RJ em Foco
Inocentes na linha de tiro: menino de 6 anos é ferido por estilhaços e fonoaudióloga é vítima de bala perdida dentro de ônibus
Ocorrências aconteceram na Zona Norte, transformando a rotina de cariocas em desespero
No caminho do trabalho, por volta das 7h, uma fonoaudióloga foi baleada no pescoço dentro de um ônibus que passava por Vicente de Carvalho. No Complexo da Maré, a 12 quilômetros dali, um pai, para proteger os filhos dos tiros, os fizeram deitar no asfalto enquanto os levavam para a escola. No mesmo dia de ontem, uma criança de 6 anos, que brincava na varanda de casa, acabou ferida por estiletes de um projeto na Favela do Metrô, no bairro da Mangueira. Nos três episódios na Zona Norte, a violência urbana transformou a rotina dos cariocas em momentos de desespero.
Criança é ferida durante operação policial
Cerca de 20 passageiros estavam dentro do ônibus da linha 629 (Irajá—Saens Peña) quando pelo menos um tiro estilhaçou uma janela do veículo e atingiu Aline de Siqueira Affonso, de 53 anos. Em meio ao pânico, as pessoas desceram e procuraram abrigo em um colégio, onde se deitaram no chão para escapar de balas perdidas. Só Aline ficou. Com o motorista em estado de choque, um policial militar herdeiro do coletivo e levou a vítima para o Hospital Estadual Getúlio Vargas, na Penha, onde foi submetido a uma cirurgia de quatro horas e meia. Ela está no Centro de Tratamento Intensivo com um quadro de saúde grave — a bala lesionada na coluna vertebral.
Confronto com ocer
De acordo com a Polícia Militar, agentes do 41º BPM (Irajá) fizeram policiamento nas proximidades da Comunidade do Trem, que se espalhou pela Vila Kosmos e Vicente de Carvalho, quando foram atacados a tiros e houve confronto. O ônibus em que a vítima estava passando pela Avenida Meriti, em frente à favela dominada pelo Comando Vermelho. O tiroteio provocado ainda correria na passarela do metrô de Vicente de Carvalho. Moradora da Vila da Penha, Aline trabalha na Casa de Saúde São José, no Humaitá, e não tem filhos. No hospital, está sendo acompanhado por duas tias.
Também foi uma operação, mas da Polícia Civil, que deixou outro ferido inocente. Estilhaços de um projeto atingiram o rosto de um menino de 6 anos na Favela do Metrô, no bairro da Mangueira. Com uma lesão perto de um dos olhos, a criança foi levada ao Hospital Municipal Jesus, em Vila Isabel, e especial para o Hospital Municipal Souza Aguiar, no Centro. No fim da tarde, ele continuou internado em observação.
Logo após a criança ser socorrida, moradores fizeram um protesto em que pontos da Rua São Francisco Xavier e da Avenida Rei Pelé foram interditados. A manifestação teve barricadas feitas com pneus e caçambas de lixo, que foram incendiadas. Dois ônibus tiveram as chaves roubadas e foram atravessados na pista. O tiroteio e a ocorrência da comunidade assustaram os usuários de trem e do metrô — as linhas passam nos fundos da favela — e quem estuda e trabalha na Uerj, cujo campus fica em frente. Os alunos foram orientados a ficar em sala até a situação ser controlada, o que aconteceu por volta das 14h.
Sobre a operação, a Polícia Civil informou que agentes da Delegacia de Roubos e Furtos (DRF) foram atacados por traficantes do Morro da Mangueira, que ficam bem em frente, e que não houve revide. Manifestantes, no entanto, dizem que os policiais fizeram disparos em direção à favela.
A ação tinha como alvo um ferro-velho que, de acordo com as investigações, é comandado pelo tráfico e recebe material furtado na Tijuca, no Grajaú e em Vila Isabel. Nenhum estabelecimento foram encontrados cabos de cobre de empresas de telefonia, já cortados e queimados, para esconder a origem dos produtos. A administradora do negócio foi presa.
Uma terceira operação policial deixou uma família na linha de tiro. No momento em que policiais militares chegaram ao Conjunto Esperança, na Maré, um homem de 37 anos e os dois filhos — uma menina de 6 anos e um menino de 4, que dormiam no carro — entraram em pânico com o tiroteio. O pai retirou as crianças do veículo e as fez deitar na rua. Um vídeo registrou os momentos de desespero.
— Sai pegando eles de qualquer jeito. Ficamos abaixados. Depois um rapaz me ajudou a atravessar a rua — conto o pai, que faz transporte escolar e nesta quarta não trabalhou.
'Não é uma coisa normal'
Segundo ele, os três ficaram abrigados na Avenida Brasil, perto de uma antiga garagem de ônibus. As crianças ficaram muito abaladas:
— Meus dois filhos eram tremendos. Não é uma coisa normal. Nós, adultos, de uma certa forma, até entendemos. Mas as crianças, não.
Em seu perfil no X, um PM informou que a operação na Maré foi feita pelo 22º BPM para o reposicionamento de blocos de concreto — as camisas — em vias de acesso ao conjunto de favelas, usados para dificultar a entrada de trens de carga e de veículos roubados.
Por causa da operação, 36 escolas da rede municipal no Complexo da Maré suspenderam as aulas. Duas unidades de Atenção Primária da região também não funcionaram, como informou a Secretaria Municipal de Saúde. Outros dois postos na região, segundo a pasta, atenderam os pacientes, mas cancelaram as visitas domiciliares.
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