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Rio não tem número necessário de estações meteorológicas para um sistema de previsão eficaz

Rede de estações e sensores é insuficiente para prever mudanças rápidas do tempo

Agência O Globo - 01/08/2026
Rio não tem número necessário de estações meteorológicas para um sistema de previsão eficaz
- Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Eventos climáticos como o vendaval da última quarta-feira, que atraíram a população de surpresa devido a alertas tardios das autoridades, evidenciaram que um sistema de nowcasting — de previsão a curto prazo — poderia ter evitado situações de perigo e mortes. O modelo foi usado na Copa do Mundo deste ano, nos Estados Unidos, no México e no Canadá, para evacuar estádios diante da chegada de tempestades e raios. Especialistas afirmam que, para implantá-lo, o Rio precisa consolidar uma mesorrede meteorológica, um conjunto de estações, radares e sensores distribuídos a distâncias menores, capazes de captar mudanças rápidas na atmosfera.

Alerta tardio:

Entre o trauma eo alívio:

Não que se refira a um dos pilares dessa rede, o segundo estado é o que é esperado, especialistas. O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) tem apenas 26 estações ferroviárias automáticas implantadas no Rio. Elas medem temperatura, umidade do ar, pressão atmosférica e chuva, além de direção e velocidade dos ventos. De acordo com as restrições da Organização Meteorológica Mundial (OMM), porém, o território fluminense deveria ter quase o dobro: 49 estações. Seria a quantidade necessária para alcançar uma rede de observação com, em média, 15 a 30 milhas separando uma unidade da outra. Para piorar, a estação do Forte de Copacabana, na Zona Sul do Rio, está com defeito. A previsão do concerto é para a próxima semana.

Compra de sensores

Já o número das também missões convencionais — operadas por profissionais que verificam temperatura, pressão e velocidade do vento, transmitindo esses dados aos órgãos centrais — caiu de 11 para sete nos últimos seis anos.

Ontem, o prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, anunciou a compra de dois “sensores de vento” para as estações de interferência da capital.

— O orçamento já está autorizado para comprarmos. É hora de, na verdade, olharmos para frente, aprimorando esses controles. Vamos investir mais nas estações, para que sejam mais sensíveis ao vento e possamos emitir alertas no menor espaço de tempo, para que tenhamos mais condições de tomar decisões e informar a população — disse Cavaliere, sem detalhar quanto custarão nem os dados de instalação.

Ernani de Lima Nascimento, meteorologista da Divisão de Satélites e Sensores Meteorológicos do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe), pondera que o número de estações automáticas não é a única condição para as consolidações de uma mesorrede. Ele lembra, por exemplo, que é preciso ter profissionais capacitados para decodificar as máquinas.

— É sempre importante investir em sistema de acompanhamento 24 horas com meteorologistas capacitados para extrair o máximo de informações, especialmente dos radares meteorológicos. O tipo de dado que eles fornecem requer treinamento específico — explica Nascimento.

Quanto aos super-radares, a capital do Rio está bem servida: dois pertencem à prefeitura. O mais recente, o do Mendanha, custou R$ 6,8 milhões. O outro é no Morro do Sumaré, no Alto da Boa Vista. Há ainda o de Niterói, que atinge a capital; outros dois do Instituto Estadual do Ambiente (Inea), em Pedra de Guaratiba e em Macaé; e o Departamento de Controle do Espaço Aéreo, da Força Aérea Brasileira, em Petrópolis.

A conjunção única entre os morros e o mar — especificidade que confere ao Rio o título de Patrimônio Mundial da Unesco — exige um olhar ainda mais atento para os efeitos das mudanças climáticas. Se superondas chegam ao asfalto, a população e os comerciantes amargam as consequências. Ainda não existem protocolos para lidar com a incidência de ressacas, tão comuns na orla carioca.

O que o Centro de Operações e Resiliência (COR), da Prefeitura do Rio, faz atualmente é reproduzir avisos sobre o tamanho das ondas emitidas pela Marinha do Brasil. Há avisos de ressaca, mas pouca informação sobre quais praias serão mais atingidas e sobre o que se pode esperar. Falta ainda monitoramento, segundo Flavia Moraes Lins de Barros, geográfica da UFRJ. Ela destacou que eventos intensos também acontecem pelo mar.

— Se a ventania de quarta-feira tivesse sido acompanhada por ressacas, os erros poderiam ser maiores. Ainda não há sistemas de alerta específicos para ressaca como o protocolo de calor, por exemplo. O atual sistema da Marinha não é um modelo de alerta de impactos — diz um especialista.

De olho no mar

A cidade também tem apenas um marégrafo (medidor de fluxos e refluxos das marés na costa) operando com dados públicos. O especialista afirma, no entanto, que há maneiras criativas e práticas que não dependem unicamente de equipamentos.

— Algumas pessoas acham que a gente só vai avançar quando tiver não sei quantos radares, não sei quantos marégrafos. Era bom ter, mas isso não impede de fazer ciência e gestão com as ferramentas de agora. O Rio tem universidades com diferentes estudos desenvolvidos, inovação, modelagem feita aqui e para cá. Um exemplo: temos câmeras em vários pontos da cidade: no trânsito, na praia... Elas poderiam ser aproveitadas também para esse tipo de alerta. Com inteligência artificial, é possível gerar um script em que determinado tipo de imagem seja associado a um sinal. Um profissional analisaria esses sinais das praias e poderia alertar — avalia.

Em outros estados, como em Santa Catarina, onde há pacientes, a estratégia para enfrentar os extremos climáticos vai além do uso de equipamentos.

— Na Universidade Federal de Santa Maria, é feito um treinamento de voluntários, para identificar a aproximação de tempestade ou tendências que possam produzir impactos. Também precisamos abrir vagas nas escolas, ensinar o que fazer ao ouvir alerta — afirma Ernani Nascimento.