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Ela não sabia que estava baleada: policiais militares detalham resgate de fonoaudióloga atingida no pescoço

A vítima foi atingida enquanto estava no ônibus 629 (Irajá x Saens Peña), a caminho do seu trabalho; o sargento Jhonathan Vessados assumiu a direção do veículo para levá-la ao Hospital Getúlio Vargas.

Agência O Globo - 13/08/2026

"Tem gente baleada!", gritaram as pessoas para os policiais militares, enquanto saíam em disparada na Avenida Meriti, em Vicente de Carvalho, na Zona Norte do Rio. Um ônibus da Linha 629 (Irajá x Saens Peña) havia acabado de ficar na linha de tiro em um confronto entre traficantes da Favela do Trem e PMs do 41º BPM (Irajá). Eram 7h desta quarta-feira e, deitada no chão do veículo, estava a fonoaudióloga Aline. Em meia hora, ela estaria no Hospital estadual Getúlio Vargas, na Penha, levada não em uma ambulância ou viatura da PM, mas no próprio coletivo, conduzido por um dos policiais. A ação rápida dos agentes e o fato de um deles saber dirigir aquele tipo de veículo permitiram que Aline chegasse com vida ao hospital, onde passou por quatro horas e meia de cirurgia e está internada em estado grave.

Quando os PMs, que estavam em patrulhamento na área, chegaram ao ônibus, os passageiros já haviam se abrigado em uma escola particular. No veículo, só estava a fonoaudióloga. Ela, porém, nem havia notado que havia sido ferida, explica o 2º sargento Elimar das Chagas, um dos policiais envolvidos no socorro.

— Ela não sabia que estava baleada. Ela falou que sentiu que estava machucada e perguntou para a gente o que estava acontecendo. O tempo todo, ela perguntava: "É grave?". E eu disse: "Não é grave, foi só um arranhão". Falei que a dor era da queda, que era normal, que ela sentir dor era um sinal positivo, não falei para ela que ela foi baleada para não se desesperar — relata o sargento Chagas, que comandou os primeiros socorros de Siqueira com o auxílio dos policiais Antonio Câmara e Gilfábio Nogueira.

Com um sangramento intenso no ferimento, o policial explica que precisava socorrer Aline quanto antes.

— Ela estava com um sangramento massivo, muito forte, e o salvamento dela era primordial. Então fiz uma manobra de preenchimento de ferida com curativo compressivo. Ela chegou ao quadro de choque, apagou duas vezes, mas fizemos manobras de reanimação. E, graças a Deus, deu certo, mas foi um socorro bem crítico — explica o sargento Chagas. — Não tinha espaço, ela estava praticamente embaixo do banco do ônibus. Eu não sabia se havia alguma lesão na coluna, então também não podia tirá-la dali. Os procedimentos possíveis eram sair com ela no ônibus ou esperar a chegada dos bombeiros.

Os três agentes mantiveram a fonoaudióloga consciente enquanto aguardavam a chegada dos bombeiros. Foi a chegada de outro PM, o sargento Jhonathan Vessados, que mudou o rumo do salvamento. Apesar do curativo e do amparo dos militares, ela continuava a perder muito sangue. O motorista do ônibus, em choque, não tinha condições de dirigir. O sargento Jhonathan decidiu assumir a direção do veículo e levá-lo para o hospital.

— O Jhonathan tem habilitação na categoria D, que permite dirigir ônibus. O motorista tinha saído desesperado (com o tiroteio) e deixou a chave na ignição. O Jhonathan falou: "A única possibilidade que a gente tem é conduzir o ônibus para o hospital". Depois, o motorista até agradeceu e o elogiou — diz o cabo Alexandre Souza, que comandou a abertura do trânsito para o veículo poder chegar rapidamente à unidade de saúde.

Jhonathan tirou a carteira de motorista para a condução de ônibus e vans a partir de um curso de extensão da Polícia Militar, mas não utiliza a habilitação no dia a dia: sua atividade é o patrulhamento de rua, em viaturas regulares. Em 13 anos como policial militar, ele já havia dirigido veículos de grande porte em serviços internos da corporação, mas nunca numa situação tão crítica.

— Tenho mais experiência com van, dirigi pouco ônibus, mas, na hora ali da situação, deu para relembrar tudo, veio na cabeça rápido. E a única alternativa que a gente tinha era pegar o ônibus. O motorista estava passando mal, reclamando que estava com muita dor de cabeça e não conseguia se situar no espaço. Ele olhava fixamente à frente e sem esboçar outro tipo de reação a não ser falar que estava passando mal. Seria irresponsabilidade deixá-lo assumir a direção, ele poderia travar e entrar em estado de choque no volante, causando outra ocorrência — explica Jhonathan.

Viaturas e motos da Polícia Militar foram solicitadas para abrir o caminho e permitir que o ônibus chegasse rapidamente ao hospital. Com o reforço dos automóveis que estavam à sua frente com sirenes ligadas, o sargento Jhonathan seguiu da Avenida Meriti até a Avenida Brás de Pina, entrou na calha do BRT e cobriu os três quilômetros até o Getúlio Vargas em cinco minutos. Às 7h34, a fonoaudióloga deu entrada na emergência.

Com uma cruz de São Francisco de Assis pendurada em sua farda, o sargento é religioso e costuma pedir auxílio espiritual em momentos críticos de seu trabalho, que demandam que decisões rápidas e assertivas, como a de assumir a direção do ônibus, precisam ser tomadas. Também devoto de São Jorge, ele recorreu aos santos e orou junto dos demais agentes no veículo para que Aline chegasse com vida ao hospital. Eles relataram que rezar com a vítima foi uma das maneiras que encontraram de mantê-la calma e consciente.

— Mais uma vez, eu me certifiquei de que Deus existe com essa ocorrência. Quando a gente chegou lá, a médica falou que nunca tinha visto uma vítima em um estado tão grave igual aquele, falando e lúcida — afirma o sargento Chagas.

Segundo o boletim médico, a bala atingiu a região cervical, transfixando o pescoço e causando lesões na coluna vertebral. Aline passou por uma cirurgia de cerca de quatro horas e meia na tarde de quarta-feira. Ela saiu do centro cirúrgico intubada e foi para o Centro de Terapia Intensiva (CTI).

Moradora da Vila da Penha, a vítima trabalha como fonoaudióloga na Casa de Saúde São José, no Humaitá. Ela não tem filhos. Duas tias da vítima estão no hospital, mas a família não quis falar com a imprensa.