Variedades

Daniel Sartório e o humor como linguagem para compreender o Brasil contemporâneo

Humorista, podcaster, roteirista e editor constrói trajetória que acompanha a transformação da comédia brasileira nas últimas duas décadas

Assessoria 09/07/2026
Daniel Sartório e o humor como linguagem para compreender o Brasil contemporâneo
Daniel Sartório - Foto: Divulgação

Entre os nomes que ajudam a explicar a evolução da comédia brasileira, Daniel Sartório ocupa um espaço singular. Humorista, roteirista, editor, podcaster e produtor de conteúdo, o mineiro radicado em São Paulo transformou uma curiosidade precoce pela comunicação em uma carreira multifacetada que ultrapassa os limites do entretenimento e dialoga com temas centrais da experiência humana.

Sua trajetória começa muito antes dos palcos. Ainda na infância, em Minas Gerais, quando a internet brasileira dava seus primeiros passos, Sartório já experimentava formas de comunicação digital que antecipavam o universo dos criadores de conteúdo. Entre páginas na internet, projetos autorais e iniciativas voltadas ao compartilhamento de humor, desenvolveu uma relação quase intuitiva com a narrativa, a observação e o riso.

“Naquela época eu nem imaginava que existiria uma profissão ligada à criação de conteúdo. Eu só gostava de fazer as pessoas rirem e de experimentar formas de contar histórias. Hoje percebo que muita coisa começou ali, mesmo sem eu entender”, relembra.

Sem referências artísticas próximas e oriundo de uma família ligada à tecnologia, a possibilidade de viver da comédia parecia distante. A publicidade surgiu como caminho natural para conciliar criatividade e comunicação. Formado na área, trabalhou em agências de Minas Gerais e São Paulo, acumulando experiências que mais tarde se tornariam matéria-prima para suas apresentações.

Uma temporada nos Estados Unidos, durante um intercâmbio de trabalho em Nova York, ampliou seu contato com a cultura do stand-up comedy em um momento de forte expansão internacional do gênero. O impacto daquela vivência seria decisivo para sua formação artística. “Foi a primeira vez que vi o stand-up como uma linguagem muito potente. Não era apenas fazer rir, havia observação, crítica, construção de texto e uma conexão muito forte com o público. Aquilo mudou a forma como eu enxergava a comédia.”

Em 2015, aos 27 anos, Daniel Sartório estreou nos palcos da capital paulista. A partir daquele momento iniciou uma trajetória construída na base da experiência cotidiana dos artistas independentes com apresentações em bares, centros culturais, espaços alternativos, saraus e projetos de ocupação urbana. Uma jornada marcada pela persistência e pelo constante aprimoramento da linguagem cômica.

Seu trabalho se diferencia pela recusa aos formatos excessivamente segmentados. Sartório desenvolveu um estilo fundamentado na observação da vida cotidiana, transitando entre o humor observacional e o absurdismo, explorando contradições, comportamentos e situações que revelam aspectos profundos da sociedade contemporânea.

“Eu nunca quis escrever para uma bolha específica. O cotidiano já é suficientemente absurdo. Meu interesse sempre foi observar as pessoas e transformar essas pequenas contradições em humor.”

Além da atuação como comediante, tornou-se uma figura relevante nos bastidores da cena humorística brasileira. Seu podcast Tava Vindo Pra Cá consolidou-se como um importante espaço de registro e reflexão sobre o universo da comédia nacional. Em uma época anterior à popularização dos videocasts, o programa reuniu entrevistas e conversas que hoje ajudam a documentar a trajetória de uma geração de humoristas, preservando memórias e experiências fundamentais para a compreensão do stand-up brasileiro. “O podcast nasceu porque eu queria conversar com quem estava construindo essa cena junto comigo. Sem perceber, acabamos registrando um momento importante da história da comédia brasileira.”

O trabalho de formação de novos talentos também ocupa papel importante em sua carreira. Como apresentador de noites de microfone aberto em São Paulo, acompanha o surgimento de novos artistas e participa ativamente da renovação da cena humorística nacional.

Entre seus projetos mais significativos está o especial Antes que Ele Se Esqueça, realizado ao lado do pai, Celso Trindade, diagnosticado com Alzheimer. Com sensibilidade rara, a obra utiliza o humor como ferramenta de afeto, inclusão e reflexão sobre memória, envelhecimento e relações familiares. O projeto recebeu destaque por demonstrar como a comédia pode abordar temas delicados sem abrir mão da humanidade, transformando o riso em instrumento de conexão emocional. “Este é, sem dúvida, o trabalho mais pessoal que já fiz. Descobri que o humor também pode acolher, preservar memórias e aproximar pessoas, mesmo quando estamos falando de temas difíceis como o Alzheimer.”

Ao longo de aproximadamente uma década de carreira, Daniel Sartório consolidou uma atuação que reúne palco, audiovisual, produção de conteúdo, edição e reflexão cultural. Sua trajetória acompanha as profundas mudanças vividas pela comédia brasileira em um período marcado pela ascensão das redes sociais, pela transformação dos modelos de consumo de entretenimento e pela redefinição do papel do humor na esfera pública.

“Acredito que o humor é uma forma de interpretar o mundo. Ele aproxima pessoas, provoca reflexão e nos ajuda a lidar com aquilo que, muitas vezes, parece difícil de explicar”, conclui.