permanecem pouco compreendidos.

Uma nova pesquisa apresentada na conferência anual da Sociedade Europeia de Genética Humana, em Gotemburgo, na Suécia, sugere que estudar famílias longevas inteiras pode oferecer uma visão mais precisa dos mecanismos biológicos relacionados a uma vida mais longa e saudável. O chamado tempo de vida saudável corresponde ao período em que uma pessoa vive livre de doenças crônicas e de declínio cognitivo.

O estudo de famílias oferece uma vantagem importante porque a longevidade não depende apenas da genética. Condição socioeconômica, estilo de vida, comportamento e ambiente também influenciam tanto a duração da vida quanto os anos vividos com saúde. Por isso, algumas pessoas de famílias com expectativa de vida média podem alcançar idades excepcionais, enquanto outras, mesmo pertencendo a famílias longevas, podem não viver tanto.

Estudo intergeracional

Ao apresentar os resultados do estudo intergeracional sobre envelhecimento, Pasquale Putter, doutorando no grupo da professora Eline Slagboom, do Centro Médico da Universidade de Leiden, na Holanda, explicou que pesquisas anteriores da equipe já haviam identificado um padrão relevante.

Segundo os pesquisadores, indivíduos de meia-idade com pais longevos desenvolveram doenças cardiometabólicas, em média, 13 anos mais tarde do que seus parceiros cujos pais tinham menor expectativa de vida.

— Isso deixou claro que o tempo de vida saudável mais longo era transmitido às gerações seguintes — afirmou Putter.

Para investigar o fenômeno com mais profundidade, os cientistas analisaram os genomas de 212 grupos de irmãos longevos, todos descendentes dos mesmos dois pais e participantes do Estudo de Longevidade de Leiden.

A equipe identificou quatro regiões do genoma com maior probabilidade de conter genes associados à longevidade.

— Isso significou que pudemos restringir nosso foco a 350 genes, em vez de cerca de 20 mil — disse Putter.

Uma análise complementar reduziu ainda mais o campo de investigação e revelou 12 variantes genéticas raras, capazes de alterar proteínas, que podem contribuir para vidas mais longas e saudáveis.

Uma dessas variantes foi encontrada no gene CGAS, sigla em inglês para cyclic GMP-AMP synthase, já associado anteriormente ao envelhecimento. A variante apareceu em duas famílias longevas incluídas no estudo.

O CGAS ajuda a acionar processos inflamatórios quando o DNA é detectado em um local onde não deveria estar dentro da célula. Isso pode ocorrer durante infecções virais ou quando as células estão danificadas.

— É provável que integrantes dessas famílias tivessem apenas uma cópia ativa do gene CGAS, em vez de duas, e que isso tenha reduzido a resposta inflamatória em seus corpos, ao mesmo tempo em que ainda era suficiente para eliminar infecções e reparar danos. Isso contribuiria para mecanismos protetores que permitem maior tempo de vida saudável e sobrevivência — explicou Putter.

Os pesquisadores acreditam que essa resposta inflamatória reduzida pode ajudar a proteger contra alguns dos efeitos prejudiciais associados ao envelhecimento, preservando a capacidade de defesa do organismo.

— Esperamos que essa abordagem familiar nos ajude a separar alguns dos fatores ambientais daqueles que são de fato genéticos, especialmente nos casos em que mutações raras estão envolvidas. Ficamos surpresos com a magnitude do efeito da mutação no CGAS nos experimentos in vitro que realizamos até agora — afirmou o pesquisador.

Cautela e próximos passos

Apesar dos achados, os cientistas alertam que ainda será necessário muito trabalho antes que qualquer implicação para a saúde humana possa ser definida. Os efeitos do CGAS dependem fortemente do contexto.

Desligar completamente a via do CGAS poderia tornar as pessoas mais vulneráveis a infecções e ao câncer. Por outro lado, a ativação excessiva dessa via pode levar à inflamação crônica e provocar danos de longo prazo nos tecidos.

Para compreender melhor como a mutação funciona em um organismo vivo, os pesquisadores estão passando de experimentos in vitro para estudos in vivo. A equipe planeja introduzir a mutação do CGAS em peixes killifish no Instituto Max Planck de Biologia do Envelhecimento, em Colônia, na Alemanha.

— Os killifish são os vertebrados de vida mais curta, com expectativa natural entre três e nove meses. Usá-los como modelo nos permitirá determinar se a mutação contribui para o aumento da longevidade em comparação com grupos de controle, além de investigar seus efeitos sobre a saúde dos tecidos — disse Putter.

— Também pretendemos dar continuidade à pesquisa investigando outras variantes promissoras candidatas à longevidade que identificamos no Estudo de Longevidade de Leiden por meio de colaborações com outros grupos — acrescentou.

O professor Alexandre Reymond, presidente da conferência e que não participou da pesquisa, afirmou que os resultados podem ajudar cientistas a compreender melhor a biologia por trás do envelhecimento saudável.

— Essas descobertas permitem que nossa comunidade aprofunde o foco em fatores ligados à longevidade e, mais importante, apontam para o que talvez sejam elementos-chave para ampliar o tempo de vida saudável de todos — declarou.