Vida e Saúde

Psicodélicos avançam em pesquisas clínicas e ampliam debate sobre saúde mental

Novos estudos colocam substâncias como MDMA e psilocibina — proveniente dos cogumelos — no centro das discussões sobre depressão, traumas e consciência de si

Agência O Globo - 19/05/2026
Psicodélicos avançam em pesquisas clínicas e ampliam debate sobre saúde mental
- Foto: Pedro Junior/Ascom Hospital Ib Gatto Falcão

Sessenta anos após a primeira onda de psicodélicos, essas substâncias psicoativas voltam ao centro das atenções, impulsionadas pelo avanço das pesquisas clínicas sobre seu potencial terapêutico. Um exemplo recente é a Austrália, que passou a permitir o uso de MDMA para o tratamento de estresse pós-traumático e de psilocibina em casos de depressão.

Ao mesmo tempo, conceitos como a microdosagem começam a ganhar espaço, inclusive fora de ambientes controlados, especialmente em locais onde produtividade e desempenho cognitivo são prioridades.

Para o médico psiquiatra e neurocientista Diogo Lara, o interesse crescente nos psicodélicos em processos terapêuticos evidencia uma mudança na abordagem clínica: busca-se matéria que vai além da contenção de sintomas.

“Existe uma tentativa de compreender o sofrimento emocional a partir de uma perspectiva mais ampla, envolvendo memória, percepção, história de vida e padrões emocionais”, explica Lara.

Ele ressalta ainda: “As terapias psicodélicas passaram a chamar a atenção porque alguns estudos mostram a possibilidade de acesso a conteúdos psíquicos que muitas vezes permanecem bloqueados em tratamentos ocasionais”.

Além da Austrália, Estados Unidos e alguns países europeus também investem em pesquisas sobre o uso de psicodélicos. No Brasil, entretanto, o debate ainda se restringe à cannabis medicinal .

O uso recreativo é diferente do uso terapêutico

Diogo Lara destaca que os estudos atuais diferenciam claramente as experiências recreativas das propostas terapêuticas estruturadas: "Os protocolos clínicos não envolvem apenas o uso da substância. Há preparação emocional, acompanhamento profissional, integração posterior e um trabalho focado na reorganização psíquica".

Ele enfatiza: "A substância, isoladamente, não representa tratamento. O que está sendo investigado é uma combinação entre neurociência, psicoterapia e estados ampliados de consciência dentro de um contexto clínico".

Os estudos recentes também avaliaram a diferença e a efetividade da microdosagem — descrita por efeitos sutis e uso em intervalos regulares — em comparação com terapias que utilizam doses completas, nas quais o paciente é colocado sob efeito da substância, o que pode ser útil no tratamento e revisão de traumas.

Segundo o neurocientista, o objetivo do uso terapêutico dos psicodélicos é criar condições para que o paciente acesse conteúdos internos de maneira segura, promovendo uma reorganização emocional e maior compreensão de si mesmo.

“As substâncias psicodélicas despertam interesse científico, mas também ampliam o debate sobre saúde mental, consciência e formas de lidar com o sofrimento psíquico”, conclui Lara.