RJ em Foco
Conheça colecionador de olaria que tem mais de 50 mil itens de artistas brasileiros
Discos de vinil, documentos, peças de vestuário e mais itens compõem acervo
Muita gente que passa pelo local não imagina, mas um sobrado da Rua Doutor Alfredo Barcelos, em Olaria, na Zona Norte do Rio, guarda boa parte da memória da Era de Ouro do Rádio, entre os anos de 1930 e 1950, período em que reinaram estrelas como Carmen Miranda, Dalva de Oliveira, Ângela Maria, Marlene e Emilinha Borba. Um jovem de 29 anos, que aprendeu com o avô a gostar dos artistas de uma geração tão distante da sua, é o guardião de um acervo de mais de 50 mil itens, entre discos, partituras, revistas, fotografias históricas e até objetos pessoais como roupas, troféus e documentos.
Violência:
E mais:
— Meu avô era um contador aposentado muito caseiro, que vivia trancado no quarto ouvindo música. Eu ficava na sala escutando, curioso para saber quem eram aqueles artistas. Até que perguntei. Ele me introduziu nesse mundo, habitado por Cauby Peixoto, Orlando Silva, Francisco Alves, Ângela Maria e Nelson Gonçalves — conta Tadeu Kebian.
O avô do rapaz, no entanto, não era um colecionador. Tinha apenas cerca de 50 discos. Já a atividade de Tadeu nessa função começou com três discos que ganhou do pai. Hoje, o acervo passa dos 30 mil, nos mais diferentes formatos. Com o tempo, ele achou que não bastavam os vinis. Foi atrás então de exemplares da Revista do Rádio, Radiolândia e outros objetos. Sua coleção ganhou fôlego depois de participar, em 2015, do documentário "Cauby Peixoto - Começaria tudo outra vez", dirigido por Nelson Hoineff.
— Soube que o Cauby faria um show no Rio e procurei a empresária dele tentando conseguir um ingresso. Ela disse que ele estava totalmente envolvido no filme. Então, procurei a produção do documentário — lembra o jovem.
Tempos depois, ligaram para ele cobrando o e-mail e o rapaz decidiu mandar. Para sua surpresa telefonaram de volta não só prometendo promover o encontro sonhado, mas também convidando-o a participar do filme. A intenção do diretor, com a participação, era mostrar como a obra do cantor atravessava gerações.
— O filme me abriu oportunidade de conhecer artistas de que gostava, e muitos passaram a doar objetos de seu acervo pessoal para minha coleção — diz.
É o caso da cantora Luciene Franco, expoente da Era do Rádio, que doou para Tadeu, em 2022, dois anos antes de morrer, um violão Del Vecchio, que pertenceu a Alexandre Franco, pai da artista. Ao mesmo tempo, o jovem recebeu da cantora uma carta manuscrita na qual a artista dizia tê-lo escolhido como guardião do instrumento, que garantia ter sido tocado por músicos como os violonistas Luiz Bonfá e Baden Powell.
Entre as relíquias de Tadeu estão ainda um retrato da cantora Leny Eversong e um troféu doado por Eliana Pittman, além de itens garimpados em leilões. Em um recentemente realizado pelo Retiro dos Artistas com peças de Jô Soares, Tadeu fez questão de ser o primeiro a chegar e arrematou cinco itens, todos de vestuário. Outro item arrematado em leilão foi um troféu no formado de um pequeno violão, que teria sido do cantor e compositor Caetano Veloso.
Entre as relíquias de Tadeu estão ainda um retrato da cantora Leny Eversong, que mede 1,90m de altura por 1m de largura, comprado diretamente de ou um outro colecionador no interior de São Paulo. Ele guarda ainda um troféu Globo de Ouro, entregue pela TV Globo entre os anos 1970 e 1980 aos maiores vendedores de discos, presenteado pela cantora Eliana Pittman. De Edith Veiga, ele ganhou um vestido usado por ela em suas apresentações, que havia sido desenhado pelo estilista Clodovil Hernandez.
Um dos itens de mais alto custo foi o exemplar do primeiro disco de Roberto Carlos "Louco por você". O rapaz evita falar em valores, mas na internet o vinil lançado pelo Rei antes da fama, no começo dos anos 1960, e retirado de circulação pelo cantor, insatisfeito com o resultado das gravações, é negociado na internet por cerca de R$ 7 mil.
Tadeu ganha a vida como comerciante. É sócio com o pai de um bar no térreo do sobrado onde mora em Olaria. Ele não sabe ainda o que fará com o acervo no futuro. Além de preservar a memória dos artistas que admira, faz questão de compartilhar os guardados, abrindo as portas de sua casa para pesquisadores e interessados em geral.
— Hoje sou guardião desses objetos, mas não tem nexo guardar por guardar. Faço questão de compartilhar com quem tem interesse em conhecer — diz.
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