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Vivi para contar: 'Uma sequência de violência, só porque eu era a pessoa mais fraca', relata influenciadora agredida por homem na Lapa

Ela denunciou na polícia ter sido agredida por um homem com socos no rosto. Seu supercílio se abriu. O caso foi registrado na 5ª DP (Lapa)

Agência O Globo - 12/08/2026
Vivi para contar: 'Uma sequência de violência, só porque eu era a pessoa mais fraca', relata influenciadora agredida por homem na Lapa
Vivi para contar: 'Uma sequência de violência, só porque eu era a pessoa mais fraca', relata influenciadora agredida por homem na Lapa - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Dois socos, puxão de cabelo, empurrão. Após agressões em uma casa de shows, falta de acolhimento na delegacia. Na noite que deveria ser de samba entre amigos na Lapa, no centro do Rio, a escritora e influenciadora Carla Lemos , criadora da página Modices , vivenciou episódios traumáticos. Ela denunciou à polícia ter sido agredida por um homem com socos no rosto e, como resultado, seu supercílio se abriu. O caso foi registrado na 5ª DP (Lapa) .

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Investigação:

O relato

“Minha amiga me foi convidada para ir ao samba. Fazia tempo que eu não consegui ir a uma roda, e essa era especial: o lançamento do audiovisual do Samba Independente dos Bons Costumes . A roda do SIBC acontece na Fundição Progresso , que frequento desde a adolescência, onde já fui a shows sozinho. Um lugar onde sempre me senti seguro, principalmente pela política da casa contra namoro. Era para ser só mais uma quinta-feira feliz.

Entrei com dois amigos. Em certo momento, fui ao banheiro. Quando voltei, dois homens tinham surgido. Um de camisa bege tombava sobre todo o mundo, comportamento típico de quem está bêbado, e outro trocava ameaças com quem estava em volta.

Eu disse: “Agora tem espaço livre aqui na frente, dá dois passinhos porque você está caindo em cima de mim”. Ele foi.

No palco, o samba foi interrompido para uma mulher fazer o alerta de toda quinta-feira: não toleramos assédio, nenhum tipo de violência contra a mulher. Nisso, os dois amigos cambaleantes vieram, e o mais forte deles, o de camisa bege — um rapaz branco e jovem — jogou bebida em todos ao redor. Do lugar onde eu estava, avistei os dois discutindo com outra pessoa e, em seguida, retornando.

A partir daí, só lembro de violência. O de camisa bege me dá um empurrão de um lado, depois um soco na maçã do rosto, que doeu bastante, e, na sequência, um soco na testa. Sigo me traindo defensor. Percebo o samba parando e as pessoas se juntando ao meu redor. Ouço a cantora no palco dizendo: “Estão agredindo uma mulher, ela está sangrando”. Homens se juntaram e tiraram o agressor de cima de mim, conseguindo me afastar. Quando olho para minha mão, toda ensanguentada, percebo que essa mulher sou eu. Vou para perto do palco, olho para minha camiseta e vejo uma mancha de sangue vermelho vivo. Levo a mão à testa, quente, tentando achar a fonte do sangue. Olho para minha amiga e críticas: “tá muito ruim?” A expressão dela, aterrorizada, confirma que sim.

Fui enviado para o ambulatório. Logo o agressor de camisa bege chega também. Começo então a entender. Ele só parou quando mais de cinco homens o tiraram de cima de mim, e só conseguiu pará-lo depois que a cantora avisou que havia uma mulher sangrando.

Uma sequência de violência só porque eu era a pessoa mais briga, a menor que esse homem escolheu quando voltou ao local onde o ameaçaram. Ele não bateu no homem mais alto e forte que discutiu com ele. Ele concentrou a violência em mim. Talvez eu imagine que estivéssemos todos juntos, não sei. Sei que o foco estava em mim, uma mulher que não tinha a palavra a ele. Ele puxava minhas tranças e socava, segundos relatos de quem viu a cena do chão e do palco.

Deboche e desdém

No ambulatório, ele fala ao telefone e trata a situação com deboche e desdém. Tente ir embora, mas as seguranças ou impeçam. Querem me levar ao hospital, mas eu digo que só irei quando a polícia chegar para levá-lo. A polícia chega. Eu digo que quero ir primeiro para a delegacia, para que o delegado veja meu estado. Chegando lá, descobri que não há mais delegados na delegacia. Eles agora atuam remotamente. Vou então para o Hospital Souza Aguiar , junto com o agressor e seu amigo. Levei seis pontos no supercílio.

Na sala de espera, o amigo do agressor ficou nos rondando, e minhas amigas me protegeram. Voltamos para a delegacia e, enquanto eu esperava para dar depoimento, o agressor passou e mandou beijinho — na frente dos policiais que estavam lá, presenciando tudo, e que não puderam fazer nada.

Aqui vemos a outra violência: quem decide se alguém fica preso em flagrante muitas vezes nem está na delegacia. O delegado avalia remotamente, com base em documentos digitalizados que os policiais mandam pelo sistema. Foi minha advogada quem falou por telefone com a delegada de plantão — ela decidiu meu caso sem nunca ter visto meu rosto pessoalmente, sem ter visto o agressor debochando dentro da delegacia. Os policiais que estavam lá não tinham autonomia para agir diferente. Minha advogada, ao perguntar por telefone à delegada se aquilo não configurava violência de gênero e ao relatar o menosprezo pela minha condição de mulher, ouvi que não havia elementos suficientes.

Mesmo com os depoimentos e o laudo do hospital, ele não foi preso em flagrante. Foi liberado. Você pode bater em uma mulher até ela sangrar e sair livremente. Voltar para sua casa em São Paulo, para o cargo sênior em uma grande empresa. Um homem branco, com endereço fixo, emprego estável — o retrato de quem o sistema tende a proteger primeiro.

Isso aconteceu na madrugada do dia em que a Lei Maria da Penha completou 20 anos. As autoridades afirmaram que ele não ficou preso com justiça porque meu caso não se enquadra na lei, já que eu nunca vi nem falei com o agressor antes na vida. Coincidentemente, nessa semana o STF está julgando se a lei deve ser ampliada para casos como o meu: quando um desconhecido completo resolver descontar a raiva nele numa mulher que ele nem conhece, só porque pode. Isso é misoginia em sua forma mais pura. E precisa ser tipificado como tal.”

*Em depoimento a Thayná Rodrigues .