Vida e Saúde

Exercício em família por 45 minutos pode melhorar habilidades cognitivas

Pesquisas indicam que pais e filhos podem se inspirar mutuamente na criação de hábitos saudáveis

Agência O Globo - 21/06/2026
Exercício em família por 45 minutos pode melhorar habilidades cognitivas
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Praticar atividade física em níveis adequados é uma das medidas mais importantes para a saúde. Ainda assim, muitas pessoas em todo o mundo permaneceram insuficientemente ativas. Cerca de um em cada três adultos não atinge as recomendações mínimas de exercício, enquanto quatro em cada cinco crianças de 11 a 17 anos não alcançam a média indicada de 60 minutos por dia.

A falta de atividade física aumenta o risco de doenças crônicas, como o diabetes tipo 2, e também pode afetar a função cognitiva — conjunto de pensamentos mentais que ajudam a aprender, lembrar, manter a concentração e tomar decisões. Entre crianças, essas habilidades estão diretamente relacionadas ao desempenho escolar e às oportunidades futuras.

Para os pais, manter uma rotina ativa pode ser especialmente difícil. As exigências da vida familiar costumam deixar um pouco de tempo para exercícios, e a chegada dos filhos pode dificultar a prática regular de atividades físicas moderadas ou vigorosas. Como o sedentarismo atinge diferentes gerações, as famílias se tornam um foco importante para ações voltadas à promoção da saúde e do bem-estar.

Obstáculos e inspirações

Em uma pesquisa recente, foram entrevistadas 24 famílias para identificar fatores que facilitam ou dificultam a prática de atividade física e verificar essas experiências variavam conforme o nível socioeconômico.

Muitas das barreiras relacionadas não surpreenderam. As famílias citaram com frequência o custo das atividades organizadas e a falta de tempo livre como obstáculos para se exercitarem juntas. Famílias de menor renda também informam acesso limitado a espaços esportivos e de lazer próximos. Já famílias de maior renda apontaram as instalações locais como um apoio importante para manter uma rotina ativa.

As crianças afirmaram de forma consistente que ver os pais praticando atividades físicas como incentivova a participar. Mas essa influência também ocorria no sentido inverso. Pais de famílias menos favorecidas frequentemente descreveram os filhos como exemplos a seguir, destacando que a excitação das crianças pelo movimento os motivava a se tornarem mais ativos.

Os resultados sugerem que a atividade física em família não é apenas algo que os pais estimulam nos filhos. Pais e filhos podem se inspirar mutuamente, criando hábitos positivos e capazes de beneficiar toda a família.

Com base nessas descobertas, foi desenvolvido um programa de atividade física familiar para ajudar pais e filhos a se exercitarem juntos. A modalidade escolhida foi o rugby de toque, por ser uma prática divertida, adaptável e sem contato físico, o que permite a participação conjunta de pessoas de diferentes idades.

Em seguida, os pesquisadores buscaram verificar se uma única sessão de 45 minutos seria capaz de produzir benefícios mensuráveis, em curto prazo, para a saúde física e a função cognitiva.

Benefícios para o cérebro e o corpo

Dezesseis famílias participaram do estudo. Em uma ocasião, eles realizaram uma sessão de 45 minutos de rugby de toque, com aquecimento, atividades de habilidades e jogos simples. Em outro momento, participaram de uma sessão de comparação, em que lugares sentados em descanso.

Antes e depois de cada sessão, os participantes realizaram tarefas computadorizadas elaboradas para avaliar a função cognitiva, incluindo memória de trabalho, atenção e processamento de informações. Os pesquisadores também mediram a resposta do organismo a um almoço padronizado, monitorando os níveis de açúcar no sangue e de insulina.

A insulina é um hormônio que ajuda o corpo a regular o açúcar no sangue. Após a sessão de rugby de toque, os pais receberam menores concentrações de insulina depois da refeição, em comparação com a sessão de segurança, embora as respostas de açúcar no sangue tenham sido semelhantes. Isso indica que o organismo conseguiu processar a refeição usando menos insulina.

Também foram observadas melhorias de curto prazo na função cognitiva. As crianças tiveram desempenho superior em uma tarefa de memória de trabalho imediatamente após o exercício. Já os pais melhoraram no processamento de informações logo depois da sessão, com benefícios que compensaram por até 45 minutos.

Os resultados, no entanto, devem ser interpretados com cautela. O estudo envolveu um número relativamente pequeno de famílias e avaliou os efeitos de uma única sessão de exercícios. Portanto, não demonstram se os benefícios persistiriam ou se seriam ampliados com a prática regular.

Ainda assim, as descobertas oferecem um ponto de partida relevante. Seja no aprendizado escolar, na concentração no trabalho ou na organização da rotina familiar, memória, atenção e processamento de informações são habilidades usadas ao longo de todo o dia. Uma atividade física prazerosa, realizada em família, também pode ser mais fácil de manter do que práticas que impõem novas demandas a pais já sobrecarregados.

Os resultados sugerem que a atividade física em família pode ser uma estratégia prática para fortalecer a saúde física e o desempenho cognitivo, ao mesmo tempo em que proporciona momentos de convivência entre pais e filhos. Em um cenário no qual muitos adultos e crianças têm dificuldade para se manterem suficientemente ativos, criam oportunidades acessíveis para que as famílias se movimentem juntas mereçam mais atenção.

*Scarlett Fountain , pesquisadora em Atividade Física e Saúde da Universidade Nottingham Trent; e Karah Dring , professora sênior de Exercício e Saúde da Universidade Nottingham Trent.

*Este artigo foi republicado por The Conversation sob licença Creative Commons.