RJ em Foco
Favela em Macaé é engolida pelo mar; conheça a história da Fronteira, uma comunidade fantasma
Frequentes e potentes ressacas têm destruído as casas e já expulsaram a maioria dos moradores do local
Uma vila de pescadores, com algumas casas cercadas por arames, a praia à frente e uma área de mangue atrás. Tudo convivendo em harmonia. É assim que moradores antigos descrevem a comunidade Fronteira, em Macaé, no Norte Fluminense, há 30 anos. Atualmente, no entanto, predomina um cenário de terra arrasada devido ao avanço violento do mar. As frequentes e potentes ressacas têm destruído casas e já expulsado a maioria dos moradores do local. As duas mais recentes ocorreram esta semana, com imagens da água invadindo a rua que repercutiram nas redes sociais.
'Overdose de ganância':
O GLOBO esteve na comunidade nesta sexta-feira para observar a situação e ouvir os poucos moradores que ainda resistem no local — quem tem condições se mudou para lugares mais seguros, assim como outros que receberam aluguel social da prefeitura.
Antes do avanço do mar, que se agravou a partir de 2024, de acordo com relatos, havia entre a praia e as casas a Avenida Beira-Mar, hoje engolida pela areia e pela água. Na tentativa de impedir que a ressaca invadisse o bairro, uma barreira de pedras foi instalada ao longo da costa anos atrás, mas essa solução já não funciona mais.
O que antes era uma orla repleta de vida e movimento, hoje é o retrato de uma comunidade fantasma, cheia de casas abandonadas. Muitas em ruínas; outras ainda em pé, mas em situação precária e ameaçando cair, com reboco esfarelando e desprendendo, paredes úmidas, com rachaduras e tijolos aparentes. Em geral, eram imóveis grandes, com mais de um andar e diversos cômodos, além de alguns grudados uns aos outros.
Edna Costa, de 58 anos, mora há três anos em Macaé. Ela migrou de Campos em busca de trabalho. Atualmente, vive como catadora de produtos recicláveis e sempre morou de favor na cidade. Há três meses, ocupa uma das casas abandonadas à beira-mar. O imóvel, tomado por areia e água esta semana, não tem energia elétrica e está em situação insalubre.
— A dona dessa casa aqui comprou outra, se mudou e me disse: "Pode ficar". Eu não tenho onde morar e aceitei. Só que a areia (o reboco) fica caindo na minha cabeça. Parece que a qualquer momento a casa toda vai cair. Na quarta-feira, quando o mar chegou aqui, eu corri para fora, e a força da água me jogou longe. Minha casa está toda encharcada. Eu limpo tudo, mas não adianta — lamenta.
Carioca Marcos Nei Porto de Oliveira, de 58 anos, foi para Macaé há mais de 20 anos, onde conseguiu um emprego de vigilante numa empresa prestadora de serviço para a indústria de óleo e gás. Desempregado desde 2024 e sem condições de pagar aluguel, mora numa casa que viu abandonada na Fronteira à época e resolveu ocupar.
— Minha casa pode cair, mas eu posso fazer o quê? Tenho que ficar em algum lugar. A situação é crítica mesmo. O mar está acabando com tudo. Muita gente está indo embora, e a gente que não tem condições continua aqui, sobrevivendo — diz.
O aposentado Luíz Andrade de Paula, de 75 anos, mudou-se da Fronteira há dois meses, após receber o aluguel social. Hoje, vive num bairro próximo, o Aeroporto. Morador da região há mais de três décadas, ele conta que, quando chegou, nem água encanada havia.
— Quando cheguei aqui, quase não existia construção. Era terra de chão batido. Depois que o bairro foi crescendo. Aqui na frente tinha a Avenida Beira-Mar, que tinha um grande movimento devido à praia — lembra. — Hoje, está tudo acabado. Eu saí daqui por medo; quando eu estava deitada, minha casa tremia com a força da água, parecia que ia sair do lugar. Parecia terremoto.
Apesar de as ondas terem atingido o topo de sua residência de três andares, o pedreiro Odilon Soares, de 38 anos, nascido e criado na Fronteira, permanece no local para evitar que seu imóvel seja invadido, justifica. O restante de sua família se mudou recentemente.
— Antigamente, isso aqui era um bairro muito legal. Tinha os quiosques na rua principal e uma faixa de areia grande, com quadras em que jogávamos futebol. Ultimamente, a natureza está buscando o que é dela e está fazendo esse estrago na nossa comunidade. Para quem viu isso aqui desde pequenininho, é triste ver tudo sendo perdido. Dói o coração — relata. — Meu maior medo é estar dormindo e minha casa desabar.
Prefeitura diz que acompanha situação
A Prefeitura de Macaé afirma que "acompanha permanentemente a situação da Fronteira, região historicamente afetada pela erosão costeira". Acrescenta que a Defesa Civil monitora as áreas mais vulneráveis e atua de forma integrada com as secretarias de Habitação, Desenvolvimento Social e demais órgãos.
Segundo a prefeitura, a maioria dos imóveis atingidos na ocorrência desta semana já estava interditada. Ainda conforme o município, na última quarta-feira, seis novas famílias foram atendidas nas áreas mais críticas. Atualmente, 270 famílias recebem aluguel emergencial e cerca de 30 são atendidas pelo auxílio emergencial.
O município também informa que mantém o Programa de Compra Assistida, que possibilita a realocação definitiva de famílias que vivem em áreas de risco. E que "segue realizando vistorias, interdições preventivas, retirada de famílias e demais medidas necessárias".
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