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'A mudança não pode ser abstrata': arquiteto colombiano referência em Medellín visita o Rio para projeto inovador na Maré

Em exclusiva ao GLOBO, Edgar Mazo compartilhou expectativas em relação às transformações conquistadas por meio do urbanismo social, premissa de seus projetos

Agência O Globo - 04/08/2026
'A mudança não pode ser abstrata': arquiteto colombiano referência em Medellín visita o Rio para projeto inovador na Maré
'A mudança não pode ser abstrata': arquiteto colombiano referência em Medellín visita o Rio para projeto inovador na Maré - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Edgar Mazo visitou o Complexo da Maré nos dias 20 e 21 de julho. Depois, seguiu para a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde participou como convidado em mesas sobre urbanismo social. Formado em arquitetura pela Universidade Nacional da Colômbia e mestre em Processos Urbanos e Ambientais pela Universidade Eafit, é conhecido pelos projetos especiais que relacionam, de forma digna, paisagem e cultura, prática que será base de projeto urbanístico na Rua Sargento Silva Nunes, na Nova Holanda. Ao GLOBO, ele deu uma entrevista exclusiva, na qual abordou expectativas em relação à intervenção urbana na Maré, estendendo-se, também, ao Rio de Janeiro.

Nascida duas vezes:

Moradores do Complexo da Maré

A iniciativa de transformação dessa rua surgiu mais ou menos em abril, quando representantes da Redes da Maré , do Instituto Manu e do Insper — parceiros num programa de bolsas de estudo a alunos de áreas vulneráveis ​​— resolveram dar vida a trabalhos de conclusão do curso de Urbanismo Social do Insper, feitos por jovens da Maré. Em comum, eles davam protagonismo às ruas do complexo, composto por 16 comunidades, apontando a necessidade de tornar as mais dignas e acessíveis. Ou, nas palavras de Edgar, mais espontâneas à “convivência”. Acompanhe uma entrevista.

O urbanismo social valoriza as riquezas locais na elaboração de projetos específicos. Quais riquezas foram identificadas na Maré?

— Vimos ruas com muitas possibilidades de transformação a partir de pequenas ações locais. Foi surpreendente, por exemplo, encontrar mesas e cadeiras nas ruas, pequenos jardins junto às entradas das casas. Isso nos mostrou como a atitude das pessoas transforma de maneira particular o lugar e como o somatório de muitas ações gera impacto. Há muitos sonhos escondidos ali, então, quando começamos a conversar e a ver, as possibilidades de mudança surgem.

É muito comum ouvirmos pessoas dizerem que o Rio de Janeiro não tem mais jeito, principalmente considerando o contexto da criminalidade. Como você consegue manter o otimismo em relação às mudanças vendo, por exemplo, dinâmicas violentas coexistindo com outras mazelas sociais por aqui?

— Eu penso que é próprio da nossa natureza, do nosso trabalho e da nossa atitude no mundo imaginário o melhor, que pode haver mudanças e ir criando possibilidades dignas para as pessoas. Então, me toque para identificar ali (na Maré) nosso contexto de origem (de violência). Eu vi, sim, criminalidade, armas na favela, mas vi muito mais pessoas trabalhando, crianças, homens e mulheres que vivem ali e não são desse sistema. Penso que as pessoas que escolheram esse caminho (do crime) o fizeram acreditar que era o melhor. Se conseguirmos transformar os lugares, novas alternativas surgem para os moradores, e as ações de mudança aparecem naturalmente como parte desse movimento.

Como você imagina a transformação das ruas na Maré? Por onde começaria?

— Eu escolheria uma rua pequena e faria um acordo com todos que vivem ali. Diria que ali não dois carros, não duas armas, não há consumo de drogas e construiria um jardim. Na metade dele, colocaria umas mesas, cadeiras, uma cozinha aberta. Não precisa ser um grande plano. Imagine também aulas acontecendo nesse espaço, pessoas parando para conversar, cuidando do jardim, da rua. E nada de mal aconteceria ali, seria como a origem de uma nova cidade. Um lugar sagrado.

E você acordou qual seria esse lugar? Alguma rua chamou sua atenção?

— Na verdade, não. Muitas ruas são interessantes. Eu me centraria em apenas uma, num pedacinho dela para ser específico. Espero que esteja perto ou tenha paciência em relação com um dos lugares construídos pela Redes da Maré , mas também gostei de outros. Por exemplo, a que tem um campo de futebol. É bonito, tem muitas possibilidades.

No workshop, você e Sebastian comentaram sobre a importância do apoio governamental para as mudanças em Medellín. Disseram que, por mais que não seja tudo perfeito, funciona. Como, aqui no Rio, projetos como esses têm continuidade apesar das mudanças de governo?

— Eu acho que não tem que esperar o Estado. Ele está ausente de muitas maneiras nesses lugares. Então, na verdade, falta realmente entendermos que o projeto é de (e para) moradores que vivem todos os dias em condições confortáveis. O segredo é a auto-organização, o trabalho pelo lugar em que vivemos e entendemos que, unidas, as comunidades têm grandes poderes de transformação. Precisamos assumir essa responsabilidade, não deixar que a mudança seja abstrata. Temos que agir como sujeitos.