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Dilemas de uma capital do petróleo: produção pujante do combustível fóssil em Macaé convive com expansão desordenada e pobreza

Cidade é uma das que mais se expandiu horizontalmente, segundo mapeamento feito pelo IBGE

Agência O Globo - 29/08/2026
Dilemas de uma capital do petróleo: produção pujante do combustível fóssil em Macaé convive com expansão desordenada e pobreza
- Foto: © Sputnik / Konstantin Mihalchevskiy / Acessar o banco de imagens

Reconhecida como a capital nacional do petróleo, com a produção de centenas de milhares de barris de óleo e milhões de metros cúbicos de gás natural por dia, Macaé, no Norte do Rio, é uma das cidades fluminenses que mais crescem horizontalmente, segundo o Mapeamento das Áreas Urbanas do Brasil, uma pesquisa do IBGE. Se, por um lado, as ofertas de emprego podem justificar esse movimento, a expansão também se tornou o retrato da pobreza no município: desordenada, precária e sem serviços elementares, como acontece no bairro Ajuda de Baixo.

Nos anos 2010, uma área cortada pela Avenida Nádia Maria ganhou um conjunto habitacional do Minha Casa, Minha Vida, instalado em meio ao verde. De 2020 para cá, segundo relato de moradores, o bairro começou a crescer em volta desses prédios. O GLOBO esteve na região nesta sexta-feira e observou muitas casas ainda no tijolo sendo erguidas, além de terrenos baldios já cercados, à espera do início de novas construções. O Bosque Azul, uma favela dentro da Ajuda de Baixo, é uma das localidades que têm recebido novos moradores, os quais convivem com a falta de saneamento básico, ruas de chão batido onde a água da chuva forma poças profundas que não escoam, lixo e entulho acumulados.

De Sergipe, o assistente de manutenção Josivan Batista dos Santos, de 36 anos, mora no Bosque Azul há dois anos, com a mulher e o filho de 4 anos.

— Há uns dois anos, essa área foi ocupada e começaram a construir muitas casas. Muitas estão sem moradores, que estão chegando aos poucos. O problema é que não temos iluminação pública suficiente nem saneamento básico. Sempre que chove, aqui alaga; ainda vivemos com infestação de mosquitos — relata. — Futuramente, não pretendo ir para um lugar melhor. Só não volto para a minha terra porque lá é muito ruim de trabalho, mas posso ir para a cidade da minha esposa, no Espírito Santo.

Ao lado do Bosque Azul, há outro sub-bairro da Ajuda de Baixo que também vem se expandindo, o Verdes Mares. Este é de classe média, marcado por sobrados mais estruturados e ruas com asfalto e calçamento. Tanto num lugar quanto no outro a expansão estimulou a chegada de serviços. Ao circular pela área, a equipe de reportagem notou a presença de estabelecimentos como barbearia, salão, mercadinho, bar e hortifrúti.

— Eu morava no Centro, num local que, a cada chuva, alagava. Surgiu esse bairro e, há dez anos, vim para cá. Atualmente, tem muitas obras por aqui. Tenho um comércio, e vejo muitos moradores novos chegando, principalmente depois da pandemia — conta Cidival Dias, de 74, dono de um hortifrúti no Verdes Mares.

Por falar alagamento, a força da água que tem sido responsável por deixar um rastro de destruição e expulsar moradores de outra localidade, a Fronteira. Moradores antigos contam que, há cerca de 30 anos, a comunidade era uma vila de pescadores, com algumas casas cercadas por arames, a praia à frente e uma área de mangue atrás. Tudo convivendo em harmonia. Agora, porém, predomina um cenário de terra arrasada devido ao avanço violento do mar.

As frequentes e potentes ressacas têm destruído casas e já expulsaram a maioria dos moradores do local. As duas mais recentes foram esta semana, com imagens da água invadindo a rua que repercutiram nas redes sociais. O GLOBO esteve na comunidade nesta sexta-feira para observar a situação e ouvir os poucos moradores que ainda resistem no local — quem tem condições foi para lugares mais seguros, assim como outros que receberam aluguel social da prefeitura.

Antes do avanço do mar, que se agravou a partir de 2024, de acordo com relatos, havia entre a praia e as casas a Avenida Beira-Mar, hoje engolida pela areia e pela água. Na tentativa de impedir que a ressaca invada o bairro, uma barreira de pedras foi instalada ao longo da costa anos atrás, solução que já não funciona mais.

