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Chuva de fios: pedaços de cabos pendurados em postes caem sobre a rotina dos cariocas

Em diversos pontos do Rio de Janeiro, há fiações cortadas deixadas nas ruas que incomodam e causam acidentes com transeuntes.

Agência O Globo - 20/08/2026
Chuva de fios: pedaços de cabos pendurados em postes caem sobre a rotina dos cariocas
Chuva de fios: pedaços de cabos pendurados em postes caem sobre a rotina dos cariocas - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A cuidadora de idosos Cristiane Baptista estava a caminho de seu trabalho quando foi atingida na cabeça por um fio solto de um poste da Rua Maria Antônia, no Engenho Novo, bairro da Zona Norte do Rio. A mulher, de 51 anos, ficou com o cabo preso em seu cabelo e viveu um momento de tensão com medo de levar uma descarga elétrica; felizmente, o fio não estava energizado. Este é apenas um entre diversos acidentes e complicações ocasionados pela "chuva de fios" que caem dos postes em toda a cidade e afetam a rotina dos cariocas.

Susto em Copacabana:

Ricardo Couto:

— Eu estava descendo a Rua Maria Antônia e um fio literalmente caiu na minha cabeça, grudou no meu cabelo e foi puxando enquanto eu andava. Eu me assustei muito. O pessoal que estava passando perto me ajudou a tirar. Por sorte, o fio não estava energizado e não aconteceu nada pior — contou Cristiane.

O caso dela não é isolado, nem restrito à cidade do Rio. Um fio baixo se enrolou no pescoço do professor de matemática e influenciador Paulo Pereira enquanto ele seguia de moto com a mulher, Natália, pela Rua Fagundes Varela, no Ingá, em Niterói, nesta semana. Apesar do susto, o educador está bem e não sofreu grandes danos físicos.

Tráfico internacional:

Cristiane vive no Engenho Novo e denuncia que o bairro todo está tomado por pedaços de fios caídos em todos os cantos, o que é verdade. O GLOBO percorreu cinco ruas da região e, em todas, foi possível observar uma vasta quantidade de cabos cortados, pendurados em postes, em fiações maiores ou até jogados no chão. Muitos desses fragmentos estão em pontos de grande movimentação de pessoas, como portas de estabelecimentos, rente a mesas de bares e em cima de carros que estavam sendo reparados em oficinas mecânicas.

Cansados da convivência com a indesejada chuva de cobre, alguns vizinhos até se colocam em risco para retirar os pedaços de cabos da rua. Fátima Carvalho costuma passear com sua cadela pelas principais ruas do Méier e não se aguentou ao ver um emaranhado de fios soltos no chão na Rua Dias da Cruz. A motorista de 63 anos pegou a fiação com as próprias mãos e amarrou no poste do qual derivavam, o que não é recomendado por especialistas.

— Tem vários sinais desativados por aqui e nos bairros próximos porque os funcionários da Light vêm, consertam, e no dia seguinte alguém vai e rouba o fio. Eu acho que deveria haver uma fiscalização noturna — afirma Fátima, que também observa a grande incidência de furto de cabos na região, o que é um dos principais motivos para que haja tantos fios picados.

Golpe da fé:

O incômodo com os cabos caídos também é sentido por moradores e comerciantes da região central do Rio. Aos 88 anos, Antônio Ribeiro, que tem dificuldades para andar, acaba se apoiando em alguns postes ao transitar pela calçada. Para atravessar a Rua Washington Luís, na Lapa, na manhã de quarta-feira, ele se escorou em um deles, que estava repleto de fios caídos a poucos metros de seu braço, colocando-o em risco. A sensação de perigo próxima às fiações soltas também é sentida em Santa Teresa, que fica a poucos metros dali.

— Eu fico insegura de andar perto desses fios, tenho medo de levar um choque e me acidentar — conta Mariana Silva, agente de saúde de 40 anos, que mora no bairro do tradicional bondinho.

Prisão na Zona Norte:

Além do medo de ferimentos, a possibilidade de os fios causarem danos materiais também acende um alerta. O geógrafo Hugo Costa vive em Olaria e presenciou uma cena no bairro que o assustou:

— Uma cordoalha de aço se enrolou na roda traseira de um Jeep Renegade e rasgou a lataria do carro há alguns meses. O que mais tem na região são fios caídos pelas ruas. Roubam, deixam o resto largado e ninguém organiza — denunciou o educador.

Leonardo Aversa:

Para a apuração desta matéria, O GLOBO esteve em diversas ruas do Centro, de Santa Teresa, da Glória, do Catete, de Botafogo, da Tijuca, de Vila Isabel, do Engenho Novo e do Méier. Em todos esses locais, foram avistados pedaços de fios soltos de postes, com exceção de ruas onde a fiação é subterrânea. Nos bairros da Zona Norte visitados, onde a situação é mais crítica, o espaço entre um cabo caído e outro é de poucos metros em quase todas as localidades. Além disso, a reportagem recebeu relatos de fios jogados em postes de Marechal Hermes, Ramos, Olaria, também da Zona Norte, e em Jacarepaguá, na Zona Sudoeste.