RJ em Foco
Rua na Maré será protagonista de projeto urbanístico com apoio de arquiteto colombiano referência em Medellín
Representantes da Redes da Maré, do Instituto Manu e do Insper se reuniram a Edgar Mazo para ouvir moradores e iniciar a intervenção na Rua Sargento Silva Nunes.
O primeiro passo é um detalhe: escolher uma rua e, num pedacinho dela, construir um jardim comunitário . Não pode faltar mesas, cadeiras, nem uma cozinha pública. É para que todos os moradores convivam ali, apropriando-se do lugar. Não será permitida a entrada de armas ou drogas. Carros e motos também não podem circular. O espaço é sagrado . Edgar Mazo faz uma pausa. Seus olhos e braços agitados expressam a empolgação do sonho. Arquiteto colombiano reconhecido por projetos em Medellín, ele fala respeitosamente sobre a Nova Holanda, onde esteve por dois dias em julho, a convite de representantes da Redes da Maré, do Instituto Manu e do Insper. Juntas, essas três instituições planejam um projeto piloto: transformar, por meio do urbanismo social , na Rua Sargento Silva Nunes.
Nascida duas vezes:
Moradores do Complexo da Maré
Surgiu em abril, quando as organizações — parceiras num programa de bolsas de estudo para alunos de áreas vulneráveis — planejaram dar vida aos trabalhos de conclusão do curso de Urbanismo Social do Insper, elaborados por jovens da Maré. Em comum, os projetos dão protagonismo às ruas do complexo, composto por 16 comunidades, evidenciando a necessidade de torná-las mais dignas e acessíveis. Ou, nas palavras de Edgar, mais espontâneas à “convivência”.
Nos dias em que caminhou pela Nova Holanda, o arquiteto conheceu prédios da Redes, almoçou no polo gastronômico do Parque União, comunidade vizinha, e atendeu as urgências dos moradores. Muito da cultura mareense lembra Medellín, registra ele, principalmente a vida das ruas, com comércios e serviços, mas também as mazelas: falta de saneamento, forte ocupação, insegurança, construções irregulares, fios embaralhados em postes — cenas que pertencem ao passado da cidade colombiana. Porém, a resiliência , tão cara aos moradores de ambos os lugares, é o impulso para a mudança que está sendo arquitetada, garante.
— Essas realidades são consequências da iniquidade que existe nas comunidades do Rio, do Brasil, de Medellín, do mundo. Contudo, há um forte engajamento das pessoas, principalmente dos moradores, em transformar esses lugares — afirma.
A escolha da Rua Sargento Silva Nunes não foi por acaso. Ela é a que concentra edifícios da Redes, como a sede e a biblioteca. Nela, há restaurantes, barbearias, salões de beleza, lojas de roupas e roupas para casa. Nos fundos, sentido Baía de Guanabara, encontram-se quadras de futebol, uma escola pública e o 22º BPM. Edgar viu toda a possibilidade para o sonho.
— Me surpreendeu muito uma cozinheira que esperaria memórias sobre o pai. Ela falou da importância, para eles, de mesas na rua. Eu não esperava isso, porque todos estávamos focados na necessidade de árvores, e quando ela falou isso, eu imediatamente comecei a imaginar essas mesas, alimentos sobre elas, pessoas convivendo ali. Foi uma imagem muito evocadora — conta.
O sonho das crianças do Complexo da Maré:
No primeiro dia na Nova Holanda, Edgar administrou um workshop junto ao também arquiteto — e colombiano — Juan Sebastian Bustamonte, coordenador do Núcleo Arquitetura e Cidade do Insper. Amigos de Medellín, os dois compartilham os mesmos princípios em relação ao urbanismo social e à transformação da Maré. Para Sebastian, o projeto ideal seria interligar, inicialmente, todas as ruas dos prédios das Redes, aumentando a conexão dos programas oferecidos pela ONG aos equipamentos públicos existentes, como escolas e quadras.
— Para mim, é muito importante refletir: “Para quem são as ruas?”. Na Maré, elas são para circulação de veículos. Não existem espaços públicos de convivência. E eles são fundamentais e, principalmente, se considerarmos que as casas são pequenas e apertadas. Então, existe uma necessidade da rua. Em Medellín, hoje, as favelas contam com os melhores projetos, os mais bonitos. E tem que ser assim mesmo. As favelas devem ter os melhores equipamentos públicos, os melhores transportes, programas de educação, de emprego, de empreendimentos e de esportes. É um tema urgente.
O otimismo dos arquitetos se mantém mesmo ao comentar sobre a presença do crime organizado no complexo. Uma atualização em Medellín, cidade que já foi considerada a mais perigosa do mundo entre as décadas de 1980 e 1990, ensinou que o cuidado com as ruas, juntamente com a melhoria nas condições de vida de seus moradores, excluiu os grupos criminosos.