O que antes era uma orla repleta de vida e movimento hoje é o retrato de uma comunidade fantasma, cheia de casas abandonadas. Muitas em ruínas; outras ainda em pé, mas em situação precária e ameaçando cair, com reboco esfarelando e desprendendo, paredes úmidas e com rachaduras e tijolos aparentes. Em geral, eram imóveis grandes, com mais de um andar e diversos cômodos, além de uns grudados aos outros.

Edna Costa, de 58 anos, mora há três em Macaé. Ela migrou de Campos, em busca de trabalho. Atualmente, vive como catadora de produtos recicláveis e sempre morou de favor na cidade. Há três meses, ela ocupa uma das casas abandonadas à beira-mar. O imóvel, tomado por areia e água esta semana, não tem energia elétrica e está em situação insalubre.

— A dona dessa casa aqui comprou outra, se mudou e me disse: "Pode ficar". Eu não tenho onde morar e aceitei. Só que a areia (o reboco) fica caindo na minha cabeça. Parece que a qualquer momento a casa toda vai cair. Na quarta-feira, quando o mar chegou aqui, eu corri para fora, e a força da água me jogou longe. Minha casa está toda encharcada. Eu limpo tudo, mas não adianta — lamenta.

Carioca, Marcos Nei Porto de Oliveira, de 58 anos, foi para Macaé há mais de 20 anos, onde havia conseguido um emprego de vigilante numa empresa prestadora de serviço para a indústria de óleo e gás. Desempregado desde 2024 e sem condições de pagar aluguel, ele mora numa casa que viu abandonada na Fronteira à época e resolveu ocupar.

— Minha casa pode cair, mas eu posso fazer o quê? Tenho que ficar em algum lugar. A situação é crítica mesmo. O mar está acabando com tudo. Muita gente está saindo, e a gente que não tem condições continua aqui, sobrevivendo — diz.

O aposentado Luíz Andrade de Paula, de 75 anos, mudou-se da Fronteira há dois meses, após receber o aluguel social. Hoje, vive num bairro próximo, o Aeroporto. Morador da região há mais de três décadas, ele conta que, quando chegou, nem água encanada havia.

— Quando cheguei aqui, quase não existia construção. Era terra de chão batido. Depois que o bairro foi crescendo. Aqui na frente tinha a Avenida Beira-Mar, que tinha um grande movimento devido à praia — lembra. — Hoje, está tudo acabado. Eu saí daqui por medo; quando eu estava deitada, minha casa tremia com a força da água, parecia que ia sair do lugar. Parecia terremoto.

Apesar de as ondas terem atingido o topo de sua residência, de três andares, o pedreiro Odilon Soares, de 38 anos, nascido e criado na Fronteira, permanece no local, para evitar que seu imóvel seja invadido, justifica. O restante de sua família se mudou recentemente.

— Antigamente, isso aqui era um bairro muito legal. Tinha os quiosques na rua principal e uma faixa de areia grande, com quadras em que jogávamos futebol. Ultimamente, a natureza está buscando o que é dela e está fazendo esse estrago na nossa comunidade. Para quem viu isso aqui desde pequenininho, é triste para quem tudo está sendo perdido. Dói o coração. — relata. — Meu maior medo é estar dormindo e minha casa desabar.

Segundo a Prefeitura de Macaé, a região da Ajuda passou, ao longo dos últimos anos, por diferentes processos de ocupação e urbanização. Entre eles, acrescenta, está a implantação de conjunto habitacional, “além de infraestrutura de esgotamento sanitário e águas pluviais, pavimentação, calçadas, iluminação pública e equipamentos comunitários”. O município informa ainda que desenvolve ações de regularização fundiária no local, com previsão de entrega de cerca de três mil títulos de propriedade.

A prefeitura garante que tem atuado para controlar as ocupações irregulares na região. "No Bosque Azul, prossegue, "o município realiza ações de identificação e selagem de imóveis, remoção e reassentamento de famílias e demolição de construções irregulares, inclusive para impedir novas ocupações ou reocupações de áreas públicas e de risco".

Quanto à comunidade Fronteira, o município afirma que a maioria dos imóveis atingidos na ocorrência desta semana já estava interditada. Ainda segundo o município, na última quarta-feira, seis novas famílias foram atendidas nas áreas mais críticas. Atualmente, 270 famílias recebem aluguel emergencial e cerca de 30 são atendidas pelo auxílio emergencial.