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Livro costura a vida, a música e o ativismo de Candeia, um dos principais nomes do samba

Uma nova obra resgata a trajetória do sambista e seu papel como ativista cultural e político.

Estadao Conteudo 17/08/2026
Livro costura a vida, a música e o ativismo de Candeia, um dos principais nomes do samba
Livro costura a vida, a música e o ativismo de Candeia, um dos principais nomes do samba - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Nascido no coração da Portela, no bairro carioca de Oswaldo Cruz, Antonio Candeia Filho (1935-1978) faria 91 anos neste dia 17 de agosto. Parte importante de sua trajetória como sambista e também como ativista em um período obscuro da história do país é contada no livro Candeia: O Samba, O Quilombo e o Ativismo Negro (Editora Malê), escrito pelo pesquisador norte-americano Stephen Bocskay. "Candeia era um intelectual, um ativista sui generis", define ele.

Embora seja mais conhecido por compor clássicos do samba, como Dia de Graça, O Mar Serenou e Preciso Me Encontrar, o músico também é autor de livros e, durante a ditadura militar, fundou, com Paulinho da Viola, Nei Lopes e outros ícones da cultura brasileira, o Grêmio Recreativo de Arte Negra e a Escola de Samba Quilombo, símbolo de resistência à comercialização do carnaval e de defesa do samba raiz.

O livro contribui para o resgate da importância da obra musical de Candeia, tão pouco valorizada, ao mesmo tempo em que detalha sua atuação na idealização e na fundação do Quilombo, destacando seu diferencial como ativista cultural e político. Mais do que uma nova concepção de escola de samba, a agremiação foi uma espécie de centro de formação e de estudo sobre a presença da ancestralidade africana na sociedade brasileira em todas as vertentes, seja no samba, na capoeira ou no candomblé. Seus livros se tornaram documentos históricos da cultura do país - não muito diferente do que a cultura hip hop faria mais tarde.

"Ele antecedeu muita gente, como o próprio Abdias do Nascimento e o Quilombismo. Descrevia a escola como um movimento de resistência contra a descaracterização das raízes culturais do samba. Ao mesmo tempo, o Quilombo mostrava um descontentamento geral que não se restringia ao samba: atravessava a política, a reforma agrária, os sindicatos - enfim, todos os lados, como apontou outro de seus sócio-fundadores, Clóvis Scarpino (1930-2003)."

Entre o samba, as ruas e a cadeira de roda

O músico tinha apenas 17 anos quando integrou a junta de compositores que criou o samba de enredo portelense Seis Datas Magnas, o primeiro da história a receber a pontuação perfeita no carnaval carioca - a nota máxima em todos os quesitos julgados.

No início dos anos 1960, conciliava o samba com o trabalho de policial: já estava envolvido com Cartola, Clementina de Jesus, Dona Ivone Lara, Zé Keti, Monarco e Martinho da Vila, entre outros bambas. Em 1965, porém, um incidente trágico transformaria sua música: após uma comemoração por ter sido aprovado em um concurso para oficial de justiça, o compositor se envolveu em uma briga de trânsito e levou cinco tiros. Paraplégico, passou a imprimir em seu samba uma profundidade ainda maior, indo a fundo na brasilidade de origem africana.

Naquele tempo, viver de samba era "coisa de suburbano que chega do trabalho e vai para o bar", comenta Bocskay. Ser sambista significava ser alvo de estereótipos socioeconômicos. A invenção da classificação Música Popular Brasileira, reservada apenas a um determinado grupo de músicos, dificultou ainda mais o reconhecimento do real valor do estilo. "O samba é, de fato, música popular brasileira, sempre carregando sua história e suas características estéticas, musicais e raciais. No entanto, assim como o brega e outros gêneros, não cabe inteiramente na MPB", diz o autor.

