Vida e Saúde
Síndrome da 'autocervejaria': conheça a condição que faz as pessoas ficarem bêbadas espontaneamente
Condução sob o efeito do álcool, problemas de relacionamento, acusações de consumo secreto de álcool: a síndrome da fermentação intestinal pode causar estragos na vida e na reputação das pessoas
Em 2019, Mark Mongiardo, então diretor atlético de uma escola de ensino médio, foi parado no condado de Sullivan, em Nova York, após um jantar com uma equipe de golfe masculina. Ele havia um cachorro-quente e batatas fritas, acompanhado de um refrigerante. Não tinha tomado uma gota de álcool, mas o policial que parou por usar o celular enquanto dirigia sentia o cheiro de álcool nele. Um teste do bafômetro indicou que o teor alcoólico no sangue de Mongiardo era de 0,18%, mais do que o dobro do limite legal para dirigir.
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Foi sua segunda infração por direção alcoolizada em dois anos, mas esses episódios de intoxicação inexplicável aconteceram há décadas. Desde o início de sua carreira como professor de educação física e treinador, no início dos anos 2000, Mongiardo, hoje com 43 anos, havia sido repetidamente chamado à atenção porque colegas e jogadores sentiam cheiro de álcool nele.
Em 2016, ele foi reprovado em um teste surpresa de urina e foi obrigado a participar da terapia. Ele deixou aquele distrito escolar porque “sentia que uma cidadania começava a se formar”. Duas semanas depois de começar outro emprego, ele foi preso pela primeira vez por dirigir embriagado.
Problemas podem surgir em casa também. Ele se lembra de um jantar de Natal em que teve dificuldade para formar uma frase completa ou até mesmo pegar o garfo.
— Não havia álcool sendo confortável, e de repente eu estava bêbado — disse. — Meus próprios pais diziam à minha esposa que ela deveria me deixar.
Não era a primeira vez que isso acontecia em reuniões de feriados. Ele não associava os sintomas à embriaguez enquanto aconteciam, e no dia seguinte sua memória costumava estar confusa. Embora insistisse que não estava sendo desonesto, sua família perdeu que ele estava bebendo às escondidas.
Mongiardo afirma que, nas graças de quem consome álcool, sempre bebeu apenas socialmente. Mas, depois de sua primeira prisão por dirigir embriagado, sua esposa disse a ele que era necessário parar completamente. Quando foi preso pela segunda vez, em 2019, já fazia quase um ano desde sua última bebida alcoólica.
Foi quando um membro da família sugeriu que ele procurasse a gastroenterologista Prasanna C. Wickremesinghe, que trabalha no Richmond University Medical Center em Staten Island. Conhecido como "Dr. Wick", o profissional já tratou bolsas de pessoas com comprometimento inexplicável.
Sob seus cuidados, Mongiardo passou por um dia inteiro de testes. Ele recebeu uma bebida açucarada e foi cuidadosamente monitorado para garantir que não tivesse acesso a álcool. Ao longo de oito horas, amostras de sangue foram coletadas e comprovadas, e seu teor alcoólico no sangue subiu gradualmente para 0,14%.
— Wick entrou balançando a cabeça e me disse: "Você tem síndrome da autofermentação” —conta Mongiardo. — Eu simplesmente comecei a chorar histericamente.
Diagnóstico difícil
À medida que nosso corpo digere os alimentos, os microrganismos intestinais convertem carboidratos e açúcares em etanol, um tipo de álcool - geralmente em detalhes mínimos que são rapidamente metabolizados. De acordo com Bernd Schnabl, codiretor do San Diego Digestive Diseases Research Center em San Diego, os microrganismos em pacientes com síndrome da autofermentação trabalham em excesso, aumentando a produção de etanol.
Quando os níveis de etanol superam a capacidade de metabolização do fígado, uma pessoa fica bêbada por ter consumido álcool. Casos de síndrome são relatados desde pelo menos a década de 1950, com os primeiros exemplos nos Estados Unidos aparecendo em revistas científicas nos anos 1980. A condição é considerada extremamente rada e a maior parte da pesquisa publicada consiste em relatos de casos individuais. Ela já foi retratada como uma curiosidade na TV, aparecendo em “Grey's Anatomy” e “The Good Doctor”.
