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No Dia Mundial do Livro (23 de abril), conheça Flávia Iriarte: a editora que formou 8 mil escritores agora estreia no romance
Durante mais de 15 anos, Flávia Iriarte esteve nos bastidores do mercado editorial brasileiro. Orientou mais de 8 mil escritores, publicou 320 autores por sua editora, coordenou a implementação de uma pós-graduação em Escrita Criativa e se tornou uma das principais vozes na formação de novos autores no país. Agora, aos 40 anos, ela ocupa um lugar diferente: o de romancista.
Com Instruções para desaparecer devagar (Faria e Silva), Flávia estreia no romance e inverte a lógica a que está acostumada — deixa de orientar escritores para responder sobre a própria obra. E o que a move não é uma reflexão sobre o mercado editorial, mas uma pergunta incômoda: é possível que a consciência do privilégio produza mudança real ou ela resulta apenas em culpa mal elaborada?
Carioca radicada em Brasília, formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio, Flávia partiu de uma experiência pessoal para construir a narrativa. Em 2016, durante uma viagem ao Camboja, foi parar em uma pousada em ruínas, sem tranca na porta, temendo pelo que poderia acontecer. “Acho que toda mulher conhece esse estado. A sensação de que o perigo está sempre à espreita, de que a qualquer momento pode acontecer algo que não vamos conseguir evitar.”
Romance revela o medo que molda mulheres desde cedo
Essa sensação atravessa o romance, que conta com textos de blurbs das escritoras Bruna Maia e Carola Saavedra. A trama acompanha Alice, jovem branca e rica, atravessada por uma culpa difusa em relação aos próprios privilégios, e Bárbara, colega de classe vinda da periferia, convidada para uma viagem bancada pelo pai de Alice. O que começa como tentativa de reparação simbólica se transforma em um confronto silencioso entre as duas, até que um episódio violento as obriga a encarar aquilo que preferiam não nomear.
Mais do que um thriller psicológico, a autora define a obra como uma “tragédia contemporânea”. O romance dialoga com a estrutura clássica definida por Aristóteles (o erro trágico, a peripécia, a queda), mas a transplanta para um universo onde o destino não é ditado pelos deuses, mas pelas forças sociais do capital, do gênero e do privilégio. “O romance se apoia na estrutura trágica, mas atualiza isso para um mundo em que o destino já não é mais imposto pelos deuses, e sim pelo próprio indivíduo, produto do seu lugar de classe, gênero e raça”, explica a escritora.
A amizade entre mulheres, frequentemente romantizada sob o signo da sororidade, é tratada aqui como território de tensão, hierarquia e silenciamentos. “A categoria mulher é importantíssima, mas como toda categoria ela esconde as nuances do grupo que abarca. Uma mulher pobre enfrenta desafios diferentes de uma mulher rica. Uma mulher pobre e negra enfrenta desafios diferentes de uma mulher rica e branca. Ainda que todas enfrentem desafios semelhantes pelo fato de serem mulheres. Essas desigualdades colocam tensões.”
Para abordar esses conflitos, a autora opta por uma escrita seca e deliberadamente contida. “Eu tento evitar o encantamento excessivo da linguagem e buscar uma escrita mais direta, que permita acessar as ideias sem tantos rodeios.” Entre as influências citadas estão o cinema de Michael Haneke e os romances de J.M. Coetzee, Elfriede Jelinek, Ottessa Moshfegh e Arnon Grunberg.
Há também uma decisão ética que moldou o desfecho do romance. A primeira versão terminava logo após a cena mais violenta. Flávia reescreveu. “Eu não queria que as minhas personagens permanecessem aprisionadas naquele episódio. Era importante que elas tivessem a chance de retomar a própria narrativa, de falar, de interpretar o que aconteceu com elas.”
Do bastidor ao centro do debate
A trajetória de Flávia torna o romance ainda mais significativo. Fundadora da Editora Oito e Meio em 2010, ela já publicou mais de 320 autores brasileiros. Criou a Carreira Literária, escola online que já formou milhares de escritores e impacta diariamente mais de 100 mil pessoas em suas redes sociais. Coordenou a implementação da pós-graduação em Escrita Criativa da Uniítalo/NESPE, onde leciona. Em 2016, foi uma das vencedoras do Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro, promovido pelo PublishNews com apoio da Feira de Frankfurt.
Com ampla visão do setor, mantém uma leitura crítica do mercado editorial brasileiro. “Os grandes grupos editoriais brasileiros pertencem, em sua maioria, a famílias ricas há gerações no eixo Rio–São Paulo. Algo semelhante acontece com as grandes empresas de comunicação, que também concentram o poder de decidir o que aparece e o que não aparece no debate público. Em outras palavras: ainda há muito poder nas mãos de poucas pessoas.”
Ao mesmo tempo, reconhece mudanças importantes. “Hoje existe uma quantidade muito maior de editoras independentes do que havia vinte anos atrás. Casas pequenas, como a Oito e Meio, que ajudam a ampliar a diversidade de vozes presentes no mercado. E iniciativas como o Carreira Literária também surgem nesse contexto, tentando deslocar a ideia de que a atividade literária é um espaço natural de poucos iniciados.”
Para ela, a passagem da edição para a ficção não é ruptura, mas consequência. “Antes de ser escritora sou — em primeiro lugar — leitora, depois, editora, professora de escrita criativa. Escrever é só uma consequência disso.”
Com Instruções para desaparecer devagar, Flávia Iriarte passa a ocupar também o centro da cena literária contemporânea brasileira. E já trabalha no próximo projeto: um romance sobre três amigos de escola marcados por uma tragédia comum e pela impossibilidade de obter todas as respostas. “É uma história sobre precisar aceitar que não teremos respostas de tudo.”
Sobre Flávia Iriarte
Flávia Iriarte é carioca, radicada em Brasília, formada em Cinema pela UFF e mestre em Literatura, Cultura e Contemporaneidade pela PUC-Rio. É editora, mentora de Escrita Criativa e fundadora da escola online Carreira Literária, uma das principais formações de escritores do Brasil. Criou a Editora Oito e Meio em 2010, pela qual já publicou mais de 320 autores. Coordenou a pós-graduação em Escrita Criativa Da Uniítalo/NESPE, onde ainda leciona. Foi uma das vencedoras do Prêmio Jovens Talentos da Indústria do Livro em 2016. É autora do livro de contos Todo homem naufraga (Oito e Meio) e do romance Instruções para desaparecer devagar (Faria e Silva). Impacta diariamente mais de 100 mil escritores em suas redes sociais.
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