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Cacique Cobra Coral: conheça a história da fundação que renovou acordo com a prefeitura por 25 anos

Fundada na década de 1960, instituição afirma unir mediunidade e ciência para interferir em fenômenos naturais

Agência O Globo - 10/08/2026
Cacique Cobra Coral: conheça a história da fundação que renovou acordo com a prefeitura por 25 anos
Cacique Cobra Coral: conheça a história da fundação que renovou acordo com a prefeitura por 25 anos - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Quem é do Rio de Janeiro conhece ou, pelo menos, já ouviu falar da Fundação Cacique Cobra Coral. Fundada em 1931 por Ângelo Scritori, a instituição foi criada para “intervir nos desequilíbrios provocados pelo homem na natureza”, segundo o site da própria Fundação. Para a Prefeitura do Rio, a atuação da entidade é levada a sério. Após o vendaval que atingiu a cidade no último mês, que deixou pessoas sem luz por até dois dias e causou a morte de dois homens, o GEO-RIO — Instituto de Geotécnica do Município do Rio de Janeiro — anunciou um Acordo de Cooperação com a Fundação Cacique Cobra Coral, válido pelos próximos 25 anos.

A internet repercutiu o acordo. Na semana passada, após alertas de novos vendavais na cidade, que não foram tão intensos como previstos, diversos memes atribuíram a "calmaria" à atuação da fundação, que estava "fora de cena" durante o fenômeno anterior que atingiu o Rio.

Mas, afinal, o que é a Fundação Cacique Cobra Coral? Por que órgãos públicos e autoridades começaram a firmar acordos com a entidade? E como ela se mantém financeiramente?

Profecia durante geada no Paraná

Tudo teria começado em uma noite no norte do Paraná, há 95 anos. Era 1954, e a mulher de Ângelo Scritori entrou em trabalho de parto. Do lado de fora da residência, a região era tomada por uma forte geada, que destruiu a plantação de café da família.

Nessa noite, Ângelo — que é médium — diz que o espírito de Padre Cícero se manifestou por meio dele.

O espírito teria dito que Adelaide, a mais nova integrante da família, conseguiria se comunicar com um espírito “poderoso o suficiente para alterar fenômenos naturais”. Ela afirma que, aos sete anos, recebeu a primeira mensagem enviada pelo Cacique Cobra Coral, espírito que já teria sido Galileu Galilei e Abraham Lincoln.

A Fundação, então, teria sido fundada por Ângelo alguns anos depois, com Adelaide como sua presidente.

Mediunidade e ciência unidas

A Fundação não depende apenas da mediunidade de Adelaide. A instituição também emprega o professor e meteorologista Luiz Fernando Matos como meteorologista-chefe da FCCC.

Em entrevista à revista TRIP, em 2007, Adelaide corroborou a união: “Todas as nossas operações são monitoradas e estudadas cientificamente. Procuramos unir ciência e espiritualidade, nenhum tomando o lugar do outro. Agimos naquilo que o homem não tem condições de atuar”.

Naquele ano, ela previu que, em 20 anos — ou seja, no ano seguinte — a Terra começaria a passar por uma nova era do gelo, consequência do degelo das calotas polares e da destruição da floresta amazônica.

Acordos com municípios e ministérios

A FCCC começou a tomar a forma que tem hoje — fazendo acordos com políticos, celebridades e festivais de música — na década de 1980, após Adelaide se casar com Osmar Santos, atual porta-voz da Fundação.

Já em 1985, o governo de Santa Catarina, por meio do Diário Oficial, anunciou um convênio com a instituição. Entre as condições para o “controle da natureza” estava “a prática do bem em todas as manifestações de amor ao próximo”. A FCCC também se reservava a aceitar ou não cada caso “sem necessidade de justificar seu ato”.

O que se seguiu, ao longo dos anos, foi uma sequência de acordos firmados com prefeituras, principalmente nas gestões de Cesar Maia e Eduardo Paes no Rio de Janeiro, para grandes eventos da cidade, notadamente o Réveillon.

Em 2021, o Ministério de Minas e Energia soltou uma nota afirmando que também teve um encontro com a Fundação, mas que ele teria sido solicitado por Osmar Santos. A requisição, afirmava o Ministério, tinha como alerta o tema "Blecaute no Centro Sul a partir de 16/10/21 se medidas urgentes não forem adotadas".

Roberto Medina, responsável pelo Rock in Rio, também é apontado como apoiador da Fundação, empregando os trabalhos de Adelaide em seus festivais até fora do Brasil, como o Rock in Rio Lisboa.

Tunikito Corporation: a mantenedora da Fundação

A FCCC, no entanto, não cobra pelos seus trabalhos. A dúvida que resta é: como a Fundação consegue arcar com os custos? A pista começa nos acordos firmados com as prefeituras.

Em um convênio firmado em 2005 pela Prefeitura do Rio com a FCC, é possível ver que o acordo foi estabelecido por meio de uma empresa chamada “La Nina Meteorology Atmosphere and Ocean LTDA.” — nome fantasia Tunikito Corporation.

Ela pertence a Osmar Santos, marido de Adelaide, que também é dono da “Arani Tempo e Vento Prestação de Serviços Meteorológicos” (Corporacao Arani) e da “El Nino Administração e Participação” (Empresas Tunikito).

Todas elas são ligadas, principalmente, à Osmar & Tunikito Corretora de Seguros, descrita pela FCCC como “mantenedora oficial da Fundação”. A empresa comercializa seguros de automóveis, empresariais, residenciais, de vida e de responsabilidade civil.

Acredita-se que os acordos e convênios firmados entre a Fundação e prefeituras sirvam como uma forma de “propaganda” gratuita para a Tunikito, fundada em 1990 e autodescrita como “sinônimo de confiança no mercado de seguros”.

Serviços internacionais

Além dos acordos firmados com prefeituras do Brasil, a Fundação Cacique Cobra Coral já ofereceu seus serviços a autoridades estrangeiras.

Em 1987, por exemplo, a Fundação ofereceu seus serviços à primeira-ministra britânica Margaret Thatcher. Ela nunca respondeu.

Os serviços também foram oferecidos a Saddam Hussein, ex-presidente iraquiano. Ele chegou a responder, mas negou a ajuda — a FCCC teria realizado sua “Operação Bagdá” de qualquer maneira.

Paulo Coelho como vice-presidente

Em agosto de 2003, a Fundação anunciou que o escritor Paulo Coelho assumiu a vice-presidência da Fundação Cacique Cobra Coral. Segundo o anúncio oficial, Coelho seria responsável por estabelecer contatos entre a Fundação e autoridades da Europa.

Na época, a Europa passava por uma onda de calor sem precedentes, o que resultou em incêndios florestais. Essa seria a primeira missão do “mago”: levar a chuva ao “continente castigado”.