O reconhecimento veio em 1975, com a gravação de Clara Nunes, maior artista da música brasileira naquele ano, de O Mar Serenou. No mesmo, começam os trabalhos no Quilombo, que ganharia a sede de forma definitiva no ano seguinte. "O Quilombo era distinto das demais escolas de samba por sua autonomia econômica e política, seja dos setores públicos, seja do privado. Também pela abstenção do desfile carnavalesco e pelo teor de suas atividades culturais", explica Bocskay.

Naquela época, a indústria fonográfica dominava os canais de divulgação e estava mais interessada em divulgar a soul music, o rock e outros gêneros importados, pouco se importando em preservar um gênero musical regional. Contrariando a imagem de Candeia como um defensor do ferrenho samba e pouco aberto ao que viria, o livro mostra um artista visionário, trazendo a história da composição Dia de Graça - gravada no primeiro álbum do cantor e também no seu último trabalho, em uma outra versão. Embora defendesse que o samba não podia perder suas origens e valores, Candeia sabia que a evolução era necessária.

Bocskay preenche, ainda, uma espécie de lacuna existente na literatura. Intrigado com a escassez de composições de samba na bibliografia dedicada à censura sofrida pelos músicos na ditadura - reservada sobretudo às obras de MPBistas e bossanovistas - decidiu investigar os registros históricos, considerando essa inexistência impossível.

A hipótese se confirmou: em seu livro, o pesquisador traz, por exemplo, O Morro do Sossego, censurada por "incentivar a luta de classe". A canção seria interpretada por Clara Nunes, mas ganhou registro apenas em 1987, na voz de Cristina Buarque. "De vez em quando, aparece um pesquisador dizendo que tudo já foi pesquisado e dito sobre a ditadura. Não; vamos com calma", diz ele.

Candeia partiu cedo demais, aos 43 anos, no mesmo ano do lançamento de seu último disco, Axé! (1978). Não viu, portanto, o monolito em que o seu samba se transformaria para a música brasileira, conforme o historiador Luiz Antonio Simas define na orelha do livro de Bocskay: "o mais impactante e múltiplo fenômeno da cultura brasileira". Como o sambista diria em uma de suas criações: "Porque o sambista não precisa ser membro da academia / Ser natural com a sua poesia e o povo lhe faz imortal".

Americano apaixonado pelo samba

"O samba me escolheu - e não vice-versa", brinca Bocskay, quando fala de sua paixão pelo ritmo brasileiro. Nascido na cidade de Nova York, em 1975, o também professor lembra que seu primeiro contato com o samba foi por meio da voz de Paulinho da Viola, na casa de amigos. Ao conhecer a história de vida do autor, entende-se a sintonia: "Também comecei a trabalhar cedo. Minha mãe, que trabalhou a vida toda como enfermeira, criou três filhos sozinha. Fui taxista e carregador de tacos de golfe, entre muitas outras coisas, até que resolvi entrar num community college e passei a levar a sério os estudos".

O escritor ingressou na Universidade Cornell (Ithaca, NY), onde se formou em Estudos Hispânicos. Em 2012, concluiu seu doutorado em Estudos Luso-Brasileiros pela Universidade Brown (Providence, EUA), ao defender a tese Voices of Samba: Music and The Brazilian Racial Imaginary, 1955-1988. "Trabalhei com quatro nomes: Zé Keti, Candeia, Martinho da Vila e Nei Lopes. Meu livro sobre Candeia foi um desdobramento do capítulo que eu tinha escrito sobre ele e o Quilombo", explica.

Bocskay também é autor de outro livro sobre música brasileira, Brazilian Popular Music and Censorship: From Getúlio to Redemocratization, que será publicado nos Estados Unidos pela editora Cambridge University Press. "Nele, examino a censura do discurso negro na música popular brasileira e o cerceamento do ativismo negro durante o século 20. É um livro muito forte", diz ele, que busca uma editora brasileira para lançá-lo aqui.

Candeia: O Samba, O Quilombo e o Ativismo Negro

Autor: Stephen Bocskay

Editora: Malê (262 págs.; R$ 65)