Vida e Saúde
Paciente recebe terapia experimental que busca rejuvenescer células pela primeira vez
Empresa de biotecnologia Life Biosciences anunciou a primeira dose de tratamento genético voltado a reverter perda de visão relacionada à idade
Pela primeira vez, um paciente recebeu uma terapia genética com objetivo de promover o rejuvenescimento celular. Segundo a Life Biosciences, empresa de biotecnologia sediada em Boston, nos Estados Unidos, o estudo clínico de fase 1 avalia um composto capaz de ativar três genes associados à chamada "reprogramação parcial" de células envelhecidas.
O tratamento, batizado de ER-100, está sendo testado inicialmente em pacientes com uma forma de glaucoma, doença que pode levar à cegueira. O ensaio clínico busca avaliar a segurança e a tolerabilidade da terapia, além de observar possíveis efeitos sobre a função visual.
Cerca de 18 pacientes devem ser acompanhados ao longo de cinco anos. A expectativa dos pesquisadores é que as proteínas codificadas pelos genes ajudem na regeneração de neurônios do nervo óptico, estrutura que conecta o olho ao cérebro e costuma ser danificada em pessoas com glaucoma. Em condições normais, esses neurônios não se regeneram.
"Este é um momento importante para a Life Bio e para o campo da biologia do envelhecimento", afirmou David Sinclair, cofundador da Life Biosciences e professor de Genética na Harvard Medical School, em comunicado. "Nossa pesquisa sugere que o envelhecimento é impulsionado, em grande parte, pela perda de informações epigenéticas, e não por danos irreversíveis. Este estudo clínico representa a primeira oportunidade de testar se a restauração dessas informações pode amenizar doenças humanas."
As neuropatias ópticas representam uma necessidade médica ainda sem resposta satisfatória. Os tratamentos disponíveis hoje atuam principalmente sobre fatores de risco, como a pressão intraocular no glaucoma, mas não agem diretamente nos danos às células ganglionares da retina. Por isso, a doença pode evoluir para perda irreversível da visão, mesmo quando tratada.
A perda visual impacta a autonomia dos pacientes e pode aumentar o risco de quedas graves, depressão, demência e perda de independência, especialmente em razão do isolamento social. O cenário reforça a busca por terapias capazes de modificar a progressão da doença.
Além do ER-100, a Life Biosciences desenvolve aplicações de sua plataforma de restauração epigenética para diferentes indicações e órgãos.
— O objetivo dos pesquisadores é bem mais ambicioso. Não é simplesmente uma terapia gênica para glaucoma. Se funcionar aqui, a expectativa é que funcione para outros nervos e até para o sistema nervoso central — afirmou o geneticista Salmo Raskin, diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica.
Uma das principais preocupações da comunidade científica é que terapias desse tipo possam provocar alterações no organismo capazes de favorecer o desenvolvimento de tumores. A escolha de uma doença que afeta o olho pode ajudar a reduzir riscos sistêmicos, já que eventuais efeitos adversos tendem a ficar mais restritos à região tratada.
— Com esse experimento, eles buscam reprogramar as marcas epigenéticas associadas ao envelhecimento, sem alterar o DNA da célula — explicou Raskin.
Como funciona a terapia
De acordo com informações do site especializado ScienceAlert, o ER-100 utiliza um vírus sem capacidade de causar doença infecciosa para levar instruções genéticas às células ganglionares da retina. Essas instruções induzem a produção de três proteínas que ajudariam a restaurar as células a um estado mais jovem e funcional.
Os genes são regulados por um interruptor genético ativado apenas quando os participantes tomam um antibiótico específico. Caso o uso do antibiótico seja interrompido, os genes são desativados, o que oferece um nível adicional de controle ao tratamento.
"O ER-100 não altera os genes existentes do participante", informa a descrição do ensaio clínico.
O primeiro estudo em humanos com o ER-100 começará com 12 participantes, tratados um de cada vez, todos com glaucoma de ângulo aberto (GAA). Em seguida, os pesquisadores pretendem incluir até seis pacientes adicionais com neuropatia óptica isquêmica anterior não arterítica (NOIAA), condição que também causa danos ao nervo óptico.
A equipe de David Sinclair trabalha com o ER-100 há vários anos. Um estudo publicado em 2020, feito em camundongos com nervos ópticos danificados, mostrou que a terapia promoveu regeneração neuronal e reverteu a perda de visão em animais idosos e em modelos com glaucoma.
Pesquisas iniciais em primatas não humanos também sugerem que o ER-100 pode restaurar a função de células danificadas. Ainda assim, especialistas ressaltam que a alteração da expressão gênica envolve riscos conhecidos e desconhecidos, incluindo a possibilidade de transformação de algumas células em cancerosas.
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