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5 escritoras no espectro autista que estão ampliando a literatura contemporânea

Assessoria 17/04/2026
5 escritoras no espectro autista que estão ampliando a literatura contemporânea
Flávia Teodoro Alves - Foto: Assessoria

A presença de autoras autistas na literatura brasileira contemporânea tem ampliado perspectivas estéticas e políticas. Transformando suas experiências neurodivergentes em matéria literária, suas obras articulam trauma, política e memória, propondo outras lógicas de estrutura e expressão. Reunimos cinco autoras que, em diferentes frentes, ampliam o campo literário brasileiro ao inscrever a neurodivergência como potência estética e crítica.

Diagnosticada com autismo, TDAH e altas habilidades aos 40 anos, a poeta e arte/educadora Flávia Teodoro Alves, de 43 anos, transformou o diagnóstico tardio em eixo de elaboração artística e política. "Fui diagnosticada como autista com TDAH e altas habilidades aos 40 anos. A literatura é um veículo para processar e compreender o que acontece comigo e à minha volta", afirma. Professora da rede pública há 20 anos, vivendo na Brasilândia (Zona Norte de São Paulo), ela também reconhece o papel da arte/educação em sua trajetória: "A arte/educação é um pilar muito importante na minha vida. Me ajudou muito com minha neurodivergência, quando eu só desconfiava que não era igual a todo mundo."

A experiência da neurodivergência atravessa seus dois livros de poesia, “Não existe guarda-chuva pra quando chove de cabeça para baixo” (Fábrica de Cânones, 2022) e “Toda reza é tentativa de telecinese” (Caravana Grupo Editorial, 2023). Sobre sua escrita, explica: "Escrevo sobre temas que me atravessam como enigmas que preciso decodificar para seguir em frente, uma tática de sobrevivência para descobrir (ou criar) meu lugar no mundo. Minha dificuldade em compreender códigos sociais não-ditos me fez questioná-los profundamente." Em "abismo", escreve: "eles ficam abismados / quando descobrem que minha revolta / não é teórica / eles ficam abismados / quando descobrem que minha revolta / bate no útero e volta / eles ficam abismados / quando descobrem que minha revolta / não é só minha". E em "ut eros": "tudo que é mulher / é vacuidade / é desobediência / e sangra".


Alice Puterman


Aos 23 anos, Alice Puterman estreia com “Candura: uma história de sobrevivência feminina” (TAUP – Toma Aí Um Poema, 2025), livro escrito ao longo de seis anos a partir do estupro coletivo que sofreu aos 17. Autista, com mutismo seletivo na infância, encontrou na palavra escrita sua primeira linguagem possível — aprendeu a escrever aos três anos, e desde então as palavras se tornaram seu principal meio de existência e resistência. Com diagnóstico de Transtorno de Estresse Pós-Traumático, afirma no prefácio: "Não sei dizer onde a violência começa em minha vida, mas a violência que eu cometo à mim mesma termina com estas páginas". E explica: "Estupro é um assunto sobre o qual não se pode falar. Então, eu espero que meu livro seja esse lugar onde a dor de todas nós pode existir".

A obra aborda tentativas de suicídio, internações, eletrochoques e o processo de aprender a conviver com o diagnóstico recebido. Sobre o título, afirma: "Candura: qualidade de quem é ingenuamente crente. Amável. Puro. Mulheres são ensinadas a serem cândidas. E é aí que, teoricamente, mora nossa fraqueza". E declara: "Não importa quantos golpes me atinjam, é só por ela — a candura — que ainda estou de pé." Em um dos poemas finais, escreve: "Tentei / me matar / dez vezes / mas / tentei / viver / tao mais / e assim descobri / que estes ossos / brilham / como porcelana chinesa". Para a autora, "esta obra não fecha feridas. Ela as nomeia — porque só somos capazes de lutar quando violências têm nome. A minha, por muito tempo não teve."