Mas o interesse pela condição está crescendo: na reunião anual do Colégio Americano de Gastroenterologia, em outubro passado, houve cinco apresentações separadas sobre casos de autofermentação. Um estudo recente publicado na Nature Microbiology, coliderado por Schnabl, incluiu 22 pacientes. Outra pesquisa futura de Wickremesinghe e Fahad Malik, gastroenterologistas do St. Joseph's Health Hospital em Syracuse, em Nova York, inclui 34 pacientes.
Quanto mais a pesquisa é divulgada, mais casos surgem, com destaque para Malik. Ele afirma ter sido contatado por pacientes da Europa e do Oriente Médio. Os médicos dizem que a condição pode ser mais comum do que se pensava.
Muitos casos são desesperadores porque o diagnóstico é difícil. Malik diz que seus pacientes muitas vezes já consultaram vários médicos antes de chegar ao seu consultório.
— Eles já consultaram um neurologista, um psiquiatra, seu médico de família, e todos dizem: "Não consegui descobrir o que é isso" — relata.
O diagnóstico é ainda mais complicado porque, assim como os indivíduos podem se comportar de forma diferente quando estão bêbados, pacientes com síndrome da autofermentação podem ter sintomas variados quando o intestino sofre excesso de etanol.
— Os mais comuns são alterações de humor, ansiedade, depressão, agressividade, fadiga, confusão mental e mudanças na forma de falar e andar — destaca Malik, acrescentando que seus pacientes frequentemente são inicialmente apresentados com transtornos mentais.
Um cavalo ou uma zebra?
Barbara Cordell, enfermeira de 74 anos e pesquisadora da síndrome da autofermentação em Carthage, Texas, fala frequentemente com “pessoas que juraram que não beberam, mas sofreram um acidente ou foram pegas dirigindo embriagadas sem conseguir explicar”.
— Conversei com tantas pessoas desesperadas por uma resposta, desesperadas para que alguém acreditasse nelas — afirma.
O marido de Cordell, Joe Bartnik, hoje com 77 anos, começou a ficar inexplicavelmente bêbado em 2004. Às vezes acontecia em um domingo de manhã na igreja ou durante uma caminhada após o jantar. Os olhos dele ficaram vidrados, sua postura mudou e ele arrastou as palavras. Durante os episódios, ele, que também é enfermeiro, insistiu que estava bem. No dia seguinte, muitas vezes não se lembrava de nada.
Em 2009, Bartnik teve um episódio tão intenso que Cordell achou que ele estava tendo um acidente e chamou uma ambulância. No pronto-socorro, seu teor alcoólico no sangue registrado 0,37%, mais de quatro vezes o limite legal. Ele não havia tomado uma única bebida. Os médicos insistiram que ele estava bebendo secretamente.
— Como profissional da saúde, sei que muitas pessoas estão em negação e nem sempre dizem a verdade — diz Cordell. — É claro que a maioria dos médicos presume que é um cavalo e não uma zebra.
Cordell queria acreditar no marido, mas era difícil não ser cético. Ela começou a marcar garrafas de bebida, verifique o lixo em busca de latas vazias de cerveja e pesquise termos como “bêbado sem beber”. Quando ele foi diagnosticado, alguns meses após uma visita ao pronto-socorro, Bartnik já lidava com a síndrome da autofermentação há seis anos.
Ela escreveu o caso do marido para uma revista médica e, posteriormente, um livro sobre a condição. Em 2017, fundou a Auto Brewery Syndrome Advocacy and Research, uma organização sem fins lucrativos para pacientes.
Causas e tratamentos
A síndrome da autofermentação parece ser causada por múltiplos fatores. No estudo da Nature Microbiology, amostras de fezes de pacientes com síndrome foram comparadas com as de parceiros domésticos não afetados, para tentar identificar quais organismos eram responsáveis.
Os pesquisadores encontraram um crescimento excessivo de bactérias intestinais específicas, incluindo E. coli e Klebsiella pneumoniae, ambas conhecidas por produzirem etanol. Outros estudos, incluindo os de Wickremesinghe e Malik, atribuíram a condição ao crescimento excessivo de fungos intestinais.
