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Sequência de acidentes com helicópteros no Rio acende alerta sobre fiscalização e controle do espaço aéreo
Especialista aponta aumento de frequência e gravidade das ocorrências e defende revisão do gerenciamento de riscos na cidade
A queda de um helicóptero turístico na Vista Chinesa, na Zona Sul do Rio, neste sábado, levantou, mais uma vez, um alerta sobre o cenário de risco entre especialistas do setor. Quatro pessoas morreram, entre elas, um piloto brasileiro e três turistas colombianas. Este foi o quinto acidente aéreo com vítimas fatais no estado Rio de Janeiro.
Segundo o engenheiro Gerardo Portela, doutor em Gerenciamento de Riscos e Segurança pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a sequência de voos com problemas e acidentes é um fator técnico que indica vulnerabilidade e deve ser considerado pelos órgãos de fiscalização e controle do espaço aéreo.
— Há dois fatores, a frequência e a severidade, que indicam quando um risco ultrapassa o limite do aceitável. Estamos testemunhando um aumento na severidade, com acidentes que resultam em vítimas fatais, e uma frequência maior de ocorrências em um intervalo de tempo mais curto. Com isso, a exposição ao risco para as pessoas que utilizam voos, especialmente aeronaves de asas rotativas, que são os helicópteros, é elevada — alerta o engenheiro.
Portela acrescenta que na região onde a incidência de acidentes tem sido maior, parte da coordenação dos voos de helicópteros é feita pelos próprios pilotos, que precisam se comunicar seguindo certos regramentos. Isso, segundo ele, pode ser realizado, mas talvez não seja viável com a quantidade de tráfego aéreo atual.
— Se houve um aumento considerável de tráfego aéreo, não seria o momento de avaliar a necessidade de ter um controle mais rigoroso desse espaço aéreo, com maior suporte de torres de controle, em vez de sobrecarregar os pilotos com essa responsabilidade? É possível operar com segurança da forma como está agora? Há muitas aeronaves e empresas a serem fiscalizadas, e muitos voos em execução, o que certamente contribui para aumentar a frequência e a severidade dos acidentes — questiona o especialista.
O modelo do helicóptero
Segundo o registro da Anac, a aeronave envolvida era um helicóptero do modelo Robinson 44, que estava em situação normal e possuía certificado de aeronavegabilidade válido até 5 de junho de 2027. A aeronave, de operação privada, estava autorizada a realizar voos panorâmicos. Na imagem, o helicóptero aparece com a identificação visual da empresa VRP — Voos Rio Panorâmico.
Portela explica que o modelo é um dos mais vendidos no mundo, apresenta baixo custo operacional e é considerado seguro, desde que utilizado dentro dos limites operacionais. O modelo possui um único motor a pistão, que contém mais peças do que um motor a turbina e, sob a perspectiva da engenharia mecânica, tem maior propensão a falhas. Por ser monomotor, não possui uma alternativa em caso de necessidade de troca.
— Isso não denigre o modelo Robinson 44. Apenas indica que este helicóptero possui limitações que precisam ser respeitadas. A fiscalização deve ser muito rigorosa, verificando se a manutenção está em dia, se a companhia aérea é idônea e se o piloto está devidamente treinado e em condições de saúde, uma vez que é um piloto apenas à frente da aeronave. Todas as condições técnicas devem ser consideradas, pois, diante de uma falha, a aeronave tem limitações claras — afirma Portela.
Ele ressalta que não apenas o passageiro e o piloto estão sob risco, mas toda a população que está sob as rotas dos helicópteros.
— Todos estamos expostos a esse risco. É claro, na minha visão, que a ANAC deve revisar os conceitos atuais de controle do espaço aéreo e, principalmente, de fiscalização sobre helicópteros, pilotos e as companhias que oferecem esse tipo de serviço — acrescenta Portela.
O acidente
A decolagem ocorreu a partir do Aeroporto de Jacarepaguá. Após a queda, o helicóptero foi localizado em uma área de mata na Vista Chinesa por uma equipe do Grupamento de Operações Aéreas do Corpo de Bombeiros, que combateu as chamas. As vítimas são o piloto da aeronave Alessandro Rocha e três turistas colombianas: Rocio Cubillos, Sofia Murillo e Wendy Manrique.
Alessandro tinha 20 anos de experiência como instrutor de ultraleves e helicópteros. Nas redes sociais, se apresentava como comandante e destacava sua experiência de duas décadas na aviação. Casado e pai de dois filhos, ele frequentemente mencionava a família e a fé em seu perfil. O piloto foi batizado na Igreja de Nova Vida de Olaria, na Zona Norte do Rio, e se descrevia em seu perfil como “temente a Deus”.
As turistas eram de uma mesma família de seis colombianos que chegaram ao Rio na última segunda-feira e planejavam ficar até a próxima terça. Elas contrataram um pacote turístico para um sobrevoo pela cidade com o valor de R$ 4,4 mil, mas se dividiram na hora do passeio. A família veio ao Rio para comemorar o aniversário de 15 anos de uma sobrinha de Victor, que estava no segundo grupo e embarcaria no retorno da aeronave.
O prefeito Eduardo Cavaliere esteve no local do acidente e declarou ter cobrado uma posição da Agência Nacional de Aviação Civil (ANAC). Ele mencionou a possibilidade de suspensão dos voos panorâmicos na cidade.
— Isso não pode ser considerado normal. Fiz questão de ligar para o presidente da ANAC e encaminhamos imediatamente um comunicado da Prefeitura do Rio para que sejam tomadas providências em relação aos voos na cidade. A ANAC precisa se posicionar. Isso pode incluir a suspensão dos voos panorâmicos por uma semana, duas semanas ou pelo período necessário para a realização de uma fiscalização mais intensa nos helipontos, nas aeronaves e na manutenção — disse.
Em nota, a ANAC informou que as causas do acidente serão analisadas pelo Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos (Cenipa), responsável pela investigação, e que está em contato com a prefeitura do Rio para uma atuação conjunta na fiscalização, especialmente de voos panorâmicos.
O que diz a associação
Em nota, a Associação dos Operadores Turísticos de Helicópteros do Rio (Aotherj), da qual a empresa Voos Rio Panorâmico faz parte, afirmou que a apuração das causas cabe às autoridades competentes, como CENIPA e ANAC, e que não é responsável por investigar acidentes ou fiscalizar os procedimentos de segurança das empresas associadas.
A atuação da entidade, segundo a nota, é promover medidas de mitigação dos impactos sonoros de operações aéreas e aprimorar as boas práticas operacionais. A Aotherj também lamentou o acidente, expressou solidariedade às famílias das vítimas e se disponibilizou a colaborar com as investigações.
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