Vida e Saúde

Sequenciamento genético indica cidade argentina como provável origem de surto de hantavírus em navio

Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou 11 casos da doença associados ao surto registrado entre passageiros do cruzeiro MV Hondius

Agência O Globo - 13/05/2026
Sequenciamento genético indica cidade argentina como provável origem de surto de hantavírus em navio
Imagem ilustrativa gerada por inteligência artificial - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O sequenciamento genético do hantavírus aponta para a cidade argentina de San Martín de Los Andes, na Patagônia, como local provável do primeiro contágio da doença. A descoberta foi possível após a análise do material genético de seis pessoas infectadas, em comparação com bancos internacionais de dados sobre o vírus. A Organização Mundial da Saúde (OMS) confirmou 11 casos associados ao surto entre passageiros do navio de expedição MV Hondius, distribuídos por sete países. Até ao momento, três pessoas morreram em decorrência da infecção.

Transmissão em cadeia entre passageiros

De acordo com o médico geneticista e diretor científico da Sociedade Brasileira de Genética Médica e Genômica (SBGM), Salmo Raskin, as análises — conduzidas pelo Centro Nacional Suíço de Referência para Infecções Virais Emergentes, Hospitais Universitários de Genebra e Instituto de Virologia Médica da Universidade de Zurique — revelaram que os seis pacientes apresentavam sequências genéticas idênticas, reforçando a hipótese de transmissão em cadeia entre os. O estudo também confirma que o vírus pertence ao hantavírus andino, um dos poucos tipos conhecidos capazes de transmissão entre humanos.

“O sequenciamento mostrou que essas seis pessoas têm o mesmo RNA viral, o que comprova a transmissão de uma pessoa para outra”, afirma Salmo Raskin.

Clado 3 e vínculo com casos antigos

A principal novidade veio da comparação genética com casos antigos registrados na Argentina. Segundo o pesquisador, as amostras atuais coincidem com o chamado “clado 3” do hantavírus andino, identificado anteriormente em dois homens infectados em agosto de 2018 em San Martín de Los Andes.

"Agora concluímos que o vírus é muito semelhante ao clado 3 encontrado em San Martín de Los Andes. Isso dá uma pista forte sobre onde provavelmente ocorreu a infecção inicial", explica Raskin.

Vírus difere do surto de 2018 em Epuyén

Até então, especialistas compararam o episódio do navio ao surto ocorrido em Epuyén, no sul da Argentina, em 2018, que comprovou pela primeira vez a transmissão de hantavírus entre humanos. No entanto, o novo sequenciamento revelou uma diferença importante: o vírus atual não pertence ao mesmo subtipo desse evento.

“O vírus da festa era do clado 2. Este agora é do clado 3. São muito parecidos, mas não idênticos”, destaca Raskin.

Segundo ele, ainda não é possível afirmar se essas diferenças genéticas influenciam a gravidade da doença ou sua capacidade de transmissão. "Essa é a pergunta de um milhão de dólares. Ainda temos pouquíssima informação sobre o clado 3", complementa.

Até o momento, há registros genéticos detalhados de apenas dois pacientes infectados por esse subtipo, ambos em San Martín de Los Andes.

Baixa taxa de corrida

Ao contrário do coronavírus, o hantavírus apresenta baixas taxas de mutação, segundo o médico geneticista. As sequências atuais são muito semelhantes às detectadas em casos registrados há anos na Argentina.

"Isso mostra que o vírus muda muito pouco. É praticamente igual ao identificado nos episódios anteriores", relata Salmo.

Mesmo assim, ele ressalta que fatores além da genética influenciam o comportamento da doença, como ambiente fechado, quantidade de vírus a qual a pessoa foi exposta e a resposta imunológica individual.

*Estagiária sob supervisão de Constança Tatsch.