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Ventos de até 111 km/h atingem a Costa Verde antes de alerta da Defesa Civil

Meteorologistas independentes sinalizaram sobre ventos fortes seis horas antes da Defesa Civil

Agência O Globo - 30/07/2026
Ventos de até 111 km/h atingem a Costa Verde antes de alerta da Defesa Civil
Ventos - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

O vendaval que atingiu o Rio na tarde de quarta-feira pegou milhares de pessoas de surpresa e deixou um rastro de destruição. Diante da intensidade do fenômeno, uma pergunta mobiliza especialistas e autoridades: por que a população não recebeu um alerta mais contundente antes da chegada dos ventos? A dúvida ganha força porque, cerca de seis horas antes, meteorologistas independentes já acompanhavam o avanço do sistema pelo litoral de São Paulo e alertavam, em vídeos publicados nas redes sociais, que as rajadas seguiriam em direção ao estado do Rio. Apesar disso, a Defesa Civil enviou mensagens apenas às 16h43 para celulares cadastrados, cerca de duas horas após os ventos chegarem na Baía da Ilha Grande e em Angra dos Reis, municípios da Costa Verde, segundo especialistas e registros feitos por moradores.

A cronologia entre São Paulo e Rio mostra que os sinais existiam antes da chegada do vendaval. Às 10h da quarta-feira, o capitão Guilherme Kodja, especialista em inteligência náutica com 35 anos de experiência no mar e mais de 70 mil seguidores nas redes sociais, publicou um vídeo alertando que os modelos meteorológicos já indicavam a possibilidade de ventos intensos.

Segundo Kodja, a previsão vinha sendo acompanhada havia dois dias, principalmente pelo modelo europeu ECMWF, considerado mais preciso para a região. No vídeo, ele mostra a projeção da linha de vento avançando pelo litoral paulista e alerta que, entre 16h e 17h, o sistema chegaria à região da Baía da Ilha Grande e de Angra dos Reis, municípios da Costa Verde.

Pouco tempo depois, às 12h35, quando os ventos já atingiam o litoral de São Paulo, o meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif, com mais de 100 mil seguidores no Instagram, reforçou o que já havia alertado. Segundo ele, rajadas superiores a 100 km/h já eram registradas em Itanhaém e começavam a atingir Santos. Ao analisar as imagens meteorológicas, o especialista explica que a linha de cisalhamento avançaria pelo litoral paulista e seguiria em direção ao Rio de Janeiro.

"Vai avançar, subir o litoral de São Paulo, chegar até o Rio de Janeiro com ventos muito fortes. Talvez não esses 100 km/h, mas ventanias que derrubam algumas estruturas, interrompem o fornecimento de energia e podem derrubar placas. Então, é perigoso. Nas próximas horas vai varrer o litoral de São Paulo e o litoral do Rio com ventos muito fortes. Fica o alerta", afirmou o doutor em meteorologia.

Com base nas medições acompanhadas em tempo real, Dolif reconstituiu o deslocamento da linha de cisalhamento até a capital fluminense.

Entenda a cronologia do vento até o Rio

A partir de dados observados em tempo real, o meteorologista Giovanni Dolif reconstituiu o deslocamento da linha de cisalhamento entre São Paulo e o Rio. A cronologia mostra o avanço da ventania ao longo da tarde.

12h23 – Itanhaém (SP) - Primeiras rajadas extremas são registradas, chegando a 106 km/h. Duas horas antes, Kodja publica vídeo alertando para a possibilidade de ventos fortes e orienta cuidados na navegação.

12h35 - O meteorologista Giovanni Dolif faz alerta para o Rio.

13h45 – Ilhabela (SP) - O sistema avança rapidamente pelo litoral norte paulista, com rajadas de até 96 km/h.

15h – Baía da Ilha Grande e Angra dos Reis (RJ) - A linha de ventos chega ao litoral sul fluminense com rajadas que atingem 111 km/h.

15h30 – O Centro Estadual de Monitoramento e Alerta de Desastres Naturais (Cemaden) emite boletim válido até as 7h30 do dia seguinte, alertando para mudança do tempo em praticamente todo o estado.

16h30 – Zona Sul do Rio - com rajadas de 74 km/h.

16h43 – A Defesa Civil envia mensagens de alerta para celulares cadastrados.

Por volta das 16h50 – O vendaval atinge a cidade do Rio.

17h – Galeão (Rio) - As rajadas alcançam 106 km/h, já durante o vendaval que atingia a cidade.

O meteorologista e doutor em Meteorologia Giovanni Dolif afirma que a intensidade exata do vendaval que atingiu o Rio era difícil de prever, mas diz que o avanço do sistema já vinha sendo monitorado ao longo da semana e que profissionais habituados a interpretar esse tipo de fenômeno conseguiam identificar um risco elevado para o litoral fluminense. Segundo ele, os modelos meteorológicos não projetavam rajadas superiores a 100 km/h para o Rio porque eventos desse tipo envolvem uma linha de cisalhamento — uma faixa de ventos intensos formada pelo avanço rápido de uma massa de ar frio e mais densa sobre uma massa de ar quente.

— É um vento mais desafiador de prever. É como se fosse um sopro que sai do Sul do país. Esse pulso de ar frio avança muito rápido e faz a frente fria chegar com muito mais força. Foi um evento associado à linha de cisalhamento, que exige uma interpretação muito cuidadosa dos modelos e das observações em tempo real. Os modelos costumam subestimar esse tipo de fenômeno. Pela experiência de quem trabalha com o mar, a gente sabe que essas previsões acabam não mostrando toda a potência do evento — explica Dolif.

O prefeito Eduardo Paes afirmou que o Rio conta com 11 estações de monitoramento das condições meteorológicas, sendo três da própria prefeitura e as demais operadas por órgãos como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) e a Aeronáutica, em razão dos aeroportos. Ele disse que o vendaval desta quarta-feira surpreendeu até os meteorologistas e que, por isso, não foi emitido Alerta Extremo.

"São órgãos diferentes, com estações diferentes, e é a partir dessas informações que tomamos as decisões aqui no Centro de Operações e acionamos os protocolos. Ontem, esses órgãos emitiram um alerta para ventos moderados e fortes, com previsão de rajadas de até 60 ou 70 km/h. O que tivemos, no entanto, foi um verdadeiro vendaval, com ventos acima de 100 km/h, que surpreendeu inclusive os meteorologistas e não correspondia ao que havia sido indicado pelas estações. Por essa razão, não emitimos um alerta extremo", disse à TV Globo.