RJ em Foco

De skates de plástico reciclado a roupas reaproveitadas: projeto na Rocinha transforma resíduos em produtos e busca gerar renda

Fábrica Criativa reúne oficinas de costura, impressão 3D e audiovisual; iniciativa já capacitou mais de 100 moradores e alcançou 4 mil estudantes.

Agência O Globo - 19/10/2026
De skates de plástico reciclado a roupas reaproveitadas: projeto na Rocinha transforma resíduos em produtos e busca gerar renda
De skates de plástico reciclado a roupas reaproveitadas: projeto na Rocinha transforma resíduos em produtos e busca gerar renda - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Skates feitos de plástico reciclado, cadernos produzidos com papel reaproveitado e roupas confeccionadas a partir de sobras de tecidos. Na Rocinha, na Zona Sul do Rio, materiais que poderiam acabar no lixo ganham novas utilidades e podem se transformar em fonte de renda para os moradores. A proposta é da Fábrica Criativa Rocinha + Sustentável, espaço que reúne tecnologia, moda e empreendedorismo para estimular a produção e a comercialização de produtos desenvolvidos dentro da própria comunidade.

Implantado pelo Instituto TMJ Rocinha, em parceria com a Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio) e outras instituições, o projeto funciona em um prédio de três pavimentos, reformado e equipado para receber atividades de capacitação e produção. A iniciativa dá continuidade ao Rocinha + Sustentável, que contou com apoio da Fundação Carlos Chagas Filho de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro (Faperj).

O espaço reúne quatro frentes de atuação: moda e costura, fabricação digital, audiovisual e comercialização de produtos. A estrutura inclui máquinas industriais de costura, impressoras 3D e um showroom, onde poderão ser expostos e vendidos os itens produzidos pelos participantes.

Em um dos laboratórios, conhecido como FabLab, são realizados experimentos para reaproveitar resíduos plásticos. Entre as pesquisas está a transformação desses materiais em filamentos utilizados em impressoras 3D, tecnologia que permite fabricar objetos a partir de modelos digitais.

Já no núcleo de moda, tecidos descartados e peças de roupas sem uso podem ganhar novas formas por meio de técnicas de reaproveitamento, conhecidas como upcycling. A proposta é desenvolver acessórios, objetos de decoração, souvenirs, brindes corporativos e coleções inspiradas na identidade da Rocinha.

Além da venda direta ao público, a iniciativa pretende atender empresas interessadas em produtos personalizados e sustentáveis. A ideia é criar oportunidades comerciais para que os conhecimentos adquiridos nas oficinas possam se transformar em negócios e fontes de renda para os participantes.

— A Fábrica Criativa nasce da compreensão de que a Rocinha tem conhecimento, criatividade e capacidade de inovação. Queremos criar condições para que esses talentos se transformem em produtos, negócios e oportunidades reais de geração de renda, conectando os saberes da comunidade à universidade, à tecnologia e ao mercado — afirma o pesquisador Davison Coutinho.

A Fábrica Criativa é um desdobramento do projeto Rocinha + Sustentável, que desenvolveu atividades de reciclagem de plástico, papel e óleo. Ao longo de sua atuação, a iniciativa certificou mais de 100 moradores e promoveu ações em seis escolas públicas, alcançando cerca de 4 mil estudantes.

Entre os produtos desenvolvidos nessa primeira etapa estão skates fabricados com plástico reciclado, cadernos de papel reaproveitado, sabões, velas e protótipos produzidos com tecnologias de fabricação digital.

O projeto também abriu caminhos para a formação acadêmica e profissional dos participantes. Segundo os organizadores, moradores ingressaram em cursos de graduação e pós-graduação em Design, enquanto jovens receberam capacitação na área de audiovisual.

Em 2024, o Rocinha + Sustentável recebeu o Prêmio Periferia Viva, concedido pelo Ministério das Cidades. Parte dos laboratórios e equipamentos utilizados nas atividades permaneceu em funcionamento, permitindo a continuidade das ações de formação e experimentação.

Com a nova estrutura, a expectativa dos responsáveis é ampliar a produção e criar uma rede que conecte moradores, universidades e empresas, facilitando a chegada dos produtos desenvolvidos na comunidade ao mercado.

— Esses projetos mostram como a ciência, a tecnologia e a criatividade podem caminhar juntas para transformar realidades. Ao apoiar iniciativas que valorizam os talentos locais e estimulam o empreendedorismo, a Faperj contribui para ampliar oportunidades de geração de renda e fortalecer o desenvolvimento sustentável — afirma a presidente da fundação, Caroline Alves.

A iniciativa também deve receber visitantes internacionais. No próximo dia 28 de outubro, está prevista uma visita de uma comitiva da Organização das Nações Unidas (ONU) à Fábrica Criativa. Posteriormente, o espaço deverá receber a princesa africana Abze Djigmah.

Segundo os organizadores, os encontros têm como objetivo promover a troca de experiências e dar visibilidade às iniciativas de sustentabilidade, inovação e geração de renda desenvolvidas na Rocinha.