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É inadmissível: família de Marielle critica entrevista com Ronnie Lessa

Parentes criticam reconstituição do assassinato e afirmam que crime não deve ser transformado em entretenimento

Agência O Globo - 29/08/2026
É inadmissível: família de Marielle critica entrevista com Ronnie Lessa
Ronnie Lessa - Foto: Reprodução

A família de Marielle Franco divulgou uma nota de repúdio à entrevista concedida por Ronnie Lessa à TV Record, exibida na quinta-feira, dia 27, no programa Doc Investigação. Condenado pela execução da vereadora e de seu motorista, Anderson Gomes, Lessa falou pela primeira vez sobre o crime e outros casos que envolvem seu nome. Durante a entrevista, o ex-policial militar afirmou que estava “entorpecido pelo dinheiro” ao participar do assassinato e definiu a ação como uma “overdose de ganância”.

Para a família, a entrevista transformou em espetáculo um crime que destruiu suas vidas. Em nota, os parentes de Marielle afirmaram que dar protagonismo e imagem ao executor, enquanto a produção reconstitui em detalhes a dinâmica do assassinato, é uma escolha “irresponsável e desrespeitosa” com a memória da vereadora e de Anderson.

“Há uma diferença fundamental entre informar e espetacularizar a violência”, diz a nota. Para a família, colocar a narrativa do assassino no centro da reportagem pode “naturalizar, romantizar e produzir fascínio” em torno do crime e deslocar a atenção das vítimas e das estruturas políticas e criminosas que possibilitaram as mortes.

Durante a entrevista, Lessa afirmou que o primeiro alvo do grupo teria sido o político Marcelo Freixo, então deputado federal pelo PSOL. Ele negou, porém, que participaria de um atentado contra Freixo. Segundo o ex-PM, Marielle passou a ser apontada como alvo porque estaria interferindo em um projeto de divisão de terras na Zona Oeste do Rio que beneficiaria Lessa e seus aliados.

— O que o Domingos me passou foi o seguinte: ela não vai deixar a gente botar o condomínio lá e ela disse que se souber que o 'troço' surgiu vai babar. Então, ela tem que sair do caminho. Só que agora eu vou dizer, 25 milhões eram minha parte. Era para dividir para quatro — afirmou Lessa na entrevista.

Ele disse que sua participação no negócio envolveria 250 lotes avaliados em R$ 100 mil cada. Outros 250 lotes seriam destinados ao ex-PM Edimilson da Silva de Oliveira, o Macalé, também envolvido no crime. Segundo Lessa, outros 500 lotes seriam divididos entre Domingos e Chiquinho Brazão, irmãos e políticos condenados como mandantes dos assassinatos, e outros bicheiros que não foram identificados por ele.

Ao recordar a execução, Lessa disse que Marielle e Anderson foram as únicas pessoas inocentes que matou. O crime ocorreu em 14 de março de 2018, na Zona Norte do Rio, quando a vereadora voltava de um evento na Casa das Pretas, na Lapa. Segundo seu relato, ele e Élcio de Queiroz aguardaram a saída da parlamentar e a seguiram de carro.

— A Marielle e o Anderson foram os únicos inocentes que eu já matei. Nós chegamos à Casa das Pretas, deitamos o banco para disfarçar e aguardamos ela sair. Durante o caminho, Anderson estava correndo muito, parecia que ele tinha percebido, mas assim que emparelhamos o carro, eu disparei e o Élcio acelerou — relatou.

Depois dos disparos, Lessa e Élcio foram a um bar assistir a um jogo. Segundo Lessa, ele soube da morte de Anderson por um garçom.

Na nota, a família de Marielle também afirma que a violência política contra mulheres negras não ficou restrita ao passado. “Mulheres negras, especialmente aquelas que ocupam espaços públicos, defendem direitos e enfrentam estruturas de poder, seguem sendo alvo de violências políticas, racistas e de gênero”, afirmam os familiares.

Marielle, segundo a nota, deve ser lembrada como mulher negra, cria da Maré, mãe, defensora de direitos humanos e vereadora eleita pelo voto popular. Anderson é descrito pela família como homem trabalhador, marido e pai.

“Marielle e Anderson não são personagens”, afirma a família.

Lessa e Élcio de Queiroz foram condenados em 31 de outubro de 2024 pela execução de Marielle e Anderson. Neste ano, as penas foram ampliadas: Lessa passou a cumprir 81 anos e 10 meses de prisão, enquanto Élcio foi condenado a 76 anos e 6 meses.

Ao final da manifestação, a família afirma que continuará mobilizada pela responsabilização de todos os envolvidos e para que a memória de Marielle e Anderson não seja associada apenas à forma como morreram.

“Precisamos de respeito às suas memórias, de responsabilização de todos os envolvidos e de compromisso para que a violência que interrompeu suas vidas jamais seja banalizada ou transformada em entretenimento”, diz a nota.