— Eu e Edgar pertencemos a uma sociedade muito resiliente e, por isso, acreditamos na mudança, ainda mais daquelas que parecem impossíveis. Acredito que temos capacidade de fazer uma inovação em governança. É bom que o governo esteja presente nesse processo, mas se não estiver, podemos fazer de outra forma. Hoje, o mundo todo está pensando em uma governança colaborativa, onde o setor privado, universidades e coalizões territoriais (como as Redes da Maré) lideram processos de mudança.
O projeto na Maré, contudo, ainda não tem dados de finalização: é algo para médio prazo e, como explica a Redes, está em fase inicial de escuta dos moradores (a mais importante, destaque). Após essa etapa, estão agendadas conversas com representantes da prefeitura e instituições parceiras que realizam serviços nas comunidades.
“Não podemos deixar que a mudança seja abstrata”
Edgar Mazo visitou o Complexo da Maré nos dias 20 e 21 de julho. Depois, seguiu para a Festa Literária Internacional de Paraty (FLIP), onde participou como convidado em mesas sobre urbanismo social. Formado em arquitetura pela Universidade Nacional da Colômbia e mestre em Processos Urbanos e Ambientais pela Universidade Eafit, é conhecido pelos projetos especiais que relacionam, de forma digna, paisagem e cultura. Ao GLOBO , ele deu uma entrevista exclusiva, na qual abordou expectativas em relação à intervenção urbana na Maré, estendendo-se também ao Rio de Janeiro.
O urbanismo social valoriza as riquezas locais na elaboração de projetos específicos. Quais riquezas foram identificadas na Maré?
— Vimos ruas com muitas possibilidades de transformação a partir de pequenas ações locais. Foi surpreendente, por exemplo, encontrar mesas e cadeiras nas ruas, pequenos jardins junto às entradas das casas. Isso nos mostrou como a atitude das pessoas transforma de maneira particular o lugar e como o somatório de muitas ações gera impacto. Há muitos sonhos escondidos ali. Então, quando começamos a conversar e a ver, surgem possibilidades de mudança.
É muito comum ouvirmos pessoas dizerem que o Rio de Janeiro não tem mais jeito, principalmente considerando o contexto da criminalidade. Como você consegue manter o otimismo em relação às mudanças, apesar das dinâmicas violentas coexistirem com outras mazelas sociais por aqui?
— Eu penso que é próprio da nossa natureza, do nosso trabalho e da nossa atitude no mundo imaginário o melhor, que pode haver mudanças e ir criando possibilidades dignas para as pessoas. Assim, eu toca identificar ali (na Maré) nosso contexto de origem (de violência). Eu vi, sim, criminalidade, armas na favela, mas vi muito mais pessoas trabalhando, crianças, homens e mulheres que vivem ali e não fazem parte desse sistema. Acredito que as pessoas que escolheram o caminho da criminalidade o fizeram acreditar que era o melhor. Se conseguirmos transformar os lugares, novas alternativas surgem para os moradores e as ações de mudança aparecem naturalmente como parte desse movimento.
Como você imagina a transformação das ruas na Maré? Por onde começaria?
— Eu escolheria uma rua pequena e faria um acordo com todos que vivem ali. Diria que ali não dois carros, não duas armas, não há consumo de drogas e construiria um jardim. No meio dele, colocaria mesas, cadeiras, uma cozinha aberta. Não precisa ser um grande plano. Imagine também aulas acontecendo nesse espaço, pessoas parando para conversar, cuidando do jardim, da rua. E nada de mal aconteceria ali, seria como o início de uma nova cidade. Um lugar sagrado .
Você acordou qual seria esse lugar? Alguma rua chamou sua atenção?
— Na verdade, não. Muitas ruas são interessantes. Eu me centraria em apenas uma, num pedacinho dela para ser específico. Espero que esteja perto ou tenha paciência em relação com um dos lugares construídos pela Redes da Maré, mas também gostei de outras. Por exemplo, a que tem um campo de futebol. É bonito e possui muitas possibilidades.
No workshop, você e Sebastian comentaram sobre a importância do apoio governamental para as mudanças em Medellín. Disseram que, por mais que não seja tudo perfeito, funciona. Como viabilizar, aqui no Rio, projetos como esse para ter continuidade apesar das mudanças de governo?
— Eu acho que não devemos esperar pelo Estado. Ele está ausente de muitas maneiras nesses lugares. Assim, é verdade que falta realmente entendermos que o projeto é de (e para) os moradores que vivem todos os dias em condições confortáveis. O segredo é a auto-organização, o trabalho pelo lugar onde vivemos e entendemos que, unidos, as comunidades têm grandes poderes de transformação. Precisamos assumir essa responsabilidade, não deixar que a mudança seja abstrata. Temos que agir como sujeitos.
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