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Rio teve desde 2020 mais de 300 processos contra falsos médicos

Prisão de falso médico que atendia criança com câncer acende alerta para brechas na fiscalização

Agência O Globo - 14/08/2026
Rio teve desde 2020 mais de 300 processos contra falsos médicos
Rio teve desde 2020 mais de 300 processos contra falsos médicos - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

A prisão do falso médico Diogo dos Santos Serpa , de 42 anos, há uma semana, em Nova Iguaçu, na Baixada Fluminense, descortina lacunas de controle e fiscalização que permitem o exercício ilegal da Medicina e expõe os pacientes a riscos. O caso chama atenção para a dificuldade de identificar profissionais que atuam sem registro ou com documentação irregular e levanta questionamentos sobre os mecanismos adotados por empresas, órgãos públicos e entidades de classe para impedir que pessoas sem formação ou habilitação trabalhem como médicos.

R$ 4,5 milhões:

Um levantamento com dados do Conselho Nacional de Justiça aponta que, de 2020 até junho de 2026, 2.428 casos de exercício ilegal da medicina e de ciências odontológicas e farmacêuticas chegaram ao Judiciário. Só no Estado do Rio, nesse período, foram 302 processos — o número se aproxima dos 324 episódios acumulados no mesmo espaço de tempo em São Paulo, que tem população quase três vezes maior.

Registro com outro nome

Antes de ser pego pela polícia, Diogo Serpa, que usava um registro com o nome de Jefferson Sampaio , visitou coleções de algumas vezes pacientes com quadros de túmulos de saúde. Cintia Santos Matheus , de 36 anos, relata que contratou uma empresa de home care vinculada à Unimed, a Health+ Cuidados , à qual o suposto especialista em CTI pediátrico estava vinculado. A mãe de uma menina sofreu no ano passado com um tumor cerebral começou a desconfiar do falso médico quando viu as dificuldades dele durante os atendimentos: não sabia manipular equipamentos e não tinha segurança ao receitar remédios.

— Vi minha filha ficar doente, busquei denunciar e ninguém acreditou em mim. Meu medo é que outras crianças sofram danos como ela. Ele usou nome falso, visitou minha casa várias vezes, viu minha filha piorar e só sabia cobrar mais dinheiro — diz Cintia, mãe de Maria Eduarda Matheus , de 10 anos, expressa com um tumor cerebral maligno em abril de 2025.

A criança tinha passado por uma sequência de cirurgias e procedimentos e, já em tratamento domiciliário, recebeu a visita de Diogo Serpa. Ele foi detido por policiais da 63ª DP (Japeri) durante um atendimento. No momento da prisão, usava crachá e receituário em nome de um profissional de saúde.

A polícia afirma que Diogo acompanhava a menina desde outubro do ano passado. Foram identificados pelo menos seis atendimentos, pelos quais ele cobrava entre R$ 700 e R$ 1 mil por visita. Nesse período, ainda segundo a investigação, ele prescreveu medicamentos, exames solícitos e fez encaminhamentos em nome de outro médico.

Além da criança, Diogo foi negligente com outra vítima: um homem de 71 anos com doença de Parkinson, hidrocefalia e autismo. A denúncia foi registrada na mesma delegacia que determinou a detenção do falsário.

Ao GLOBO , a Unimed Nova Iguaçu disse que “a contratação, a seleção e a conferência da documentação dos profissionais vinculados às prestadas são de responsabilidade exclusiva das empresas terceirizadas, nos termos da relação contratual estabelecida entre as pessoas jurídicas”. A empresa ressalta que “não manteve qualquer contato com o médico investigado, Diogo dos Santos Serpa, nem com o Dr. Jefferson”, e que “uma equipe multidisciplinar está avaliando os pacientes atendidos pela prestada, com prioridade absoluta à segurança e à assistência aos beneficiários.”

Por nota, a Health+ Cuidados afirmou: “Ratificamos que o nome conhecido por nós é Jefferson Targino Sampaio, profissionalmente documentado, com a sua inscrição ativa e validada no CRM, conforme verificação da documentação apresentada.”

Falsos cirurgiões na mira

Há uma semana, o hospital do Grupo de Saúde Celita Toledo , na Rua Soares Cabral, antiga Clínica Ênio Serra, em Laranjeiras, foi vistoriado por agentes da Polícia Civil, pelo Cremerj e pela Vigilância Sanitária. Há a suspeita de que médicos estrangeiros, ainda alunos de cursos de pós-graduação em outros países, realizaram procedimentos cirúrgicos nas unidades do grupo sem a autorização devida para o exercício da medicina no Brasil. Ainda há a possibilidade de fazer intervenções estéticas em pacientes.

Uma investigação está em andamento na Delegacia do Consumidor (Decon), da Polícia Civil, a cargo do delegado titular Wellington Vieira . Anteontem, a 13ª denúncia envolvendo as três clínicas do grupo chegou à unidade policial.

— O cerne da investigação é sobre a atuação de médicos e residentes em um espaço fora do ambiente acadêmico. Destes casos de complicações, duas mortes foram confirmadas. Então, são muitas falhas. A atuação desse residente pode ser um fator complicador — diz Vieira.

'São Cívicos'

Por parte do Cremerj , será feita uma análise da legalidade dos registros, a cargo de uma equipe de fiscalização com novos médicos e novos agentes administrativos.

— Os falsos médicos são criminosos. Orientamos tanto os médicos que têm dados fraudados quanto a população que se julga atendida por um falso médico que denunciou ao Cremerj e imediatamente à polícia — diz Renata Lima , vice-presidente do Cremerj e diretora do departamento de fiscalização. — É muito importante também que as empresas verifiquem os dados dos contratados. Na página do Conselho, há uma foto do profissional e os registros.

Em maio deste ano, o Conselho Federal de Medicina também disponibilizou um serviço para denúncias. Na Plataforma Medicina, os médicos podem denunciar profissionais de ilegalidade. Desde então, foram feitos 16 registros.

Os altos números de denúncias do Rio que viraram processos no CNJ relacionados ao “exercício ilegal da medicina, da arte dentária e da farmacêutica” nos seis últimos anos jogaram luz sobre a facilidade de atuação dos falsos profissionais em território fluminense. Quem investiga o problema de perto aponta, entre outras hipóteses, a dificuldade de fiscalização em contratos com terceiros e até a alta demanda por especialistas de determinadas áreas, como as de cirurgia e estética. Leandro Pereira , diretor do Departamento dos Serviços Credenciados (DESC) da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP) e representante da entidade no Rio, diz:

— É claro que aspectos geográficos e de densidade populacional aumentam o percentual de crimes. Esses fatos ocorrem em todo o país. Há alguns anos, esse problema foi retratado nas cidades fronteiriças do Norte, onde se fez uma coleta precisa de pacientes que cruzavam a fronteira em busca de procedimentos estéticos de baixo custo. Talvez o Rio, por ser uma cidade litorânea, com maior estética exposição corporal e famosa por ter reunido o ilustrador plástico Ivo Pitanguy , torne-se um atrativo direcionado para aqueles que querem este “marketing” em troca de dinheiro do incauto.