Vida e Saúde

Apitegromabe pode reduzir perda muscular durante uso de canetas emagrecedoras, aponta estudo

Laboratórios estudam a combinação dos agonistas de GLP-1 com novas terapias para preservar músculos durante perdas acentuadas de peso

Agência O Globo - 10/06/2026
Apitegromabe pode reduzir perda muscular durante uso de canetas emagrecedoras, aponta estudo
Apitegromabe pode reduzir perda muscular durante uso de canetas emagrecedoras, aponta estudo - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Uma nova droga chamada apitegromabe pode ajudar a preservar a massa muscular durante o tratamento com agonistas de GLP-1, classe de medicamentos usada para emagrecimento e conhecida como “canetas emagrecedoras”. É o que indicam os resultados da segunda das três etapas necessárias dos estudos clínicos, publicados na revista científica Nature Medicine.

Os novos injetáveis para perda de peso têm alcançado eficácias inéditas, com reduções que chegam a ultrapassar 20% do peso corporal. No entanto, estima-se que cerca de 40% dessa diminuição possa corresponder à massa magra, e não à gordura.

Essa perda não é considerada ideal, pois a massa magra é composta principalmente por músculo esquelético, essencial para a força, a saúde geral, o metabolismo e a prática de atividades físicas. Por isso, laboratórios têm investigado se a combinação das canetas com outras drogas, projetadas para preservar os músculos, pode melhorar a composição da perda de peso.

O apitegromabe é um anticorpo monoclonal desenvolvido para bloquear a ação da miostatina, proteína envolvida na degradação muscular. Inicialmente, o medicamento foi concebido para tratar a atrofia muscular espinhal (AME), indicação para a qual está sendo avaliado pela Food and Drug Administration (FDA), agência reguladora dos Estados Unidos.

Com o avanço das canetas emagrecedoras, porém, o laboratório responsável pela droga, o americano Scholar Rock, passou a testar o apitegromabe também no tratamento da obesidade.

No novo estudo, 102 adultos com sobrepeso ou obesidade foram divididos em dois grupos. O primeiro recebeu tratamento apenas com tirzepatida, princípio ativo do Mounjaro, durante 24 semanas. O segundo recebeu uma combinação de tirzepatida com apitegromabe pelo mesmo período.

A cada quatro semanas, o segundo grupo recebeu uma infusão intravenosa de apitegromabe junto com a tirzepatida, enquanto o primeiro recebeu placebo para comparação. Os voluntários não sabiam em qual grupo estavam inseridos, estratégia usada para reduzir possíveis influências sobre os resultados.

Ao final do estudo, a perda total de peso foi semelhante entre os grupos. No entanto, a massa magra correspondeu a apenas 14,6% da redução no grupo que recebeu apitegromabe, contra 30,2% no grupo placebo. De modo geral, os participantes que receberam a nova droga perderam 1,9 kg a menos de massa magra, o que representou uma retenção 54,9% maior dos músculos.

O medicamento também foi bem tolerado, com taxas semelhantes de eventos adversos entre os dois grupos. Marie Spreckley, pesquisadora da área de prevenção do diabetes e de distúrbios metabólicos relacionados em grupos de alto risco da Universidade de Cambridge, no Reino Unido, que não participou do estudo, considerou os resultados promissores.

“Esta é uma área importante de pesquisa porque perdas substanciais de peso, seja por medicamentos, intervenções dietéticas ou cirurgia bariátrica, frequentemente são acompanhadas por alguma perda de massa magra”, afirmou em nota. A pesquisadora, no entanto, reforça que mais estudos ainda são necessários para comprovar o benefício.

“Serão necessários estudos maiores e mais longos para determinar se essas mudanças se traduzem em melhorias significativas de força, função física, qualidade de vida ou outros desfechos de saúde de longo prazo. De modo geral, este estudo fornece uma importante prova de conceito de que a inibição seletiva da miostatina pode ajudar a melhorar a composição da perda de peso”, completou.

A avaliação é semelhante à de Brendan Gabriel, professor sênior do Instituto Rowett de Nutrição e Saúde da Universidade de Aberdeen, no Reino Unido, que também não participou do estudo. Ele lembra que a biologia por trás da nova terapia vem sendo estudada há quase três décadas e considera os resultados “bastante animadores”.

Gabriel pondera, porém, que esse tipo de terapia, baseada em anticorpo monoclonal, “pode ser eficaz em algumas situações clínicas, mas não em todas, e talvez não seja tão amplamente aplicável quanto outras terapias para obesidade”. “Ainda assim, para pessoas que vivem com obesidade sarcopênica, condição em que a perda de massa muscular ocorre mais rapidamente do que o normal, esta pode ser uma abordagem promissora”, concluiu.

Há outros medicamentos em testes com objetivo semelhante. Entre eles está o bimagrumabe. Resultados também de fase 2, publicados na Nature Medicine em março deste ano, indicaram que o uso combinado com a semaglutida, princípio ativo do Ozempic e do Wegovy, elevou o emagrecimento para uma perda de 22,1% do peso após 72 semanas. Menos de 10% dessa redução foi composta por massa muscular, contra quase 30% entre os participantes que receberam apenas semaglutida.

Essa molécula também é um anticorpo, mas atua bloqueando as vias de sinalização de um receptor no tecido muscular esquelético chamado activina. Esse receptor também está relacionado à perda de massa muscular, ao evitar hipertrofia excessiva.

O bimagrumabe foi desenvolvido inicialmente pela farmacêutica Novartis, mas acabou adquirido pela Versanis Bio. Em seguida, a Eli Lilly, fabricante do Mounjaro, comprou a Versanis. Por isso, o trabalho envolveu a semaglutida, do Wegovy, e não a tirzepatida, do Mounjaro.

A Eli Lilly conduz agora testes para avaliar a combinação do bimagrumabe com a tirzepatida em pacientes com obesidade, com resultados esperados para este ano. A expectativa é alta porque o Mounjaro promove uma perda de peso maior do que o Wegovy.