Vida e Saúde

Vacina da dengue do Butantan suspensa 'é um bom imunizante e não deixará de ser usado', diz virologista que participou dos testes

Ministério da Saúde interrompeu aplicação da dose, que estava sendo oferecida a profissionais da atenção primária, para investigar relação com 42 casos de eventos adversos, incluindo dois óbitos

Agência O Globo - 09/06/2026
Vacina da dengue do Butantan suspensa 'é um bom imunizante e não deixará de ser usado', diz virologista que participou dos testes

Pausar a aplicação é o correto e o esperado quando ocorrem casos suspeitos de reações adversas graves por vacina ou medicamento, explica o virologista Mauricio Lacerda Nogueira, professor da Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto (SP). Isso não significa que a vacina seja insegura, diz ele. Mas, sim, que se deve seguir os protocolos de testes e avaliar o que o fato aconteceu. Nogueira participou dos testes das vacinas do Butantan e da Takeda (Qdenga) e destaca que ambas tiveram eficácia e segurança bem avaliadas.

Por que foi tomada a decisão de suspender a aplicação da vacina?

É bom que o Ministério da Saúde e o Instituto Butantan tenham tomado essa decisão. É o que se deve fazer. É uma medida de cautela e faz parte do processo de avaliação de uma vacina. Na verdade, não apenas de imunizantes, mas também de qualquer medicamento. Ela está na fase 4 de testes. Isso significa que um número muito maior de pessoas recebeu a vacina e, dessa forma, efeitos que não foram observados nas fases anteriores podem aparecer. É o correto e o esperado. E esse é o processo pelo qual passa qualquer remédio ou imunizante.

Isso significa que a vacina não é segura?

Não. Significa que foram identificadas reações adversas, que embora sejam raras, precisam ser investigadas. A identificação dos casos e a pausa mostram como o processo de vacinação tem sido bem feito, com rigor e classificação. Tudo em vacina diz respeito a risco e benefício. A aplicação é pausada para investigar se os efeitos adversos foram realmente causados ​​pela vacina ou se houve uma associação temporal, isto é, uma coincidência entre as reações adversárias e a aplicação da vacina.

E depois?

Veja a relação risco-benefício. Ou seja, quantas pessoas adoecerão gravemente ou morrerão de dengue e quantas podem sofrer reações adversas da vacina.

E que medidas se pode tomar?

Pode-se, por exemplo, restringir o uso em grupos específicos da população, que corram maior risco e tenham sido identificados pelos estudos. Diferenças genéticas podem influenciar na resposta de uma pessoa a um imunizante, por exemplo.

As reações diversas associadas à vacina se assemelham às provocadas pela dengue grave, como choque e sintomas neurológicos. A vacina é feita com vírus atenuados. Ela poderia ter provocado a doença?

Tudo precisa ser investigado. Mas acompanhei os testes clínicos tanto da vacina do Butantan quanto dos da Takeda e ambos se mostraram muito seguros e com taxas de eficácia superiores a 80%. Eu mesmo apliquei e tomei a vacina do Butantan. Minha mulher e minha filha também foram recebidas. Acredito que é uma boa vacina e não deixará de ser usada. Pode ser que não seja para todas as pessoas e que se descubra que alguns grupos, como imunossuprimidos, não devem recebê-la.

Como é a composição da vacina do Butantan?

Ela é composta pelo vírus da dengue 1, 3 e 4 inteiros e atenuados por meio de deleções dos mecanismos que usam para se multiplicar e do vírus 2 quimérico (80% do vírus 4 e o restante, partes que causam resposta do sistema imune humano do vírus 2). Isso significa que a vacina faz com que o sistema imunológico produza defesas, mas não há vírus capaz de afetar uma pessoa como a dengue. É por isso que os efeitos colaterais comuns se assemelham aos da dengue branda, como dores e febres leves e passageiras. É semelhante ao que ocorre com a vacina da Takeda, também feita de vírus atenuado.

Qual a mulher?

A da Takeda o vírus do tipo 2 é atenuado por meio de várias mutações e os vírus 1, 3 e 4 são quiméricos. O uso de vírus quiméricos (criados em laboratório por meio da “mistura” de vírus diferentes) é frequente em imunizantes atenuados, justamente para aumentar a segurança e a resposta imune. Os dois imunizantes são, de certa forma, equivalentes. A maior diferença é que o do Butantan precisa de uma dose e o do Takeda, de duas. Uma dose facilita a adesão da população.

A vacina do Butantan é derivada de uma tecnologia de imunizante desenvolvida originalmente nos EUA. Qual a diferença?

A vacina do Butantan é liofilizada. Isto é, foi desidratado a frio. Isso não tem implicação em segurança. Na liofilização, ela perde vírus e se torna até um pouco mais fraca.

E que outro risco pode haver?

A contaminação política. Isto deve ser evitado porque faz mal a todo o mundo. E espero que não aconteça porque essa é uma vacina de consenso entre os governos do estado de São Paulo (o Butantan é um instituto estadual) e federal. No dia da aprovação da aplicação das doses foram apresentados o governador Tarcísio de Freitas e o ministro da Saúde, Alexandre Padilha. Isso diz muito sobre o consenso em relação à importância de uma vacina contra a dengue para a saúde da população. Haver discussão política não tem qualquer lógica e é um desserviço à saúde pública. A classificação deve ser uma avaliação científica.