Sarah Munck


Sarah Munck articula poesia, feminismo e neurodivergência em O Diagnóstico do Espelho (Editora Mondru), obra em que reflete sobre o viver feminino atravessado pelo autismo, o mascaramento social e as violências de gênero. Em versos que dialogam com o modernismo e o surrealismo, a autora dedica poemas a crianças neurotípicas e atípicas, apresenta um eu poético “neurodiverso” e defende a inclusão da neurodivergência nos debates sobre feminismo, educação e justiça social. A obra conta com orelha assinada pela Dra. Silvina Carrizo (UFJF) e posfácio da psicóloga Mariana dos Santos Cordeiro Esposito, que destaca os impactos emocionais e sociais enfrentados por mulheres neurodivergentes.

Natural de Juiz de Fora (MG), Sarah é poeta, professora e pesquisadora, graduada, mestre e doutora em Letras pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e professora efetiva do Instituto Federal do Sudeste de Minas Gerais (IF Sudeste MG), campus Santos Dumont. Em seu livro mais recente, Esquecemos os nomes dos pássaros (Provérbio Editora, 2025), viabilizado pelo Edital Murilão do Programa Cultural Murilo Mendes (FUNALFA), a autora amplia seu compromisso ético ao incorporar recursos de acessibilidade: por meio de QR code na capa, o leitor tem acesso à audiodescrição, vídeos com declamação em voz e interpretação em Libras de todos os poemas — reforçando a literatura como espaço de memória, escuta e inclusão.


Milena Martins Moura


Milena Martins Moura tensiona infância, processo de escrita e neurodivergência em “o carro de apolo capotou no horizonte” (Macabéa Edições, 2025), livro vencedor do Prêmio LOBA 2025 na categoria Livro de Poesia Publicado. Mulher autista, a autora ficcionaliza a experiência do espectro sem recorrer a explicações didáticas, tratando o autismo como forma possível de existência, não como erro a ser ajustado. A obra investiga os limites do autobiográfico e expõe as marcas do fazer poético, assumindo o “erro” como método e deixando à mostra rasuras, dúvidas e camadas de sentido, num projeto que problematiza a ideia de poesia como inspiração sublime e reafirma o labor da escrita.

Nascida no subúrbio do Rio de Janeiro em 1986, Milena é poeta, editora, tradutora e pesquisadora, mestre em Literatura Brasileira pela Uerj e doutoranda em Literatura Comparada pela UFF. Autora de Promessa Vazia (2011), Os Oráculos dos meus Óculos (2014), A Orquestra dos Inocentes Condenados (2021) e O Cordeiro e os Pecados Dividindo o Pão (2023), semifinalista do Prêmio Jabuti 2024, também foi finalista do Prêmio Sesc de Literatura 2025 na categoria Romance. Editora da revista cassandra e com poemas traduzidos para o espanhol e o tcheco, constrói uma trajetória em que infância, religião, sexualidade feminina e neurodivergência atravessam sua produção literária mais recente.


Jo Melo


Jornalista, escritora e fundadora do projeto Mães que Escrevem, Jo Melo foi diagnosticada como autista na vida adulta, experiência que atravessa sua relação com a linguagem e o hiperfoco na escrita. Sua atuação vai além da autoria individual, consolidando espaços de pertencimento para outras mulheres. Com livros publicados e reconhecimento internacional, sua produção evidencia a escrita como prática de cuidado, resistência e construção coletiva de sentido. Mais recentemente, Jo organizou a obra “Escrevivências Maternas” (2025), na qual transforma a escrita em prática coletiva de acolhimento e elaboração. A antologia, fruto do II Concurso Escrevivências Maternas, reúne 37 autoras e toma como eixo o conceito de “escrevivência”, propondo narrativas que entrelaçam experiência pessoal e dimensão social. Os textos abordam maternidade em suas múltiplas formas, explorando temas como luto, solidão, rede de apoio e reinvenção de si.

Graduada em Letras, Jo Melo é mestranda em Estudos Linguísticos pela UNIFESP e possui pós-graduação em Marketing Digital e Jornalismo Digital. É Imortal da Academia Mundial de Letras da Humanidade, autora premiada no VII Prêmio Talentos Helvéticos-Brasileiros na Suíça e finalista do Prêmio Mulheres Positivas. Publicou os livros “Os Cinco Sentidos” (Patuá, 2024) e “Hipérboles” (Viseu, 2022), além de diversas antologias.