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Vendaval turbinado que atingiu o Rio e São Paulo é a 'ponta do dedo do longo braço' do El Niño; entenda

Frente de rajada se desprendeu da tempestade no Sul e avançou para o Sudeste; meteorologista afirma que fenômeno é raro de acontecer no inverno porque a estação é seca e não costuma ter umidade suficiente para alimentar as tempestades das quais derivam os ventos.

Agência O Globo - 30/07/2026
Vendaval turbinado que atingiu o Rio e São Paulo é a 'ponta do dedo do longo braço' do El Niño; entenda
Vendaval turbinado que atingiu o Rio e São Paulo é a 'ponta do dedo do longo braço' do El Niño; entenda - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Os fortes ventos que atingiram os estados de São Paulo e Rio de Janeiro eram a vanguarda de um sistema de tempestades, o mesmo que afetou no fim de semana o Rio Grande do Sul. A meteorologia chama esse tipo de aparência de frente de rajada , um vendaval turbinado . Ele é raro no inverno e pode ser considerado um sinal de influência do El Niño no clima da América do Sul. É como a ponta do dedo do longo braço do El Niño.

Ventania no Rio:

Vídeo:

Isto porque o El Niño está associado à frente fria estacionária que gerou as fortes chuvas no Rio Grande do Sul, afirma o meteorologista Marcelo Seluchi , coordenador de operação do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Tempestades em cadeia

E foi essas tempestades do Sul que se desprendeu uma linha de instabilidade, uma faixa contínua de nuvens de tormentas, alinhadas lado a lado como soldados em marcha. A frente de rajada, por sua vez, deriva da linha de instabilidade. É a frente dela e avança mais depressa ainda.

As fortes chuvas no Sul, na faixa de 300 mm em cinco dias , estão relacionadas com o El Niño, segundo Seluchi. O El Niño mudou e aumentou os ventos na América do Sul. Resultado disso, por exemplo, é a frente estacionária que passou dias fazendo chover no Rio Grande do Sul.

Em São Paulo:

— Se já está chovendo tanto em julho, que é um mês seco, o que vai acontecer na primavera, quando o El Niño fica mais intenso? Não sabemos, mas não parece estar começando bem — acrescenta Seluchi.

Dos Andes ao Brasil

O El Niño tem braços longos, capazes de atravessar a América do Sul. Ele se caracteriza pelo aquecimento do Oceano Pacífico Equatorial. A água mais quente evapora, aquece a atmosfera e muda o padrão de ventos em boa parte do planeta. O El Niño altera os jatos, os poderosos canais de vento que viajam nos altos níveis da atmosfera.

Com isso, influencia os ventos pelo continente sul-americano e a distribuição da umidade. O El Niño aumenta a diferença de temperatura entre o equador (quente) e o pólo (frio). Dessa forma, leva a ventos mais poderosos — o vento é o ar em movimento em função da diferença de temperatura.

Morte de bebê:

Nos últimos dias, ao mesmo tempo que chovia muito no Rio Grande do Sul, também houve nevascas violentas nos Andes e chuvas fortes no Chile. A ocorrência dessas combinações é uma característica do El Niño.

Velocidade de monumento

Como uma linha contínua de ventos intensos, a frente de rajada atravessou o Sul, São Paulo e chegou ao Rio de Janeiro. Ela se desloca mais depressa que as tempestades e que as frentes frias.

A frente veio avançando com ventos poderosos. No interior de São Paulo, rajadas de 124,9 km/h superaram a velocidade mínima de furacões ( 119 km/h ). Só não causaram maiores estragos porque, diferentemente de furacões, tratam-se de rajadas, de pulsos de ventos muito fortes e não de ventania contínua, de potencial ainda mais destrutivo. No Rio, o vento alcançou 81 km/h .

Seluchi observa que, por serem menores que as frentes frias, as frentes de rajada são difíceis de prever com precisão porque nenhum modelo é reproduzido bem.

Havia previsão de vento forte, mas a intensidade e os locais mais afetados são difíceis de precisar com antecedência. As frentes de rajadas são como detalhes de uma situação maior, no caso, a frente fria.

Raras no inverno

Essas frentes de rajadas são mais difíceis de se formar no inverno porque a estação é a mais seca e não costuma ter umidade suficiente para alimentar as tempestades das quais derivam os ventos. Sinal de tempestade de falta de umidade é que as pessoas já estão “murchando” no Sudeste.

O professor de meteorologia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) Wallace Menezes explica que não há previsão de chuva significativa pela passagem dessa frente e o tempo deve voltar a abrir no fim de semana.

Porém, quando as frentes de rajada se formam no inverno, costumam ser mais violentas. Uma frente de rajada pode chegar a mais de 100 quilômetros de extensão e literalmente varre seu caminho. Cientistas salientam, no entanto, que não há previsão de reprodução do específico ou de que se tornará mais frequente.