Pesquisadores ainda estão “um pouco confusos” sobre as causas subjacentes da síndrome da autofermentação e por que ela ocorre apenas em algumas pessoas, afirma Schnabl. Alguns especialistas, incluindo ele e Wickremesinghe, acreditam que pode estar ligado ao uso de antibióticos, que alteram a microbiota intestinal. Wickremesinghe destaca que, em seu estudo com quase três dúzias de casos confirmados, “todos, exceto um paciente, foram expostos a antibióticos”, alguns pouco antes do início dos sintomas e outros anos antes.
Para muitos pacientes, incluindo Bartnik, o tratamento pode ser relativamente simples. Ele eliminou completamente carboidratos e açúcares da dieta e fez várias rodadas de antifúngicos. A medicação funciona moderadamente para todos os fungos do intestino, não apenas os em excesso. Quando os fungos se multiplicam de novo, espera-se que o equilíbrio seja restaurado. Pacientes com sintomas característicos são causados pelo crescimento bacteriano, acrescenta Schnabl, são tratados com uma combinação de antibióticos e probióticos para reequilibrar a microbiota.
— Consideramos o tratamento bem sucedido se os pacientes puderem voltar a ter uma dieta normal — diz Malik.
Entretanto, muitos pacientes, como Bartnik, optam por permanecer em uma dieta com poucos carboidratos ou açúcares. Além disso, ele não bebe mais nada e, em alguns pacientes, o consumo de álcool pode causar uma recaída. Mesmo que isso não aconteça, Malik recomenda que os pacientes continuem abstinentes, para facilitar o diagnóstico caso os sintomas retornem.
Após o tratamento, alguns pacientes nunca mais apresentam um episódio de síndrome de autofermentação. Em outros, os sintomas tornam-se periódicos e reaparecem assim que interrompem a medicação. Há ainda aqueles que podem ter sido recuperados meses ou anos depois. Schnabl participa de um pequeno ensaio clínico para investigar se transplantes fecais podem ajudar a restaurar a microbiota intestinal e tratar uma condição de forma mais permanente.
Mesmo com o tratamento bem sucedido, outros problemas podem surgir. Alguns pacientes em recuperação podem desenvolver sintomas de abstinência de álcool, que vão de dores de cabeça e ansiedade até, em casos raros, convulsões.
Além disso, o especialista afirma que houve casos em que, após o tratamento, os pacientes que não tinham o costume de beber passaram a sentir desejo pelo álcool. Às vezes, essas pessoas começam a beber para saciar o desejo e podem precisar de tratamento para transtorno por uso de álcool.
E, ocasionalmente, Schnabl explica, os pacientes na verdade não têm síndrome de autofermentação e estavam bebendo secretamente o tempo todo. Ele defende veementemente que os médicos reconheçam a síndrome como uma condição legítima, mas alertam que um padrão diagnóstico formal precisa ser estabelecido.
No caso de Mongiardo, encerramentos e atrasos judiciais durante a pandemia de Covid fizeram com que seu caso de direção sob efeito de álcool de 2019 perdesse o prazo do “julgamento rápido” e fosse arquivado. Enquanto isso, ele perdeu o emprego de diretor atlético e teve que vender a casa. Mudou-se para a Flórida em 2020, onde hoje trabalha para uma rede de varejo. Sua esposa e filhos mudaram para lá em 2022.
Mudanças na dieta e algumas semanas de medicação antifúngica colocaram sua síndrome de autofermentação sob controle. Ele agora segue uma dieta sem carboidratos e açúcares e continua abstendo-se de álcool. Relatou ter tido apenas dois episódios adicionais nos últimos anos. No final de 2025, criou um canal no TikTok, que já conta com mais de 10 mil seguidores, com o objetivo de dar visibilidade à condição.
— Quero que todos, e todos os médicos, vejam como um distúrbio real, e vejam o que ele fez comigo e o que poderia potencialmente fazer com alguém que não sabe que tem uma síndrome. Quantas vezes entrei no carro para ir trabalhar? Quantas vezes esteve com meus filhos no carro? É pensar assustador, ao longo dos anos, quantas vezes eu poderia ter estado bêbado e não sabia — afirma Mongiardo
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