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De 'Locomotiva' a 'Avvelenata', música de Guccini é manifesto de política e memória

Cantor e compositor narrou mais de 50 anos de transformações na Itália

Redação ANSA 06/08/2026
De 'Locomotiva' a 'Avvelenata', música de Guccini é manifesto de política e memória
Francesco Guccini é um dos ícones da música italiana no século 20 - Foto: ANSA

Francesco Guccini, morto nesta quinta-feira (6), aos 86 anos de idade, não foi "apenas" um cantor e compositor.

Por meio de sua música, ele narrou mais de 50 anos de uma Itália complexa e em profunda transformação.

Temas universais como memória, liberdade, amor e morte estão na base de sua produção, marcada também por uma linguagem rica em referências literárias e por uma extraordinária capacidade narrativa. Muitas dessas canções se tornaram marcos da história da música italiana, mas também das trajetórias pessoais de quem as ouviu e as adotou como suas.

Entre as faixas mais célebres de Guccini destaca-se "La locomotiva" ("A locomotiva"), de 1972, considerada um poderoso hino político de rebeldia e que, segundo a lenda, teria sido escrita em 20 minutos. Inspirada na história do anarquista Pietro Rigosi, a canção narra a tentativa desesperada de lançar uma locomotiva contra um trem de luxo, como gesto simbólico contra as injustiças sociais, e se transforma em uma reflexão sobre a força dos ideais e a coragem de quem decide lutar mesmo quando a derrota parece inevitável.

Não menos importante é "Dio è morto" ("Deus está morto"), de 1965, manifesto de uma geração desorientada que, nos anos da revolução sexual e cultural da década de 1960, via ruir os valores tradicionais. Na época do lançamento, o título, considerado provocador e blasfemo, gerou polêmica, mas o significado da letra vai além da frase de efeito e ataca a sociedade de consumo, depositando nas novas gerações a esperança de um renascimento moral.

Como contraponto, surge "Eskimo" (1978), que retrata os anos dos protestos estudantis na Itália. Por meio de lembranças pessoais, Guccini conta os sonhos, as paixões, as ilusões e as desilusões de uma geração que esperava mudar o mundo.

Com "Auschwitz", de 1966, o compositor enfrenta um dos temas mais dolorosos do século 20: o horror do Holocausto, narrado do ponto de vista de uma criança morta no campo de extermínio. A canção se transforma em um convite à reflexão sobre a necessidade de preservar a memória histórica.

O tema da lembrança — mas desta vez abordado por meio da experiência pessoal — também aparece em "Incontro" ("Encontro"), de 1972, em que o tempo se torna protagonista da música.

A classe política entra na mira de Guccini em "Cirano", canção de 1996 inspirada na peça teatral "Cyrano de Bergerac", de Edmond Rostand. O cantor constrói uma longa invectiva contra o conformismo, o poder e a superficialidade da sociedade contemporânea, um manifesto de independência intelectual em que o protagonista prefere dizer a verdade a se adaptar às conveniências.

Outra obra célebre é "Il vecchio e il bambino" ("O velho e o menino"), de 1972. Com seu estilo poético, Guccini aborda o tema da passagem geracional, narrando o diálogo entre um velho e um menino que refletem sobre uma sociedade marcada pelo medo e pela destruição.

Já em 1976, talvez cansado das críticas e dos ataques de parte da imprensa, Guccini escreve a autobiográfica "L'avvelenata" ("A envenenada"), um monólogo irônico, amargo e provocador no qual reivindica sua liberdade artística, recusando qualquer rótulo e qualquer tentativa de reduzir sua música a slogans políticos ou comerciais. Ainda hoje, continua sendo uma das canções mais queridas pelo público.