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Relíquias da Leopoldina: projeto mapeia locais e histórias da região

O recorte inclui Maré, Complexo do Alemão, Complexo da Penha e outros territórios.

Agência O Globo - 26/07/2026
Relíquias da Leopoldina: projeto mapeia locais e histórias da região
Relíquias da Leopoldina: projeto mapeia locais e histórias da região - Foto: Nano Banana (Google Imagen)

Em Manguinhos, Dona Celeste Estrela, de 85 anos, é escritora, atriz, cantora e uma referência cultural da comunidade. No Complexo da Penha, o projeto Passinho Carioca e o Baile da Gaiola ganharam fama internacional. Já Brás de Pina, considerada a primeira favela urbanizada da América Latina, preserva espaços que testemunham a mobilização pioneira de seus moradores pelo desenvolvimento urbano local desde os anos 1960.

Esses são alguns dos personagens, manifestações culturais e lugares reunidos pelo Corpo Morada, iniciativa do Observatório de Favelas em parceria com o Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). O projeto, que chega à terceira edição, oferece formação em educação patrimonial para moradores das periferias, aliando pesquisa, reconhecimento e inventário dos patrimônios locais.

O trabalho percorreu um conjunto de territórios da Zona Norte, historicamente conhecido como Zona da Leopoldina, região marcada por intensa produção cultural e por sua importância na formação urbana do Rio. O recorte inclui Maré, Complexo do Alemão, Complexo da Penha, Manguinhos, Brás de Pina, Cidade Alta, Kelson's/Marcílio Dias e áreas de Ramos.

— A Leopoldina tem um valor histórico muito importante na formação do Rio de Janeiro. Essa memória começa nos sambaquis, passa pelos tupinambás, pelos quilombolas, pela ocupação da Baía de Guanabara e pelas primeiras favelas — afirma Lino Teixeira, coordenador-geral da pesquisa e do Eixo de Políticas Urbanas do Observatório de Favelas.

Cerca de 20 moradores da Leopoldina, entre ativistas, pesquisadores e estudantes, foram selecionados para participar da formação, realizada em parceria com a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Ao longo do curso, eles mapearam aquilo que consideram memória e patrimônio em seus territórios.

O resultado é o e-book “Corpo Morada – Inventários e Educação Patrimonial nas Favelas da Leopoldina”, uma coletânea dos tesouros das comunidades da região. Moradora da Maré e mestranda em Cultura e Territorialidade pela UFF, Maiara Viana, de 30 anos, não foi aprovada na primeira seleção, mas insistiu até conseguir uma vaga.

— No meu estudo eu pesquiso a relação entre corpo e território, entendendo o corpo como o primeiro lugar de apreensão do mundo. Quando vi o projeto Corpo Morada, pensei: “faz muito sentido para mim”. Conheci muita coisa de outras favelas que eu não conhecia e passei a olhar com mais atenção para lugares da própria Maré. O resultado ficou muito bonito — conta Viana.

Cada favela recebeu um eixo temático e, dentro dele, foram identificados lugares, práticas culturais e personagens considerados “relíquias”, termo inspirado na gíria carioca usada para definir alguém muito antigo ou digno de respeito.

É o caso de Dona Celeste Estrela, de 85 anos, escolhida como relíquia de Manguinhos. Depois de trabalhar como empregada doméstica e em uma empresa de ônibus, decidiu, já aposentada, investir no sonho de ser escritora, atriz e cantora. Publicou o primeiro livro aos 79 anos e já concluiu o terceiro, à espera de uma editora.

— É muito emocionante receber esse reconhecimento. Passei por muita humilhação na vida, sofri racismo. Na escola, até a professora me chamava de “macaquinha”. Mas a cultura sempre mexeu comigo. Aos poucos fui tendo oportunidades, fiz teatro. Hoje escrevo peças, monólogos, conto minhas histórias. Gosto de rap e organizo eventos — diz Dona Celeste.

Em Brás de Pina, o destaque ficou para a luta dos moradores da Vila Santa Edwiges contra a remoção na década de 1960. Com apoio de urbanistas, eles elaboraram um projeto que previa a permanência das famílias, com abertura de ruas, implantação de infraestrutura e construção de moradias em sistema de mutirão. A experiência transformou a comunidade em referência para políticas de urbanização de favelas em todo o país.

— O ponto-chave é superar os estigmas, mudar a forma como a favela é vista e criar novos marcos para valorizar seu patrimônio e sua gente — conclui Lino.